Capítulo 9. O Tempo: dados e hipóteses para uma leitura cronológica


9.1. Introdução

São muito raros, quando existem, os dados que permitam datar, de forma inequívoca, estes tipo de monumentos; na verdade, o problema não é exclusivo dos menires e afeta uma série de outros aspectos da arqueologia pré-histórica: sem contar com a arte rupestre de ar livre que, pela sua própria natureza, é também quase sempre muito difícil de datar, assistimos hoje em dia a sérias discussões e desacordos a propósito das cronologias (sobretudo de fundação) dos monumentos funerários que são, apesar de tudo, muito mais adequados à obtenção de datas absolutas.

Não dispomos, por enquanto, de datações radiocarbónicas para os menires do Alentejo Central; foram, em todo o caso, publicadas, recentemente, três datações de termoluminescência (TL), efetuadas a partir de fragmentos cerâmicos do recinto dos Almendres (nº 1); porém, o desvio elevadíssimo a que estas datas estão sujeitas e a fraca contextualização das amostras, inviabilizam qualquer tipo de utilização das mesmas (Gomes, 2002: 125), para além de uma vaga indicação sobre o período de utilização/frequentação do recinto.

Mesmo assim, as escavações realizadas, nas últimas duas décadas, em vários tipos de monumentos meníricos centro-alentejanos, forneceram elementos de índole cronológica que, não sendo suficientemente seguros para arrumar de vez a questão, contribuíram, em diferentes graus, para uma aproximação melhor fundamentada; paralelamente, um investimento muito direcionado, em termos de prospecção regional, permitiu, pela primeira vez, o estabelecimento de pautas espaciais, cujas implicações cronológicas vieram reforçar a base de dados disponível.

Por fim, o cruzamento desta com a informação referente a outras áreas com as quais se podem, legitimamente, numa perspectiva histórica, admitir afinidades, permitiu, com alguma coerência, construir o esboço cronológico a seguir apresentado.

9.2. Os dados do Alentejo Central

9.2.1. A Idade do Ferro

No Alentejo Central, o monumento menírico cuja cronologia parece, atualmente, melhor estabelecida é o alinhamento da Tera (nº 14), em Pavia (Rocha, 1996, 1997, 1999, 2000a, 2000b, 2003). Trata-se, aliás, do único alinhamento bem documentado na Península Ibérica, aspecto que, desde logo, lhe permitiu atribuir algum carácter excepcional; mesmo assim, quando foi descoberto, foi, naturalmente, considerado um monumento pré-histórico, aparentado com os que, por essa altura, já eram conhecidos na área de Pavia, com destaque para o recinto de Vale d’El Rei (nº 15), a menos de 2 Km de distância.

No entanto, a subsequente escavação do alinhamento e, sobretudo, do conjunto de menires que jaziam amontoados a cerca de 100m, permitiu, sem margem para dúvidas, concluir que estamos em presença de um complexo funerário da I Idade do Ferro.

Fig. 9.1 - Alinhamento da Tera, em fase de escavação (seg. Rocha, 1997).

Fig. 9.2 - Planta das estruturas do alinhamento da Tera (seg. Rocha, 1999: 67).

Fig. 9.3 - Planta geral dos menires da Tera (alinhamento e necrópole) (levantamento de Pedro Alvim)

A necrópole propriamente dita, de onde seriam certamente provenientes os menires amontoados, é constituída por um cairn, onde foram, até agora, em escavação, descobertos mais dois monólitos) e várias urnas cinerárias, acompanhadas de oferendas (contas de colar e anforiscos de pasta vítrea, objetos metálicos e cerâmica).

A surpresa deste contexto cronológico-cultural resultou, antes de mais, da ausência virtual de paralelos, embora, em boa verdade, pouco se saiba ainda hoje sobre as necrópoles e os rituais funerários da I Idade do Ferro, no Alentejo Central. Teoricamente, é também possível que dois conjuntos de menires publicados, nos últimos anos, em regiões não muito afastadas - o de S. Cristóvão (Resende) (Silva, 1997) e o de Fregenal de la Sierra (Berrocal- Rangel, 1991) - sejam igualmente monumentos tardios, eventualmente sidéricos.

Curiosamente, o paralelo mais sugestivo para o complexo da Tera ocorre num contexto geográfico e cultural dificilmente relacionável com o Alentejo Central: trata-se do sítio de Fossa, nos Abbruzzi, em Itália. Esta necrópole de inumação, datada também da I Idade do Ferro, de carácter orientalizante, é composta por monumentos constituídos igualmente por um alinhamento, cujos menires, tal como na Tera, apresentam alturas decrescentes, na direção do cairn funerário, o qual aparece claramente delimitado por um círculo de menires (Cosentino et al., 2003).

Uma das várias questões que o sítio da Tera levanta, na perspectiva que aqui nos interessa, é a da relação entre este monumento e o relevante contexto megalítico pré-histórico patente na área envolvente: a hipótese de se tratar de menires pré-históricos reutilizados na construção da necrópole proto-histórica, não parece sustentável, atendendo à morfologia muito sui generis dos monólitos: de facto, os menires da Tera são muito mais esguios e angulosos que os dos recintos de Vale d’El Rei (nº 15) (Fig. 9.5) ou das Fontaínhas (nº 11), ambos presumivelmente pré-históricos.


Fig. 9.4 - Menires descobertos na escavação, junto aos prováveis limites do “cairn” (seg.Rocha,).

A

B

Fig. 9.5 - Os menires do recinto  de Vale d’El Rei (A) e da necrópole da Tera (B).

No entanto, se parece aceitável que o monumento da Tera seja integralmente de feitura sidérica, e não tenha havido reutilização de monólitos mais antigos, não deixa de fazer sentido a hipótese de o conjunto se ter, de alguma forma, inspirado nos monumentos neolíticos que certamente não passaram despercebidos na época, uma vez que se mantiveram intactos, ou quase, até aos nossos dias.

Num estudo recente sobre as paisagens míticas da Idade do Ferro britânica, o autor propõe que os monumentos neolíticos “continuaram como um elemento significante na paisagem” (Barrett, 1999: 258) e que “ a natureza dos monumentos e os depósitos associados são entendidos como a representação da organização de uma sociedade antiga” (Ibidem: 262).

Fig. 9.6 - Povoamento do Bronze Final, no Alentejo Central (seg. Mataloto, 2003: Est. 65) e localização da necrópole da Tera

Fig. 9.7 - Espólio da necrópole da Belhoa (seg. Gomes, 1997a)



Fig. 9.8 - Implantação do menir da Moinhola, no leito do Guadiana.

Também Richard Bradley, numa obra muito recente, apontou vários exemplos, no Norte de França e nas Ilhas Britânicas, em que necrópoles ou santuários da Idade do Ferro sobrepõem, de formas que excluem a simples coincidência, estruturas rituais mais antigas (Bradley, 2003: 130-146).

