Capítulo 6: Caracterização morfológica dos menires do Alentejo Central


6.1. Aspectos preliminares

Antes de avançar com uma caracterização dos menires do Alentejo Central, parece-me útil discutir algumas das questões relacionadas com a própria identificação genérica dos menires.

Deixando as questões da atribuição cronologico-cultural para o capítulo 9, ficamos, mesmo assim, com um problema epistemológico fundamental: como distinguir um bloco natural alongado, de forma

meniróide (considerando as diferentes morfologias conhecidas), de um verdadeiro menir, isto é, um bloco natural alongado, na maioria das vezes, como veremos, sem qualquer afeiçoamento, mas que, por razões de ordem simbólica/ritual, foi transportado e implantado em posição vertical?

O problema agrava-se, no caso dos menires alentejanos, pelo facto de serem muito raros, ou mesmo inexistentes, os que sobreviveram eretos até aos nossos dias; na verdade, alguns dos que se encontram atualmente implantados são efetivamente muito duvidosos, como é o caso dos menires da Lucena (nº 26), da Furada (nº 24), da Chaminé (nº 76) ou os menires 1 e 3 do Vale d’El Rei 2 (nº22).

Para além destes em que, por não ter sido possível determinar-lhes outras funcionalidades, me parece preferível, por ora, incluí-los, mesmo se com reservas, na lista dos menires, excluí, à partida, um número elevado de blocos alongados, cravados ao alto, por se tratar de:

a) blocos, cujas dimensões raras vezes ultrapassam os 2 m, implantados em época mais ou menos recente, com a finalidade de servirem de reforço/apoio a vedações (Fig. 6.1, 6.2); esta situação, aparentemente unívoca, pode no entanto complicar-se nos casos em que verdadeiros menires foram (re)utilizados, em época recente, com finalidade idêntica, como aconteceu, por exemplo, na Portela de Mogos (nº 4). Outra realidade relativamente frequente, na região, e que pode perturbar o megalitista distraído, diz respeito aos alinhamentos de blocos, de boas dimensões, que correspondem, efetivamente, aos “alicerces” de antigos muros de taipa, ou de pedra seca (Fig. 6.3).

Fig. 6.1 - Suporte de vedação, no concelho de Castelo de Vide.

Fig. 6.2 - Suporte de vedação, no concelho de Montemor-o-Novo.

Fig. 6.3 - “Alinhamento” do Trambolho (Évora): restos de muro antigo.

b) Menires decorativos, isto é, blocos meniróides usados para decorar rotundas, jardins, entradas de quintas, etc. Esta moda, inócua na maioria dos casos, pode, no entanto, criar algumas confusões, tanto mais que não são demasiado raros os casos em que verdadeiros menires serviram para fazer menires falsos; a reimplantação de verdadeiros menires na “pars urbana” de propriedades agrícolas verificou-se, recentemente, com o menir do Monte da Ribeira (nº 40) que, na sequência do achamento, devido a trabalhos agrícolas, foi ereto junto ao Monte da Herdade, situação que, graças à intervenção do Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa e da empresa J.M. da Fonseca foi, entretanto, alterada e o menir encontra-se, atualmente, depositado nas instalações da empresa vinícola, em Reguengos de Monsaraz.

Também os menires do Monte das Flores (nº23) foram, em data recente, retirados do local onde foram descobertos; o menir 1, exibe-se, atualmente, no relvado fronteiro ao palacete do Monte.

É bastante provável que uma história semelhante tenha ocorrido com os menires do Monte da Tera (nº 74), da Courela da Casa Nova (nº 48) e da Sousa (nº 64), embora, atendendo aos contextos arqueológicos, seja igualmente possível que, nos dois primeiros, os Montes sejam posteriores à implantação dos menires.

A usurpação de menires de sítios arqueológicos conhecidos foi, por outro lado, recentemente atestada, nos arredores de Évora: um dos menires do recinto da Portela de Mogos (o menir 41) tinha sido retirado e reimplantado junto ao Monte de Vale Maria do Meio, situação que entretanto foi regularizada (por intervenção da Câmara Municipal de Évora) com a redeposição do menir na área do recinto de origem; infelizmente, perdeu-se, no processo, a informação sobre a localização anterior do menir.