Convém sublinhar, por outro lado, que, em Pavia, os dados disponíveis não suportam uma eventual continuidade, sem rupturas, desde o Neolítico até à Idade do Ferro; na verdade, nessa área, apesar de intensamente prospectada (Calado, 1995; Calado, 2001a; Calado e Rocha, 1996; 1996-1997; 1997; Rocha, 1996; Rocha, 1999) existe um vazio absoluto de evidências de povoamento, entre o Calcolítico e a Idade do Ferro, sugerindo um abandono da área durante, pelo menos, um milénio; a confirmar-se esta situação, os menires da Tera seriam, no máximo, uma reinterpretação, no domínio dos rituais funerários, de um fenómeno bem presente fisicamente, mas cujo significado original deveria, nessa altura, estar completamente perdido ou, no mínimo, transfigurado. Note-se que, em termos de orientação, enquanto, nos recintos pavienses, se observam os cânones habituais (estão orientados genericamente a Nascente), o alinhamento da Tera é, nesse domínio, completamente anómalo (322º-142º). Verifica-se, no entanto, uma boa coincidência entre a orientação do alinhamento (e do conjunto alinhamento/necrópole) e a orientação do relevo.

A valorização de monumentos megalíticos pré-históricos, em contextos funerários da Idade do Ferro, teve, há poucos anos, uma confirmação bastante sugestiva, no Alentejo Central: a escavação de uma anta muito destruída (anta da Belhoa, em Monsaraz), de que apenas restava um esteio, no local, levou à descoberta de uma necrópole da Idade do Ferro, nas imediações (Gomes, 1997). De facto, os materiais da Idade do Ferro dispersam-se, à superfície, até junto do famoso menir da Belhoa (localizado a uns escassos 200 m), sugerindo que, de alguma forma, o menir e o esteio da anta teriam sido “reutilizados” na estrutura ritual do cemitério.

A presença de vestígios da Idade do Ferro, em estreita articulação espacial com menires, foi igualmente observada na área do recinto do Tojal: a breve sondagem efetuada no local, junto aos menires 15 e 16 (ver capítulo 5.2.), permitiu recolher alguns artefatos, de entre os quais um bordo extrovertido, de provável cronologia sidérica e, a meia distância entre este recinto e o menir do Monte do Tojal, à superfície, foi observado um fragmento de dormente de mó “de sela” . Por outro lado, no sítio da Quinta do Gato 8 (nº), também nas imediações do recinto, foi recolhido, em prospecção de superfície, um bordo extrovertido, com asa “de cesto”, característico dos conjuntos cerâmicos da I Idade do Ferro regional (Estampa 16, 6) (Calado, 2003.

No recinto megalítico da Portela de Mogos (nº 4), o responsável pela escavação refere, também sem as discriminar, a presença de cerâmicas da Idade do Ferro (Gomes, 1997a: 38); neste caso, como no do recinto do Tojal (nº 5) não foi possível esclarecer se se trata ou não de utilização funerária.

Por outro lado, a revisão, no contexto deste trabalho, dos menires do Monte das Flores (nº23), nos arredores de Évora (Oliveira e Sarantopoulos, 1994), permitiu, na área envolvente do local onde os dois monólitos tinham sido descobertos, identificar indícios da presença de uma necrópole da Idade do Ferro, nomeadamente cerâmicas e uma concentração de blocos de pequenas dimensões, análogos aos que integram o cairn funerário da Tera.

Finalmente, um outro caso em que se poderia conjecturar uma cronologia da Idade do Ferro, é o do menir da Casa da Moinhola (nº 50); este menir, muito heterodoxo em termos de matéria-prima (xisto) e de implantação (jaz em pleno leito do Guadiana), localiza-se nas imediações de um povoado da I Idade do Ferro, a Casa da Moinhola 2 (Calado, 2002b); no entanto, convém observar que, no mesmo contexto geográfico, a escassas dezenas de metros, existe um significativo conjunto de gravuras pré-históricas, constituído sobretudo por antropomorfos em painéis horizontais.

Num balanço global, a título provisório, pode concluir-se que os menires da Idade do Ferro, nas diversas modalidades possíveis, não parecem ter sido um fenómeno muito expressivo, no Alentejo Central.

9.2.2. A Idade do Bronze

Para a Idade do Bronze, porém, os dados são ainda mais raros. As escavações efetuadas recentemente no par de menires de S. Sebastião (nº 8) (Capítulo 5.6) e no recinto da Portela de Mogos (Gomes, 1997a), permitiram identificar ocupações, certamente de carácter ritual e, eventualmente, funerário, traduzidas na presença de um elevado número de peças de cerâmica, tipologicamente atribuíveis ao Bronze antigo/médio.

Note-se que a utilização funerária de monumentos mais antigos que, aparentemente, não foram originalmente concebidos para uma tal finalidade, é um fenómeno reconhecido noutras áreas megalíticas europeias (ver capítulo 11) e que, mais à frente, comentarei com mais pormenor.

9.2.3. Neolítico final/Calcolítico

Na região, existem também vários casos em que, associados aos menires, foram recolhidos materiais atribuíveis ao Neolítico final ou ao Calcolítico.

No presumível recinto dos Perdigões (nº 13) (Gomes, 1994), a escavação do menir 4 (referido, na obra citada, como menir 5), permitiu registar, para além de uma lareira e de fragmentos de cerâmica calcolítica, uma estrutura pétrea, de planta quadrangular, “formada por um muro baixo, totalmente pavimentada com pequenas lajes de xisto”, constituindo, segundo o escavador, uma reestruturação posterior à ereção do menir (Gomes, 1994: 327).

No concelho de Montemor-o-Novo, Mário Varela Gomes, Rosa Varela Gomes e Manuel Farinha dos Santos, efetuaram sondagens, nos inícios dos anos oitenta do século passado, junto dos menires da Pedra Longa (nº 16), tendo obtido um conjunto artefatual, aparentemente homogéneo, atribuível ao Neolítico final.

No recinto de Cuncos (nº 7), também em Montemor-o-Novo, a escavação não permitiu obter “espólio significativo”, mas o responsável pelos trabalhos refere, num primeiro texto, a recolha, por Gil Miguéis Andrade “em prospecções de superfície e quando do plantio da atual vinha”, de “abundante material atribuído ao Neolítico final-Calcolítico inicial” (Gomes, 1986: 15); anos mais tarde, num texto em que, pela primeira vez, o mesmo autor admitiu uma cronologia mais antiga para alguns menires, esclarece-se que, afinal, de entre o material recolhido por Gil Miguéis Andrade na área adjacente ao recinto de Cuncos, havia também “cerâmicas almagradas, incisas e impressas” e, pelos vistos, também lamelas (Gomes, 1994: 327).

Também a escavação do recinto de Vale d’El Rei (nº 15), em Pavia, forneceu apenas materiais que genericamente se poderão inserir no Neolítico final, nomeadamente duas carenas e um possível fragmento de ponta de seta, em xisto jaspóide, para além de escassos artefatos e restos de talhe de sílex e, sobretudo, de quartzo, pouco eficazes como elementos de diagnóstico cronológico (Capítulo 5.5).

É claro que, em nenhum dos casos conhecidos, os dados atestam a ereção dos menires no Neolítico final ou no Calcolítico, embora tal não se possa excluir liminarmente; na verdade, em todos eles, os materiais referidos provêm de áreas exteriores aos alvéolos dos menires, pelo que podem corresponder, efetivamente, a fases de utilização do monumento.

A ausência sistemática de materiais no interior dos alvéolos sugere, naturalmente, a inexistência, nos respetivos locais de implantação, de ocupações anteriores à construção dos monumentos. As únicas excepções, que eu saiba, são, neste aspecto, pouco conclusivas: trata-se de um fragmento de dormente de mó manual e um fragmento de machado de pedra polida, de secção transversal arredondada, inseridos (supõe-se que intencionalmente) nas coroas de sustentação de dois menires, no recinto megalítico de Vale Maria do Meio (nº 2), tal como aconteceu, aliás, no recinto da Portela de Mogos (nº 4), com dois artefatos de pedra polida (machado e enxó) também inseridos nas coroas de sustentação de dois menires (Gomes, 1997a: 38).

9.2.4. Neolítico antigo/médio

Para além dos casos referidos, em que, exceptuando o alinhamento da Tera (nº 14), todos parecem implicar cronologias relacionadas com as épocas, mais ou menos longas e, provavelmente, descontínuas, em que os sítios foram frequentados (mesmo que de formas distintas daquelas para as quais os monumentos foram concebidos), existem alguns artefatos que, por se repetirem de uma forma mais sistemática e por implicarem cronologias mais antigas, podem ser considerados contemporâneos da fundação ou das primeiras utilizações dos menires alentejanos.

De entre eles, são sobretudo as indústrias líticas de feição microlaminar que, nos últimos anos, se têm vindo a encontrar reiteradamente associadas aos menires e recintos megalíticos da região.

Trata-se de um fenómeno que tinha sido repetidamente observado também no contexto dos menires algarvios (Gomes, 1996; David Calado, 2000a; 2000b), se bem que neste último caso, ocorram igualmente, em muitos casos, as cerâmicas decoradas, atribuíveis ao Neolítico antigo.

Nos Almendres, a escavação, levada a cabo há cerca de quinze anos, foi muito avara em termos artefatuais: para além de dois fragmentos de cerâmica decorada, recolheram-se restos de duas lâminas de sílex e um crescente do mesmo material. Mais uma vez, segundo o responsável pela escavação, estes materiais indicam “com fortes probabilidades, tratar-se de indústria do Neolítico antigo ou dos inícios do Neolítico médio” (Gomes, 2002: 126-128).

Fig. 9.9 - Estruturas do menir 4 dos Perdigões (seg. Gomes, 1994: 329)

Fig. 9.10 - Materiais líticos do recinto do Xarez (seg. Gomes, 2000: 101)

Fig. 9.11 - Cerâmicas do recinto do Xarez (seg. Gomes, 2000: 105)

Também no recinto de Vale Maria do Meio (nº 2) (Calado, 1997a; 2000b), foi recolhido, em escavação, um espólio constituído quase exclusivamente por restos de talhe, lascas e uma lamela de sílex, para além de uma flecha transversal, de tipo Montclus (Gouraud e Marchand, 1999:18), com truncaturas não secantes, de comprimentos e obliquidades idênticas, sobre suporte lamelar, e apresentando retoques inversos abruptos e retoque diretos invasores. Trata-se de um tipo de artefato praticamente inédito em Portugal, de que recolhi, na região de Évora, dois outros exemplares em prospecções de superfície, nos povoados da Valada do Mato (nº 1119) e do Penedo do Ouro 1 (nº 1220) (Estampa 20, 1 e 2 ) e que genericamente apontam para o Neolítico antigo ou mesmo para o Mesolítico. A ausência de cerâmicas manuais, num contexto, como foi o do Vale Maria do Meio, em que as terras foram integralmente crivadas, é, sem dúvida um dos aspectos a reter, com implicações que, sendo eventualmente também cronológicas, serão sobretudo de ordem funcional.

No recinto do Xarez (nº 6), recolheu-se um trapézio, lamelas e outros artefatos de pedra lascada, em sílex, para além de dois fragmentos de cerâmica impressa (Gomes, 2000b); note-se que, na região, o Xarez é um dos raros sítios com menires (os outros são os recintos dos Almendres e da Portela de Mogos) onde também foram recolhidas, em escavação, cerâmicas impressas. Estes materiais foram interpretados pelo escavador como indicando uma cronologia “dos finais do Neolítico antigo ou dos inícios do Neolítico médio” (Gomes, 2000b: 108), precisão que, com base na amostra disponível, me parece manifestamente exagerada.

Na escavação do menir do Tojal (nº 5), em que o volume de terras removidas foi diminuto, foram recolhidos restos de talhe, um buril e lamelas de sílex, para além de alguns fragmentos de cerâmica manual lisa, entre os quais três bordos simples. Em termos cronológicos, os materiais líticos apontam, em traços gerais, para o Neolítico antigo/ médio, proposta que as cerâmicas, por serem muito incaracterísticas, não contrariam nem confirmam.

No par de menires de S. Sebastião (nº 8), para além das cerâmicas atribuíveis à Idade do Bronze, há que destacar os materiais líticos, constituídos por restos de talhe, lascas e lamelas (uma de bordo abatido) de sílex, tipologicamente integráveis no Neolítico antigo/médio, mas que tampouco destoariam num contexto Mesolítico.

Na Portela de Mogos (nº 4), cujos dados permanecem, na sua maioria, inéditos, sabemos apenas que, para além das evidências de ocupações proto-históricas, foram igualmente recolhidos materiais calcolíticos e “fragmentos de cerâmicas atribuíveis a fase evolucionada do Neolítico antigo ou já do Neolítico médio”; em termos de indústrias líticas, o autor faz uma referência vaga a “pequenos artefatos de pedra lascada” (Gomes, 1997a: 38) cuja tipologia desconhecemos, embora, pelos exemplos que tenho vindo a apontar, seja de supor a presença de indústrias micro-laminares.

Ainda que de uma forma indireta, no que diz respeito à datação dos menires, a escavação do povoado da Valada do Mato (nº 1119) (Diniz, 2004), permitiu obter, nos últimos anos, um conjunto de dados fundamentais para a discussão do povoamento do Neolítico antigo no Alentejo Central e, em particular, na área de Évora, onde, de facto, se localiza a maior densidade de menires da Península Ibérica.

Foi possível obter cinco datas radiocarbónicas que, genericamente, confirmaram as cronologias expectáveis a partir da análise dos dados da cultura material. Na verdade, por razões que se prendem com o tipo das amostras e com a fiabilidade dos métodos de datação utilizados, apenas uma dessas datas foi considerada utilizável, sem reservas (Diniz, 2004: 268-270); trata-se de uma datação feita sobre carvões, de espécie não identificada, provenientes de uma estrutura pétrea, a U.E. 5, que forneceu uma data, calibrada a 2, de 5040-4790 cal BC. As restantes datações, feitas sobre ossos queimados, apresentam valores mais elevados, que arrancam do segundo quartel do VI milénio cal BC.

Atendendo à estratigrafia, aquela data foi interpretada como “o momento terminal da ocupação da estrutura pétrea U.E. 5” (Diniz, 2004: 270), o que, naturalmente, supõe datas mais antigas para a génese do povoado.