A divulgação turística dos menires de Évora e uma certa sensibilidade desenvolvida, graças a isso, pala população local, deu origem a dois episódios anedóticos ocorridos recentemente no próprio aro da cidade: numa obra particular, o proprietário decidiu ornamentar o relvado de uma oficina com um bloco sugestivamente meniróide, desenterrado durante os trabalhos de escavação de uma cave (Fig. 6.4); a observação do bloco pouco depois de ter sido extraído, permitiu confirmar o carácter natural do mesmo. Três outros supostos menires foram desenterrados na abertura de uma vala para infraestruturas, junto ao bairro do Frei Aleixo (Fig. 6.5); neste caso, foram os operários que, conscientes de que estavam perante blocos naturais (trata-se de nódulos extraídos da massa rochosa) decidiram, ao implantá-los num local bem visível, para chamar a atenção dos transeuntes.

Convém acrescentar que, nos dois exemplos referidos, se trata de locais muito expostos, adjacentes a vias de grande circulação.

Fig. 6.4 - Pseudo-menir do Modelo (Évora).

Fig. 6.5 - Pseudo-menires do Frei Aleixo (Évora).~

Fig. 6.6 - Bloco decorativo na entrada do Monte das Veladas (Évora).

Fig. 6.7 - Arranjo urbanístico com falsos menires, na aldeia do Escoural (Montemor-o-Novo)~

Fig. 6.8 - Rotunda “megalítica” em Portimão.~

Fig. 6.9 - Rotunda “megalítica” no aeroporto de Lisboa

Estes pseudo-menires ilustram, aliás, dois dos critérios que permitiram excluir alguns dos casos mais duvidosos: a observação do grau de frescura das superfícies (que, em ambos os casos, indicava claramente uma extração recente) e a informação oral que permitiu reconstruir o processo de extração e identificar o contexto geológico dos blocos.

A morfologia, só por si, é um fraco indicador para identificar, como tal, um menir, exceto no que diz respeito aos grandes menires cilíndricos, cuja forma dificilmente poderia ser encontrada, sem afeiçoamento, na natureza.

Na verdade, os recintos megalíticos identificados, monumentos cuja classificação dentro da família dos menires neolíticos não pode suscitar atualmente qualquer tipo de reservas, revelam-nos um amplo leque de formas e dimensões, sendo alguns dos menires tão irregulares, em termos de padrão morfológico, que, encontrados fora do contexto, dificilmente seriam classificados como tal (Fig. 6.15 e 6.16).

Todos os sítios que classifiquei como recintos, mesmo os que se apresentam atualmente desmantelados ou muito amputados, se impõem como indiscutíveis monumentos megalíticos; efetivamente, mesmo que outros indicadores não estejam presentes (e geralmente estão), o próprio número de monólitos meniróides exentos, reunidos no mesmo espaço,dificilmente poderia admitir interpretações alternativas.

No entanto, existem outros critérios que permitem reconhecer, com alguma segurança, um menir: um dos mais recorrentes é a descontextualização geológica dos monólitos.

Esta característica, cujo significado cultural parece evidente, está presente também noutros territórios megalíticos europeus (Ruiz et al., 1993; Molinero, 2000; Bénéteau, 2000; Tarrús,

2002) e, felizmente, em muitos dos monumentos alentejanos.

Por outro lado, apesar de, na atualidade, a maioria dos menires não permanecer ereta, alguns deles, mesmo tombados, apresentam uma ligeira inclinação, mantendo a extremidade proximal parcialmente enterrada. Trata-se de menires que tombaram gradualmente, num processo que, em última análise, se prende com a morfologia das estruturas de implantação. Este fenómeno, só por si, permitiu identificar, sem margem para dúvidas, alguns menires que, de outra forma, as poderiam suscitar, como foi, entre outros, o caso do menir isolado do Monte do Tojal (nº 57), entretanto escavado e reimplantado, ou do menir 2 de S. Sebastião, cuja forma e dimensões, por serem pouco comuns, não convenceram os descobridores (Burgess, 1987: 40) .