Paralelamente, as escavações, nos arredores do recinto megalítico do Xarez (nº 6), de três sítios com ocupação do Neolítico antigo - a Fonte dos Sapateiros (nº2103 ), o Xarez 4 (nº 2164) e o Xarez 12 (nº2137) (Gonçalves, 2002a) - apesar de ainda se encontrarem em fase de estudo e de não se conhecerem, por enquanto, datações radiocarbónicas, parecem fornecer um contexto muito coerente com os escassos indícios recolhidos na escavação do recinto.

Na verdade, como se viu, os artefatos atribuíveis ao Neolítico antigo/médio e que, por serem os mais antigos, são conotáveis com a fase de construção e de utilização inicial dos monumentos, são sempre muito escassos, inclusivamente nos casos em que foram escavadas áreas consideráveis, aspecto que importa certamente ponderar a propósito do respectivo significado funcional.

Perante esta realidade, não espanta que, na maior parte dos casos, não tenha sido possível recolher, nas prospecções de superfície, qualquer tipo de indicador cronológico.

Uma das excepções é o recinto dos Almendres (nº 1), onde, em recolhas de superfície, surgiram, recentemente, novos artefatos de sílex, nomeadamente lamelas (Estampa 18, 27-37), o que naturalmente veio reforçar o conjunto muito modesto, obtido na escavação. Note-se que, nos Almendres, as condições de visibilidade do solo são habitualmente muito boas, uma vez que a presença constante dos visitantes não permite o crescimento da vegetação herbácea, no local (criando, infelizmente, problemas erosivos muito severos).

Para além dos Almendres, foram recolhidas algumas lascas e restos de talhe de sílex, junto do menir do Mauriz (nº 38) e do recinto das Fontaínhas (nº 11); embora o valor destes achados, como elementos de diagnóstico cronológico, seja muito limitado, a própria presença de sílex, sem outros materiais, sugere cronologias altas na sequência pré-histórica da região.

Porém, o principal contributo das prospecções de superfície, no Alentejo Central, para a resolução das questões relacionadas com a cronologia dos menires, prende-se com a definição dos contextos arqueológicos, de tipo macro-spacial, em que estes se enquadram.

Efetivamente, a proximidade espacial entre um qualquer monumento singular e, por exemplo, um povoado de uma determinada época, não implica, automaticamente, uma relação de contemporaneidade entre ambos; essa relação ganha, no entanto, plausibilidade e consistência se o fenómeno se repetir de uma forma sistemática.

Na verdade, descontando as lacunas que inevitavelmente existem, se analisarmos os dados reunidos para o Alentejo Central, no seu conjunto, podemos observar uma nítida sobreposição entre as áreas de maior densidade de monumentos meníricos e aquelas em que se concentra a maior parte dos vestígios de habitat do Neolítico antigo/médio. Concretamente, as densidades de uns e outros são mais elevadas no território a Oeste de Évora e, em segundo lugar, na planície de Reguengos de Monsaraz e perdem expressão, de forma diretamente proporcional, nas área de Montemor-o-Novo e de Pavia; nas restantes áreas, tanto os menires, como os sítios do Neolítico antigo, são meramente vestigiais.

Fig. 9.12 - Representação gráfica da distribuição de monumentos e sítios, por concelho.

Em contrapartida, os habitats mais tardios, do Neolítico final e Calcolítico, cuja distribuição apresenta um padrão muito mais ubíquo, dificilmente se poderão relacionar com as principais manchas de menires alentejanos.

A título de exemplo, estes povoados existem de forma muito significativa, nos concelhos de Borba, Vila Viçosa ou Alandroal, onde, até à data, não se conhecem quaisquer menires - à excepção do da Casa da Moinhola (nº 50).

Para além da distribuição dos povoados em que a informação proporcionada pelos materiais de superfície permitiu, minimamente, os respectivos enquadramentos cronológicos, é possível igualmente, rastrear, nos sítios menos bem definidos, integrados, de uma forma mais aberta, no Neolítico/Calcolítico, assim como nos achados avulsos, distribuições diferenciadas de alguns indicadores cronológicos, em função da presença/ ausência de menires.

Note-se que, por exemplo, o sílex, sempre muito abundante nos espólios do Neolítico antigo/médio da região (Diniz e Calado, 1998; Gonçalves, 2002a; Diniz, 2004), ocorre, sistematicamente, em percentagens muito diminutas nos povoados do Neolítico final/Calcolítico (Calado, 2001a; 2002b; 2002c; Gonçalves e Sousa, 2000); pelo contrário, os percutores, atingem percentagens relativamente elevadas nos povoados mais recentes, enquanto, por norma, escasseiam nos mais antigos.

Com base nestas observações, parece significativa a relação positiva entre as áreas com maior presença de sílex e menires e a relação negativa entre a distribuição destes e dos percutores.

Numa escala mais aproximada, podemos aduzir outro tipo de relação negativa, visível sobretudo na área de Évora: trata-se de uma exclusão bastante nítida entre menires e antas, situação bem referenciada noutras áreas da fachada atlântica (Capítulo 11) e, com menor nitidez, também em Reguengos e Pavia.

Um outro aspecto a ter em conta, no que diz respeito à cronologia dos menires mais antigos, relaciona-se com as descobertas revolucionárias que, na Bretanha, a partir dos anos 80, permitiram identificar, nas arquiteturas funerárias megalíticas, um fenómeno quase sistemático de reutilização de menires decorados; com efeito, começaram igualmente a dar frutos, no Alentejo Central. Efetivamente, nos últimos tempos, têm vindo a ser identificados alguns prováveis menires usados ou reutilizados nas estruturas de antas (Calado, Alvim e Henriques, n.p.). É certo que as implicações cronológicas deste facto são ainda muito vagas, tanto mais que as cronologias das referidas arquiteturas funerárias não estão ainda suficientemente esclarecidas.

Por último, as gravuras que reforçam a simbologia dos monumentos, apesar de, em vários aspectos, remeterem para um fundo ideológico comum ao megalitismo funerário e à própria arte rupestre de ar livre, apresentam, nos menires alentejanos (e bretões), temáticas e técnicas muito sui generis, sem paralelos nos outros tipos de suportes (Calado, 2004). O baixo-relevo ou o falso baixo-relevo, por exemplo, considerados por E. Shee como técnicas tardias (Shee, 1981), são hoje vistos como um claro indicador de antiguidade (Bueno e Balbín, 2002: 617). De resto, na óptica, até certo ponto, independente, da arte megalítica “os seus temas e técnicas têm antecedentes muito mais antigos, sob a forma de estátuas, estelas ou menires, por exemplo na Bretanha (...) ou na Península Ibérica” (Bueno e Balbín, 2002: 615).

9.3. Povoados, antas e menires, nas áreas limítrofes

Nas áreas que estão, mais ou menos diretamente, em contacto com o Alentejo Central, os menires são relativamente escassos, tal como os povoados do Neolítico antigo; em contrapartida, as antas e os povoados do Neolítico final e Calcolítico estão, em algumas delas, relativamente bem representados.