Também a exposição dos locais de implantação, por norma abertos a nascente, apesar de não dever, só por si, um critério definitivo, permite reforçar, na maioria dos casos, uma classificação que, naturalmente, se deve sobretudo basear em algum dos outros aspectos referidos.

Foram reavaliados e eliminados, da lista dos menires, alguns exemplares referenciados na bibliografia.

Estão nestas circunstâncias o “recinto” da Madre de Deus, em Pavia (Rocha, 1999: 128), os “menires” da Aresa e do S. Bento, em Portel (Lima, 1992: 47, 55); foram eliminados outros por serem demasiado vagas as informações disponíveis e por não terem sido relocalizados, como aconteceu com o da Herdade da Comenda, o da Herdade dos Pretos ou o do Vidigal, em Montemor-o-Novo (Gomes, 1996: 8, 13).

Evitei igualmente incluir monólitos mais ou menos meniróides, cujas dimensões e localização aconselham a classificação como marcos miliários anepígrafos (Bilou, 2000).

Os monumentos incluídos na listagem que acompanha este trabalho foram ainda, cruzando e ponderando, de uma forma subjetiva, os vários indícios disponíveis, organizados em três categorias, tendo em conta a fiabilidade da respectiva classificação: menires Seguros (1), Prováveis (2) e Duvidosos (3).



Fig. 6.10 - Classificação dos menires do Alentejo Central, com base nos critérios de fiabilidade.

6.1.1. Matéria-prima, forma e dimensões 

Numa primeira abordagem específica, podemos classificar os sítios com menires em três categorias: recintos megalíticos, conjuntos e menires isolados.

Se, em relação ao primeiro grupo, a maioria não suscita grandes dúvidas, apesar de dois ou três casos menos claros, a categoria “conjuntos” engloba precisamente as situações que, por ora, não permitem aproximações mais detalhadas; de facto, podem corresponder aos restos muito maltratados de verdadeiros recintos ou, pelo contrário, representar outras modalidades, porventura de diferentes tipos, de que, por ora, não temos, na região, nenhuma confirmação credível.

Os menires isolados, que, à primeira vista, representam uma categoria bem definida, podem, eles próprios não ser mais do que os últimos testemunhos de realidades mais complexas.

A matéria-prima dos menires centro-alentejanos é, praticamente sem excepções, constituída por rochas magmáticas granitóides, nomeadamente granitos, quartzodioritos, granodioritos e, sobretudo, tonalitos, um tipo largamente maioritário no Maciço de Évora (Cardoso et al., 2000: 40).

Na verdade, apenas um caso, atípico a todos os títulos, constitui excepção a esta regra: trata-se do menir da Casa da Moinhola (nº 50), um possível menir de xisto, inédito, descoberto no leito do Guadiana.

A distância entre as fontes de matéria-prima e o local dos monumentos é, hoje em dia, muito difícil de estabelecer com precisão; efetivamente, dado que os menires são, por norma, na região, blocos selecionados de entre os afloramentos naturais, sem que tenha havido necessidade de extração a partir de massas de maiores dimensões, não existem verdadeiras pedreiras ou “cicatrizes” que possam denunciar o local de origem dos blocos. A complexificar a questão, há que considerar ainda que, ao longo dos tempos, muitos afloramentos (tal como os próprios menires e antas, aliás) foram certamente utilizados como material de construção; a atestar este facto, conhecem-se inúmeros vestígios, nomeadamente os negativos dos blocos extraídos, as escombreiras ou as recorrentes marcas de cunha, de que as mais fáceis de observar são, naturalmente, aquelas que correspondem a tentativas de corte falhadas.