A Norte, no distrito de Portalegre, cujos menires (sobretudo os mais monumentais) sugerem, como veremos, estreitas relações com os do Alentejo Central, conhecem-se, por enquanto, apenas raras evidências de povoamento do Neolítico antigo/médio (Martins et al., 1999; Deus, 2002), refletindo, aparentemente, a fraca densidade relativa de menires (Oliveira, 1998; Oliveira e Oliveira, 1999-2000); por outro lado, a presença de povoados do Neolítico final/Calcolítico surge, com alguma força, em sectores onde foram efetuadas prospecções recentes (Boaventura, 2001; Martins et al., 1999; Deus, 2002), e onde, concomitantemente, as antas estão muito melhor representadas que os menires.

Para além desta imagem geral, muito coerente com as observações efetuadas mais a Sul, destaca-se a datação radiocarbónica obtida a partir de carvões recolhidos no alvéolo do menir da Meada, o mais comprido da Península Ibérica; trata-se de uma data estatisticamente idêntica àquela que, na Valada do Mato (nº1119), corresponde, aparentemente, a um dos momentos finais do povoado: 5010-4810 cal BC, para um intervalo de confiança de 2 sigmas (Oliveira, 1997: 234).

Fig. 9.13 - Povoamento do Neolítico Final e Calcolítico, na região da serra de Ossa (seg. Calado, 2001: 248).


Fig. 9.14 - Menir do Mau Cabrão (Vidigueira)


Fig. 9.15 - Sepultura do Monte do Cabeça (Ponte de Sor).

Fig. 9.16 - Sepultura junto ao recinto do Torrão (Elvas).


Recorde-se que o menir da Meada possui, em termos morfológicos, bons paralelos no Alentejo Central, como o menir 1 de S. Sebastião (nº 8) ou o menir 1 dos Perdigões (nº 13), entre outros, e que a implantação, próxima do topo de uma vertente exposta a Leste remete, claramente, para o padrão dominante nos recintos e nos grandes menires isolados da área de Évora.

No distrito de Beja, a Sul da serra do Mendro, os menires são ainda mais raros, resumindo-se a dois exemplares, cujas morfologias, dimensões e implantações os aproximam igualmente dos menires do Alentejo Central (Mantas et al., 1986; Lopes et al., 1997: 34-36). O Neolítico antigo/médio está igualmente mal representado nesta área: no povoado da Foz do Enxoé (Soares, 1992; Diniz, 1995), que dista cerca de 2,5 Km do menir da Aldeia dos Testudos, foram recolhidas algumas cerâmicas decoradas, inseridas num contexto do Neolítico final, e, na Toca da Galiana (Soares, 1992), em frente à Sala nº1 (Gonçalves, 1989c), recolhi um fragmento de cerâmica decorada com ungulações, associada a lascas e restos de talhe de sílex. As sepulturas megalíticas estão melhor representadas que os menires e, paralelamente, conhece-se igualmente um número razoável de povoados do Neolítico final-Calcolítico (Gonçalves, 1989b; 1989c; Lopes et al., 1997).

Na margem esquerda do Guadiana, no território imediatamente a Leste da presente área de estudo, conhecem-se apenas dois sítios, de escassa entidade, atribuíveis ao Neolítico antigo/médio: a Fábrica da Celulose e a Quinta da Fidalga (Soares e Silva, 1992; Silva e Soares, 2002). Note-se que, apesar da “fronteira” natural que o rio, até certo ponto, representa, ambos se localizam junto ao Guadiana, em frente da baixa do Xarez, área com a qual, de algum modo, se podem contextualizar; em todo o caso, para Leste, não se conhecem menires, nem outros povoados do Neolítico antigo/médio. Tal como no Alentejo Central, também nas áreas limítrofes têm sido detectados alguns menires inseridos na estrutura de construções funerárias; neste âmbito, merecem um destaque particular os possíveis menires inseridos em sepulturas submegalíticas, monumentos que, apesar das dúvidas que legitimamente persistem, são considerados, por alguns autores, os mais antigos (Cardoso et al., 1995; 2000a; Calado, 2003b; Silva e Soares, 1983; 2000). Trata-se da sepultura do Monte do Cabeço, em Ponte de Sor, localizada nas imediações do recinto do Alminho (Martins et al., 1999) e, também no distrito de Portalegre, e em relação estreita com o outro recinto megalítico conhecido neste distrito, o do Torrão, uma pequena estrutura funerária em cuja construção foram utilizados blocos meniróides (Silva e Albergaria, 2001), eventualmente provenientes do recinto desmantelado.

9.4. Os dados de outras áreas

Noutras áreas mais afastadas, mas espacialmente relacionáveis com o Alentejo Central, é igualmente possível determinar uma relação sugestiva entre a presença de menires e de povoados do Neolítico antigo/médio.

O Algarve é, neste aspecto, o paralelo mais esclarecedor: na metade oriental da região, praticamente não existem os menires, nem os povoados do Neolítico antigo/médio, enquanto, pelo contrário, na parte ocidental, o Barlavento algarvio, existem uns e outros, em número bastante elevado.

As datas surpreendentemente antigas, obtidas pelo método da OSL, apontando para um patamar cronológico demasiado amplo e anterior ao VI milénio a.C., não podem, por enquanto, ser levadas à letra; aceitá-las, sem reservas, implicaria uma revisão demasiado profunda do próprio enquadramento cultural dos menires algarvios (Calado et al., 2003; 2004) e colocaria sérias dificuldades a uma comparação com os dados mais antigos que, com muitas resistências, começam a ser aceites noutras áreas.

No entanto, mesmo que essas datações sejam revistas em baixa, é possível que os menires algarvios sejam efetivamente muito antigos, havendo, seguramente, alguns indícios que apontam nessa direção.

Particularmente importante, neste contexto geográfico, é a datação de uma estrutura de combustão junto da base do menir do Padrão, considerada de carácter ritual, que aponta para meados do VI milénio a.C.

Por outro lado, a presença de vestígios de habitat do Neolítico antigo, nomeadamente cerâmicas decoradas e estruturas de combustão, em estreita associação espacial com os menires (Gomes et al., 1978; Gomes e Cabrita, 1993; Gomes, 1996: 155; Calado, 2000a; 2000b), destoa claramente do padrão observado nos menires alentejanos e, em boa verdade, na esmagadora maioria dos menires europeus; a separação sistemática entre monumentos e habitats sugere, naturalmente, uma utilização exclusivamente ritual dos monumentos, pelo que, no Algarve, poderíamos estar perante uma reutilização, como povoados, de sítios originalmente concebidos para outras funções. Isto se se tratar, efetivamente, de povoados...

Uma certa relação entre os menires algarvios e alentejanos é, no entanto, sugerida pelos motivos gravados no menir atualmente exposto no Museu de Silves (Fig. 9.17 e 10.8), um dos exemplares algarvios mais notáveis; este menir apresenta uma decoração claramente inserida nos padrões regionais, a que parecem ter-se acrescentado, posteriormente, dois objetos de tipo báculo (com pouca curvatura) que remetem para a iconografia alentejana (Gomes, 1996).


Fig. 9.17 - Báculos do menir exposto no Museu de Silves.