Para além destas limitações, os estudos aprofundados sobre a origem das matérias-primas dos monumentos megalíticos só são, efetivamente, viáveis, em áreas muito circunscritas, uma vez que exigem prospecção geológica e análise petrográfica detalhada, como as que foram levadas a cabo, na região de Évora, por W. Dehn, P. Kalb e W. Vortisch (Dehn et al., 1991; Kalb, 1996; Vortisch, 1999), na área de Vale de Rodrigo, ou por J. Cardoso e A. Carvalhosa, no recinto da Portela de Mogos (nº) (Cardoso et al, 2000b).

O estudo petrográfico dos monumentos de Vale de Rodrigo (quatro antas e um menir) permitiu concluir que os blocos devem ser provenientes de diversas manchas de rochas granitóides ( tonalitos, granitos e granodioritos), disponíveis na área envolvente, num raio de cerca de 8 Km; os monumentos, por seu turno, implantam-se em terrenos de gnaisse (Kalb, 1996: 683). O menir de Vale de Rodrigo (nº 46), assim como um dos esteios do tholos megalítico, teriam mesmo sido transportados de uma distância não inferior a 10 Km.

Fig. 6.11 - Representação gráfica da distribuição dos menires por tipo de sítio (1,2)


Esta constatação, à primeira vista surpreendente, foi interpretada como um artifício ritual para representar, na arquitectura do monumento, a paisagem que o rodeava: o conjunto de Vale de Rodrigo seria, através desse processo, visto como o centro simbólico de um determinado território.

Trata-se certamente de uma possibilidade a reter, sugerida igualmente para outras regiões megalíticas europeias (Patton, 1991; Bradley, 1998c) e que se pode relacionar com a ideia de que os monumentos eram, prioritariamente, marcadores territoriais, destinados a criar âncoras na paisagem, em sociedades ainda muito pouco estabilizadas (Renfrew, 1976).

A intencionalidade da escolha dos locais de origem dos blocos é sugestiva, mas difícil de comprovar: na verdade, parece-me que não bastava haver, em determinada área, o tipo de rocha teoricamente adequado, uma vez que a forma e as dimensões dos blocos disponíveis, à superfície, eram, seguramente, uma condicionante fundamental. A distância maior percorrida pelos blocos de maiores dimensões, como é o caso do menir de Vale de Rodrigo, enquanto os pequenos monumentos, na mesma área, “estão construídos com blocos das proximidades e apenas de um tipo de material” (Kalb, 1996: 683), reforça a hipótese de a escolha dos locais de origem dos blocos se dever, em primeiro lugar, à disponibilidade de afloramentos apropriados.

Esta hipótese foi, aliás, avançada pela própria Philine Kalb, a propósito de dois monumentos megalíticos peninsulares que integram blocos oriundos de distâncias bastante superiores às que foram propostas para o menir de Vale de Rodrigo 1 (nº43), designadamente Carapito 1 e Matarrubilla (17 e 20 Km, respectivamente).

No caso de Vale de Rodrigo, se a escolha dos locais de origem dos blocos pretendesse, como foi defendido, representar simbolicamente um território, é óbvio que só seriam representadas as áreas onde existisse a matéria-prima adequada, ficando omissas as restantes. Trata-se, em todo o caso, de um modelo cuja aplicabilidade à generalidade dos monumentos megalíticos alentejanos, parece deveras problemática.

Por outro lado, convém, desde já, esclarecer que o tipo de blocos e, até certo ponto, a forma de os obter, são diferentes nas antas e nos menires.

No que diz respeito às antas (Vortisch, 1999; Gouletquer, 2000; Scarre, 2004), os esteios são geralmente lajes achatadas, extraídas a partir de diaclases, com as faces expostas (na natureza e nos monumentos) mais arredondadas e as faces de extração, viradas para o interior dos monumentos, aplanadas ou mesmo ligeiramente côncavas.

Estes blocos, relativamente solidários com o batólito, exigiam algum trabalho de extracção, mediante a utilização provável de alavancas, entalhes, cunhas e processos crio-térmicos, de que se encontram ocasionalmente alguns vestígios nos restos de afloramentos.