No Alentejo Litoral, foram obtidos novos dados, ainda inéditos, que parecem constituir a primeira evidência estratigráfica para a antiguidade dos menires portugueses: de facto, a reescavação de Vale Pincel 1, em Sines, permitiu identificar um pequeno monólito, sob uma lareira do Neolítico antigo, cuja cronologia antiga (neolítica ou anterior) parece incontestável (C.T. Silva, informação pessoal). Note-se, aliás, que outros pequenos monólitos meniróides foram igualmente identificados na escavação.

Se se confirmarem as datas obtidas em Vale Pincel 1, as quais, uma vez calibradas, rondam os meados do VI milénio a.C., podemos estar em presença de restos de um monumento construído ainda na primeira metade desse milénio, eventualmente contemporâneo das estruturas funerárias, de planta em ferradura, de Vale das Romeiras e da Moita do Sebastião. As dimensões dos monólitos remetem, em todo o caso, para realidades que, por muito que pareçam desempenhar já um papel ritual, carecem ainda de verdadeira monumentalidade e, nesse aspecto, não são, efetivamente, comparáveis aos monumentos que constituem o objeto deste estudo.

Note-se que, no mesmo contexto paisagístico, foi identificado, numa cota superior ao(s) povoado(s) neolítico(s) de Vale Pincel 1 e 2, um povoado calcolítico, Monte Novo, com um recinto (supostamente defensivo) interpretado como a reutilização de um conjunto de menires (Gomes, 1989: 262). No entanto, uma observação atenta do local e da envolvente geológica, não permitem, sem fortes reservas, manter uma tal leitura (Fig. 9.18).


Fig. 9.18 - Dois aspectos do recinto do Monte Novo.

Em relação às restantes áreas meníricas peninsulares, que serão, aliás, objeto de uma caracterização genérica, no capítulo 6, é difícil, no estado atual dos nossosconhecimentos, avançar com dados cronológicos seguros.

De uma maneira geral e atendendo sobretudo às propostas publicadas, estaríamos, na maioria dos casos, perante monumentos tardios, em comparação com o panorama que parece delinear-se no Alentejo e Algarve; a única excepção aparente, em relação à qual, por ser um caso isolado, são preciso cuidados redobrados, localiza-se na Cantábria (Serna, 1997).

Na Bretanha, apesar da longa história da investigação sobre o tema (Cassen et al., 2000) e da monumentalidade excepcional de alguns monumentos, os menires carecem, em geral, de elementos cronológicos seguros; mesmo assim, como veremos, existem indícios que permitem enquadrar alguns deles em datas à volta de 5000 a.C., ou mesmo anteriores (Le Roux, 1999; Cassen et al., 2000 ; L’Helgouac’h et al., 2001; Patton, 1993; Thorpe, 1996;Giot et al., 1998; Bueno e Balbín, 2002: 615).

As fortes analogias entre os menires e recintos bretões (sobretudo do Morbihan) e alentejanos, deixando em aberto a possibilidade de uma maior antiguidade num ou noutro grupo, reforçam, em todo o caso, a proposta de uma génese contemporânea do processo de transição Mesolítico-Neolítico.

9.5. Síntese e propostas

As cronologias propostas, com base em dados ainda muito fragmentários, não podem, nem pretendem, ser aplicadas indiscriminadamente a todos os monólitos listados no Volume 2. Recordo aqui a opinião prudente expressa por V. Gonçalves, perante um tipo de monumentos cujas variantes (morfológicas, tipológicas e, necessariamente, cronológicas e culturais) precisam ainda de ser cabalmente esclarecidas: “ a atribuição firme dos menires a uma ‘cultura’, ou mesmo a uma dada faixa diacrónica, é objetivamente impossível, tal como impossível é considerá-los em bloco como uma única realidade” (Gonçalves, 1992:).

Como já fiz notar, as cronologias antigas para os primeiros menires alentejanos (ou algarvios) têm sido difíceis de integrar nos modelos correntes, tanto para a neolitização como para o megalitismo; os principais obstáculos teóricos são “uma densidade populacional relativamente baixa; um modo de vida baseado na exploração extensiva de territórios (com uma grande mobilidade residencial), que, em princípio, não está de acordo com os princípios sociais e simbólicos que presidem à primeira marcação monumental da paisagem” (Jorge, 1999: 25).

No mesmo registo, compreendem-se igualmente as resistências dos que interpretam o megalitismo como a “superestrutura ideológica ao serviço da consolidação da formação social de tipo segmentário” (Soares, 1996: 48).

Para João Cardoso que, numa síntese recente, exprimiu o mesmo tipo de reservas “tal significa que, embora possível, ainda não se pode atribuir com segurança, com base nos argumentos aduzidos, a cronologia do fenómeno menírico como remontando ao Neolítico antigo Evolucionado” acrescentando, no entanto, que não se pode negar que, “especialmente os pequenos bétilos (...) como os encontrados no povoado de Vale Pincel I (escavações de J. Soares e C. Tavares da Silva) sejam efetivamente de tal época” (Cardoso, 2002-229).

Para além das dificuldades relacionadas com o suposto patamar social e económico atingido pelas comunidades do Neolítico antigo, existem sérias reservas de carácter metodológico, que derivam da inexistência de métodos de datação direta dos menires e do risco de as datações absolutas obtidas sobre materiais orgânicos (ou outros) se referirem a realidades anteriores aos monólitos em cujo contexto aparente foram recolhidos (Gomes, 1994; Oliveira, 1997; Zilhão, 1998).

No entanto, os modelos podem e devem ser adaptados face às novas evidências e, por muito frágeis que sejam os dados disponíveis, é com eles que temos que ir construindo e reconstruindo as leituras possíveis.

A presença de indústrias líticas ou cerâmicas, atribuíveis tipologicamente, ao Neolítico antigo/médio, acaba por ser, objetivamente, a “prova” mais direta da antiguidade de alguns menires alentejanos. Na verdade, se não houvesse outras evidências, poderíamos sempre argumentar com a possibilidade de os monumentos terem sido construídos em locais onde permaneciam os vestígios de ocupações anteriores; essa situação tem vindo, aliás, a verificar-se, com alguma regularidade, em relação aos monumentos megalíticos funerários, em vários quadrantes da Europa megalítica (Boujot et al., 1998; Bueno et al., 1999; 2002; Cooney, 2000: 30; 0’Sullivan, 2002; Correia, 2002).

Porém, essa possibilidade teórica dificilmente se conjuga com o facto de, no Alentejo Central, os referidos artefatos serem recorrentes (e, muitas vezes, os únicos) em todos os sítios com menires, escavados a partir dos anos noventa; por outro lado, se fossem anteriores aos menires, seria natural que alguns desses artefatos ocorressem no interior dos alvéolos, o que, até à data, nunca se verificou, nas várias dezenas de alvéolos escavados.

Por outro lado, mesmo que só uma parte dos menires tivesse, efetivamente, sido erguida no Neolítico antigo, isso bastaria para que as ilações fundamentais sobre a neolitização e a origem do megalitismo regional fossem idênticas.