Os menires, na sua maioria, são blocos que, na natureza, se encontravam praticamente exentos e cujas formas oblongas e arredondadas, frequentemente com uma ou mais faces planas ou plano-convexas, resultam de fenómenos puramente geológicos (diaclase, como resultado de acções mecânicas tardi-cinemáticas, e disjunção esferoidal), que são, por sua vez, condicionados pela micro-estrutura das próprias rochas (Cardoso et al., 2000; Servelles, 2002: 102). Em alguns casos menos frequentes, como acontece com o menir do Monte da Ribeira (nº 29), são notórios, numa das faces, os efeitos de uma meteorização significativa (weathering) que, teoricamente, tanto podem ser anteriores como posteriores à sua utilização como megálitos, mas que certamente correspondem a uma fase em que os blocos estiveram tombados.

Infelizmente, não existem estudos específicos sobre os efeitos dos processos de meteorização das rochas que constituem os menires da região; esses fenómenos dependem, naturalmente, de aspectos específicos, como são a resistência do material ou as próprias condições ambientais. Dominique Selliers estudou detalhadamente as microformas resultantes desses processos num dos conhecidos alinhamentos de Carnac, o de Kerlescan (Selliers, 1991) e identificou algumas evidências que, na sua opinião, deveriam corresponder a fenómenos posteriores à erecção dos menires: trata-se sobretudo de microformas que ocorrem nas extremidades distais dos monólitos; as mais significativas seriam, porém, anteriores à construção dos monumentos.

A observação dos afloramentos naturais da área envolvente do recinto de Vale Maria do Meio (nº2) e a comparação dos resultados com as microformas de alteração das superfícies dos menires desse recinto sugerem, em todos os casos, uma anterioridade em relação à construção do monumento. Num caso particular, o do menir 18, uma fissura longitudinal no topo do monólito foi aproveitada como limite do lado direito do trapézio, esculpido em baixo-relevo, e outra parece marcar o limite da curva do báculo, também em baixo-relevo, representado no lado direito.

Por outro lado, os estigmas patentes nas extremidades distais de alguns menires do Vale Maria do Meio (Fig.6.12) implicam, provavelmente, que esses blocos se encontravam, na Natureza, já em posição vertical ou oblíqua. Efetivamente, a análise dos afloramento ainda intactos nos arredores do recinto, tanto na mancha granítica, a Sul, como na mancha tonalítica, a Norte, revelou a presença de muitos blocos com desenvolvimento vertical (Fig. 6.13).

Os resultados dos estudos geo-arqueológicos realizados no recinto da Portela de Mogos e, em menor grau, em Vale de Rodrigo, constituem uma amostra fundamental para uma melhor caracterização técnica e económica do processo de construção dos menires da região. No entanto, esse estudo apresenta algumas conclusões que foram, no essencial, inquinadas por um erro de cartografia, uma vez que o monumento se localiza, efetivamente, cerca de 1Km a WSW do local onde foi cartografado (Cardoso et al., 2000: 46).

Fig. 6.12 - Marcas de erosão no topo do menir 27 do recinto de Vale Maria do Meio.

Na verdade, a identificação rigorosa dos diferentes tipos de rochas presentes na arquitectura do monumento permite concluir, sem margem para dúvidas, que o mesmo foi intencionalmente construído num local em que não existia (nem ali, nem nas proximidades imediatas) nenhuma dessas rochas e não que “ foram (...) as adequadas características mineralógico-estruturais das rochas tonalíticas, a par da sua abundância no próprio local de implantação do cromeleque que explicam o seu aproveitamento predominante na confecção dos menires” (Cardoso et al., 2000: 40.