Recorde-se que a cronologia relativa dos menires alentejanos, que se começou a desenhar, no início da década de noventa (Calado, 1990), assentava, num primeiro momento, nos seguintes argumentos:

1. a descoberta de dois povoados do Neolítico antigo/médio, nas proximidades imediatas do recinto dos Almendres e do menir do Monte dos Almendres;

2. a associação recorrente, no Algarve ocidental, entre menires e povoamento do Neolítico antigo;

3. as semelhanças iconográficas entre os temas dos menires alentejanos e os do Morbihan, e a cronologia recuada sugerida pela reutilização destes últimos nas arquiteturas funerárias;

4. a observação estratigráfica, atestada pelos escavadores da anta da Granja de S. Pedro, de que os menires tinham precedido a mamoa.

5. a valortização do carácter elementar da arquitetura menírica, em comparação com a complexidade estrutural das grandes sepulturas megalíticas.

As prospecções na área envolvente do Vale Maria do Meio (nº2), iniciadas em 1992/1993 e concluídas em 1995, durante a escavação do recinto, revelaram, entretanto, a intensidade do povoamento do Neolítico antigo, no contexto geográfico dos três grandes recintos de Évora.

A somar às evidências acumuladas, surgiram, na primeira metade dos anos noventa, as datas dos menires do Padrão e da Meada.

A partir de 1995, começaram a ser recolhidos, em escavação, sistematicamente associados aos menires, os materiais líticos (e, residualmente cerâmicos) tipologicamente enquadráveis no Neolítico antigo/médio.

É reconfortante observar, por exemplo, que se considerarmos, numa perspectiva hipotético-dedutiva, o potencial preditivo do modelo cronológico que foi sendo escorado nestas evidências sucessivas, era de esperar que:

1. a prospecção da área envolvente do recinto do Xarez (nº 6) confirmassem uma ocupação intensa, no Neolítico antigo/médio;

2. a escavação do recinto identificasse a presença de materiais atribuíveis genericamente a essa época.

3. a escavação dos povoados confirmasse uma presença significativa de comunidades dessa época, na área.

Na verdade, embora não tenham sido especificamente desenhadas para testar essas hipóteses, as investigações desenvolvidas, a partir de 1998, nessa micro-paisagem que é a Baixa do Xarez, confirmaram, uma por uma, todas as previsões.

A reavaliação das plantas dos recintos e a valorização da planta em ferradura permitiram, por seu turno, sustentar paralelos em relação às estruturas rituais mesolíticas, com implicações cronológicas imediatas.

A constatação da antiguidade relativa dos menires, em geral, e a atribuição da maior parte deles ao Neolítico antigo/médio, são apenas, como na maior parte das questões científicas, o despoletar de um sem número de outros problemas cronológicos. Algumas das considerações que se seguem, mais do fornecer respostas de que por ora carecemos, pretendem lançar pistas, entre outras que seriam possíveis e que, no estado atual da questão, importa ponderar.

A forma e dimensões dos menires, tal como as plantas dos conjuntos, parecem ter, pelo menos até certo ponto, implicações cronológicas. Com efeito, tomando como referência o Alentejo Central e, dentro desta região, os monumentos que foram escavados e para os quais se possuem informações de teor cronológico, podemos afirmar que, nos menires atribuíveis ao Neolítico antigo, são raras as formas angulosas, dominando largamente os perfis arredondados e bojudos (variando entre as formas ovóides e as cilindróides, quase sempre um pouco achatadas). Pelo contrário, os menires da 1ª Idade do Ferro, bem representados pelo monumento da Tera, apresentam formas muito mais angulosas e esguias; note-se que os monumentos da Tera (nº 14) e do Vale d’El Rei (nº 15), se localizam a menos de 2 Km um do outro, estando, portanto, sujeitos aos mesmos condicionalismos, em termos de matéria-prima.

Nesta mesma ordem de ideias, não deixa de ser curioso que, na Bretanha, os famosos alinhamentos de Carnac que são, ao que parece, relativamente tardios, na sequência regional (Sherratt, 1998), apresentem maioritariamente formas irregulares e angulosas - tal como, por exemplo, acontece com os alinhamentos de Monteneuf (Lecerf, 1999) - enquanto que os grandes menires-estelas se aproximam morfologicamente dos menires neolíticos alentejanos.

Como se sabe (Calado, 2002b), existem outras semelhanças notáveis entre os menires alentejanos e bretões, apenas evidentes entre os que, numa e noutra área, são, aparentemente, dos mais antigos.

Na verdade, essa analogia verifica-se, entre outros aspectos, na planta dos recintos: trata-se, com efeito, das duas únicas áreas meníricas europeias em que os recintos apresentam, recorrentemente, plantas “em ferradura” (Fig. 7.1; 7.2; 11.7). Na Grã-Bretanha e Irlanda, pelo contrário, existem centenas de recintos megalíticos, praticamente todos de planta fechada e, todos eles, aparentemente mais tardios (Burl, 1979, 1999).

Com tudo isto, em síntese, podemos concluir – provisoriamente – que os indícios cronológicos, diretos e indiretos, de que dispomos permitem, com alguma segurança, considerar, pelo menos, duas épocas de construção de menires, no Alentejo Central: uma, a mais antiga, a que pertence a maior parte dos monumentos registados, que corresponde, grosso modo, à fase de instalação, na região, das primeiras comunidades neolíticas; a outra, a que pertence um número muito restrito de monumentos, que poderíamos designar como epimegalítica e que corresponde cronológica e culturalmente à I Idade do Ferro. O carácter orientalizante desta fase, bem patente nalguns aspectos da cultura material, deve ter revestido, aqui, um acentuado matiz local, embora, ecoando, eventualmente, realidades exteriores à região.

A raridade do monumento da Tera, remete igualmente para a posição claramente marginal que o monumento apresenta, tendo em conta a distribuição conhecida do povoamento proto-histórico da região (Calado e Rocha, 1996-1997; 1997).

Pelo meio, no Neolítico final/Calcolítico e na Idade do Bronze, não é certo que tenha havido ereção de novos menires; houve, isso sim, utilizações e reutilizações dos monumentos mais antigos; por outro lado, o conceito parece ter sobrevivido, pontualmente, no contexto da construção de monumentos megalíticos funerários, como pode ser o caso dos monólitos esguios, usados como pilares na arquitetura da Anta do Zambujeiro (nº 3) ou da Anta das Cabeças (nº 64) ou das próprias estelas, pouco frequentes, que ocorrem junto à entrada de alguns deles - Zambujeiro (nº 3), Correia (nº 41) e, no distrito de Portalegre, Saragonheiros (Fig. 9.19).

Fig. 9.19 - Monólito tombado junto à entrada do corredor da anta dos Saragonheiros.

No grupo mais recente, para além do monumento da Tera e, com menos certezas, do do Monte das Flores (nº 23), poderíamos, em função da morfologia dos menires, incluir, eventualmente, monólitos mais duvidosos, como os da Lucena (nº 26), da Abaneja (nº 88), da Chaminé (nº 76), da Bota (nº 81), do Carrascal (nº 17) ou do Xarez 2 (nº 25).

No grupo mais antigo, podem incluir-se todos os recintos, todos os menires grandes (3m-4,5m) e muito grandes (>4,5m), todos os menires decorados e, com menos segurança, muitos dos menires de dimensões médias (1,5m-3m), de formas arredondadas.