Os tonalitos/trondjemitos são o tipo de rocha melhor representado na Portela de Mogos (93%), o que,em termos de transporte, implica uma distância mínima de cerca de 500 m, atendendo à cartografia geológica publicada (Carvalhosa, 1998); nesta, porém, observa-se uma ligeira discrepância em relação à “carta geológica da área envolvente” apresentada no estudo sobre a Portela de Mogos (Cardoso et al., 2000: 46); efetivamente, duas pequenas manchas, referidas, neste trabalho, como granitos e localizadas em redor do monumento, a distâncias da ordem dos 200-300 m, são representadas, na folha 36-C da Carta Geológica de Portugal, como tonalitos, ficando, portanto, algumas dúvidas sobre a eventual proveniência do único monólito de granito registado; segundo os autores, este poderia ser proveniente da grande mancha de granitos porfiróides que dista cerca de 1,5 Km. Um outro menir, de diorito, pode, teoricamente, ser proveniente da área mais próxima em que este material ocorre, a cerca de 700m.

Uma confusão semelhante parece ter ocorrido com o recinto de Cuncos, cujo escavador escreveu, a propósito da origem dos menires, que “os monólitos que constituem o Cromeleque de Cuncos podem ser provenientes de um afloramento existente no cabeço em que o monumento está instalado” (Gomes, 1996: 11); efetivamente, tanto a Carta Geológica, como a observação do terreno permitem concluir que o monumento está claramente implantado sobre terrenos de gnaisse e nenhum dos menires é feito desse material.

                 

Fig. 6.13 - Afloramentos, com desenvolvimento vertical, nos arredores de Vale Maria do Meio.

Fig. 6.14 - Representação gráfica das matérias-primas identificadas no recinto de Vale Maria do Meio

No recinto de Vale Maria do Meio (nº 2) (Fig. 6.14), a análise macroscópica dos blocos permitiu classificar a matéria-prima da maioria deles como granitos (o menir 26, com algumas dúvidas) e apenas seis (menires 5, 9, 12, 16, 22 e 28) como tonalitos, para além de outros dois, também com algumas dúvidas (menires 21 e 29). O resultado é, em todo o caso, esclarecedor: a relação entre os granitos e os tonalitos é inversa da que se verifica na Portela de Mogos, o que implica uma utilização oportunista do material adequado, disponível nas imediações.

Na verdade, a maioria dos recintos megalíticos alentejanos encontra-se implantada sobre substratos não granitóides, quer sejam as rochas gnaissicas/migmatíticas, como nos exemplos da Portela de Mogos (nº 4), Almendres (n º 1), Vale Maria do Meio ou Cuncos (nº 7), ou as rochas detríticas de idade terciária, como acontece com as Fontaínhas (nº 11), Vale d’El Rei (nº15) ou Tojal (nº 5).

Em Reguengos de Monsaraz, pelo contrário, os recintos localizam-se todos em terrenos granitóides (tonalitos, granodioritos, quartzodioritos); o Xarez (nº 6) e o Monte da Ribeira (nº 9) aparecem bem centrados nessas manchas geológicas, enquanto os Perdigões (nº 13) e a Capela (nº 87) se implantam na transição entre os granodioritos e os gabro-dioritos.

Em relação aos menires isolados, parece ter havido uma maior flexibilidade de padrões, embora, mais uma vez, a maior parte dos de maiores dimensões tenha sido transportada para fora da seu contexto geológico original.

Quanto à forma, verifica-se que, entre os menires do Alentejo Central, predominam largamente as formas ovóides (67%), com secções transversais em que um lado, pelo menos, apresenta um achatamento muito acentuado.

As formas arredondadas, em que se incluem também as cilíndricas, perfazem, por seu turno, um total de 88% de todos os menires inventariados. De entre as formas prismáticas, maioritariamente paralelipipédicas, poderíamos ainda distinguir as que ocorrem nos recintos, de arestas mais ou menos boleadas, e outras, que surgem em diversos contextos, com arestas mais angulosas.

Fig. 6.15 - Menir de forma irregular, no recinto dos Almendres.

Fig. 6.16 - Menir de forma irregular recinto do Xerez.


Fig. 6.17 - Representação gráfica da distribuição, em função da forma, dos menires que integram os recintos megalíticos


Fig. 6.18 - Representação gráfica da distribuição, em função da forma, dos menires isolados e integrados em conjuntos.

Na esmagadora maioria dos casos, a variabilidade morfológica resulta, como referi, da seleção de blocos naturais, sem qualquer tipo de afeiçoamento; esta seleção não parece, aliás, ter sido demasiado exigente, quanto à regularidade das formas ou às dimensões (Fig. 6.15, 6.16).

Nos recintos, as formas ovóides representam cerca de 75 % dos menires conservados; porém, nos restantes tipos de monumentos, as formas prismáticas (se contabilizarmos o alinhamento da Tera), aparecem com valores percentuais equivalentes às formas ovóides e às formas cilíndricas.

Apesar de se tratar, quase sempre, de blocos não trabalhados, existem alguns menires cujas formas dificilmente poderiam resultar exclusivamente de fenómenos naturais: trata-se sobretudo dos grandes monólitos cilindróides, de perfis muito regulares, com índices de alongamento superiores a 4 (a média nos Almendres, onde não existem menires desse tipo, é de 1,96, enquanto o valor máximo não ultrapassa 2,95) e, eventualmente, das estelas-menires, em forma de lâmina de punhal; em ambos os casos, aliás muito raros, estamos em presença de blocos que podem ter sido objeto de um trabalho, mais ou menos importante, de regularização. Esta, a ter efetivamente existido, incidiu sempre sobre blocos com formas não muito diferentes daquelas que iriam apresentar no resultado final. O desbaste do volume inicial incidiria sobretudo nas arestas e, eventualmente, sobre as faces laterais, sendo, logicamente, conservada a espessura original.

Contudo, no caso do Alentejo Central, a maior parte dos menires seria, sem grande esforço, obtida, à superfície, a partir dos thors e caos de blocos arredondados que caracterizam, ainda hoje, as paisagens graníticas da região.

Observações análogas têm, aliás, sido feitas a propósito de outros territórios megalíticos europeus (Le Roux, 1999; Giot,1988: 320; Burl, 1993: 6; Selliers, 1991; Servelles, 2002), sendo, em muitos casos, igualmente válidas para construções funerárias (Scarre, 2004).

A forma supostamente fálica de alguns menires, nomeadamente quando parecem ter marcada a glande peniana, é rara no Alentejo Central; o menir do Outeiro (nº29), em Reguengos de Monsaraz, é, de todos, aquele que, atendendo à forma geral, melhor encaixaria nesse estereótipo, apesar de não apresentar o referido pormenor anatómico, mas sim, supostamente, o meato (Gonçalves, 1972: 496)

Fig. 6.19 - Menir do Alminho: pormenor do sulco que afeta transversalmente a face virada para baixo.


Fig. 6.20 - Representação gráfica da distribuição dos comprimentos dos menires (todos os registos).

 O pequeno menir da Bota (nº81), possuindo, aparentemente, demarcada a glande, não tem uma forma geral suficientemente sugestiva. Na verdade, atendendo a que o sulco que lhe confere o curioso aspecto fálico não afeta todo perímetro do menir, pode tratar-se, muito provavelmente, de tentativas de debitagem mal sucedidas, tanto mais que marcas análogas ocorrem igualmente no menir do Aldeão (nº60) e, fora da minha área de estudo, no menir grande do Alminho (Fig. 6.19); nestes dois casos, os sulcos aparecem, respectivamente, nas áreas proximal e mesial.

A questão do falimorfismo versus antropomorfismo, já acima abordada sem qualquer discussão, será objeto de considerações mais circunstanciadas, no capítulo 12.

No que diz respeito aos grandes menires ovóides, os exemplares que ocorrem isolados ou apareados têm quase sempre maior regularidade morfológica do que os que integram os recintos, não sendo de excluir a possibilidade de um ou outro, como o da Casbarra 1 (nº 31) e o menir 1 da Pedra Longa (nº 16), ter beneficiado de algum afeiçoamento; estes menires são exclusivos da área de Évora.

 Os cilíndricos grandes e muito grandes, sempre em número muito escasso, distribuem-se pelas áreas de Évora, Pavia, Cuncos e Reguengos de Monsaraz.