Considerando apenas os recintos megalíticos, e atendendo às cronologias dos contextos habitacionais identificados, os monumentos da área de Évora parecem ser os mais antigos da sequência neolítica; pesam, igualmente, nesta hipótese, a manifesta centralidade geográfica desta área, em função das redes de caminhos naturais que estruturam a região e, por isso também, um vínculo especial com os estuários do Tejo e do Sado. Tendo em conta as densidades diferenciais de vestígios do Neolítico antigo (e a própria presença de cerâmica cardial), Reguengos de Monsaraz corresponderia a uma progressão, a partir de Évora, ainda numa fase antiga, enquanto os restantes núcleos - Cuncos , Tojal e Pavia - seriam todos mais tardios (Fig. 9. 20).

Esta sequência sugere uma instalação, em força, dos primeiros grupos neolíticos alentejanos numa área nuclear, a partir da qual, em etapas sucessivas, numa lógica de enxameamento (Gonçalves, 1989b),os territórios periféricos se neolitizam e megalitizam .

A hipótese de uma colonização em ilhas de povoamento, concentrando efetivos demográficos em áreas selecionadas, restritas, baseia-se, por um lado, nas evidências da distribuição dos próprios vestígios de habitat da fase inicial e, por outro, da distribuição dos recintos megalíticos; no entanto, se considerarmos as dificuldades logísticas necessárias à “domesticação” de uma paisagem densamente florestada e à própria construção de monumentos altamente exigentes, em termos de mão de obra, é óbvio que um povoamento concentrado, traduzido numa capacidade laboral acrescida, baseada eventualmente num sistema de cooperação e entreajuda, seria muito mais eficaz do que uma colonização dispersa em pequenos núcleos isolados. A ocupação extensiva das paisagens regionais, em redes contínuas, sem grandes espaços vazios entre os sítios de habitat é, aparentemente, um fenómeno muito mais recente, visível a partir do Neolítico final e, de uma forma inequívoca, a partir do Calcolítico (mapas 6-11).

Por outro lado, a hierarquização cronológica das diferentes áreas fundamenta-se igualmente numa notória intensidade diferencial, em termos da presença de vestígios de habitat do Neolítico antigo e das dimensões e complexidade dos recintos.

Uma anterioridade da área de Reguengos de Monsaraz, em relação aos outros núcleos periféricos, justifica-se, antes de mais, pela posição igualmente privilegiada deste território, no contexto do Alentejo Central: por um lado, pela relação com o Guadiana (e com o santuário rupestre do Alqueva) e, por outro, pela presença das incontornáveis paisagens graníticas. Os indícios desta aparente anterioridade encontram-se, nesta perspectiva, nos vestígios de habitat do Neolítico antigo, concentrados, na sua maior parte, nas proximidades do recinto do Xarez (nº 6) (Calado e Mataloto, 1999; Gonçalves, 2002a) e na presença de vários menires decorados que, à excepção da área de Évora, não foram até agora identificados nos restantes núcleos. Uma alternativa a esta leitura, passaria, com os dados disponíveis, por uma instalação virtualmente simultânea em Évora e Reguengos de Monsaraz, em que as diferenças, em vez de décalages temporais, traduzissem, efetivamente, personalidades culturais distintas ou em vias de diferenciação.

De uma forma geral, entre os recintos e os menires isolados, a imagem disponível favorece uma anterioridade dos primeiros; esta hipótese, que pode não ser generalizável, baseia-se principalmente nos alinhamentos astronómicos identificados, os quais, atendendo à orientação dos recintos e à exposição dos locais em que recintos e menires se implantam, parecem ter sido projetados de Oeste para Leste. Nesta situação, teríamos, por exemplo, o menir do Monte dos Almendres (nº 32) (e, eventualmente, o de Vale de Cardos), projetados em função dos Almendres (nº 1), ou os menires da Casbarra 1 (nº 31) e do Mauriz (nº 38), projetados em função dos recintos da Portela de Mogos (nº 4) e do Vale Maria do Meio (nº 2).

Fig. 9.20 - Proposta de sequência evolutiva da neolitização do Alentejo Central.

A montante desta possível sequência, poderíamos ainda admitir, por hipótese, uma fase inicial, em que teria sido feita uma primeira marcação da paisagem, através da implantação de grandes menires isolados e, só num segundo momento, e apenas em alguns casos, se teriam construído os recintos. Nesta variante, os menires “centrais”, de formas ovóides, todos anicónicos, seriam contemporâneos de alguns dos grandes meniresisolados, ou associados em pares, com morfologia análoga, de que se destaca o menir 2 de S. Sebastião.

Neste quadro hipotético, os grandes menires cilíndricos poderiam ser genericamente mais recentes que os menires ovóides de tipo “pedra talha” e teriam desempenhado, eventualmente, essa mesma função de marcação inicial em paisagens só ocupadas numa segunda ou mesmo terceira vaga.

Note-se que, exceptuando o menir 1 de S. Sebastião (nº 8) (que poderia, aliás, ter sido acrescentado numa fase mais recente) e o do Mauriz (nº 38), que ocupa a extremidade do alinhamento que se inicia na Portela de Mogos (nº 4) e pode, por isso, ser o também o mais recente, essa modalidade está ausente da área de Évora. Pelo contrário, os grandes menires da Meada e do Patalou, no distrito de Portalegre (Oliveira e Oliveira, 1999-2000), são de formas cilíndricas e localizam-se em territórios onde o Neolítico antigo ainda não foi identificado, até agora, de forma convincente. O menir da Caeira (nº 30), em Pavia, ou o menir 1 dos Perdigões (nº 13) e o menir 1 do Xarez (nº 6), poderiam também testemunhar o dito processo.

Os problemas cronológicos não se esgotam, evidentemente, nas cronologias relativas acima esboçadas; mesmo que fosse possível, e estamos longe de consegui-lo, ordenar sequencialmente os monumentos, ficariam ainda por resolver as questões relacionadas com a duração do fenómeno. Os monumentos mais antigos podem, na minha opinião, ser atribuídos, sem grandes riscos, à segunda metade do VI milénio a.C., na sequência da colonização neolítica da região; quanto aos mais recentes – mesmo considerando apenas os recintos – creio que, por agora, é demasiado arriscado propor um limite, embora seja razoável que a maior parte tenha sido construída num lapso relativamente curto, de algumas gerações, com um limite superior que não deve ultrapassar os meados do V milénio a.C.

Um dos cenários possíveis, no quadro do modelo de neolitização regional esboçado no capítulo 12, seria a construção de menires desde a fundação dos primeiros povoados neolíticos, até à extinção das últimas comunidades mesolíticas dos estuários. A construção de cada grupo intraregional corresponderia à instalação, em momentos diferentes, de novos colonos neolíticos, oriundos dos núcleos mais antigos ou do próprio esvaziamento progressivo dos concheiros.

De momento, é preciso dar tempo ao tempo.

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Abstract

     Este trabalho corresponde ao Volume 1 de uma Tese de Doutoramento, defendida na FLUL, em 2005 e aprovada por unanimidade. O júri, como ...