Ainda em termos globais, e atendendo ao facto de outros possíveis candidatos se encontrarem truncados - menir 1 de S. Sebastião (nº 8) e menir 1 dos Perdigões (nº 13) - destacam-se, quanto ao comprimento, o menir do Barrocal (nº 28), com 5, 4 m e que teria, pelo menos, mais 0,3 m, na extremidade distal, e o menir do Outeiro (nº 29), com 5,6 m. Porém, no que respeita ao peso, o exemplar mais significativo é o menir 2 de S. Sebastião, com cerca de 12 toneladas estimadas.

É, claramente, entre os menires isolados que encontramos os menires de maiores dimensões, nomeadamente no que diz respeito ao comprimento e ao peso; em contrapartida, é nos recintos que se registam os valores mínimos. Este último aspecto pode, teoricamente, resultar de uma distorção induzida pelos critérios de registo.

No entanto, do ponto de vista monumental, é de supor que os menires pequenos só fariam, eventualmente, sentido, se integrados num conjunto; nesse caso, a monumentalidade seria sempre garantida pelos menires de maior envergadura e, em última análise, pela totalidade dos menires.

No limite inferior da escala, destacam-se alguns monólitos, no recinto do Xarez (nº 6), com comprimentos próximos de 0, 5 m e pesos que não atingem uma centena de quilos - valores que encontramos igualmente no recinto do Torrão, no distrito de Portalegre (Fig. 6.22); convém referir que o processo de restauro do Xarez pode ter introduzido algum ruído, atualmente impossível de controlar. Se considerarmos apenas os recintos, verificamos que, no total, a percentagem de menires pequenos aumenta (63%), em relação aos menires médios (34%), e que os menires grandes e muito grandes são

apenas residuais (3%).

No que diz respeito aos três recintos da área de Évora, estão absolutamente ausentes os menires com mais de 4, 5 m (muito grandes) e, no caso dos Almendres, apenas se registam menires médios e pequenos.

Dos restantes, apenas o possível recinto do Sideral (nº 10), monumento muito pouco convencional e, certamente, muito mal conservado, integra um menir (menir 5) com mais de 4,5 m; porém, há que considerar ainda a possibilidade de o menir 1 dos Perdigões (nº 13) (com 3, 75 m) e menir 1 do Xarez (nº 6) (com 4,25 m), ambos amputados, poderem ter atingido valores próximos dos do Sideral. São, também eles próprios, monumentos problemáticos, pelo que se torna, com os dados disponíveis, impossível avaliar que outras diferenças acompanhariam estes menires de dimensões menos comuns; permanece, obviamente, a possibilidade de os grandes menires, cilíndricos ou ovóides alongados, que acompanham esses supostos recintos, corresponderem a episódios construtivos anteriores ou posteriores aos monumentos compósitos em que se inserem.

Os recintos do Tojal (nº 5), de Cuncos (nº 7), das Fontaínhas (nº 11) e das Casas de Baixo (nº 12), diferencialmente conservados, têm todos um menir de dimensões destacadas, que poderíamos, com alguma propriedade, designar como “menir central”; apresentam, todos eles, proporções semelhantes aos da área de Évora, embora em escala mais ou menos reduzida, refletindo, aliás, as dimensões das plantas dos próprios recintos.

O recinto do Vale d’El Rei (nº 15), em Pavia, que aparentemente se conservava intacto, não tem propriamente um menir central, embora o menir 4, com cerca de 1, 85 m de comprimento, pudesse eventualmente ter desempenhado um papel semelhante.

Fig. 6.21 - Representação gráfica da distribuição dos menires que integram os recintos, em função do comprimento.


Fig. 6.22 - Gráfico de dispersão das dimensões dos menires (C, L) dos recintos do Xarez e do Torrão (Elvas)

Fig. 6.23 - Gráficos comparativos dos diferentes tipos de menires, em função do comprimento, nos recintos megalíticos alentejanos.

A análise comparativa dos gráficos de dispersão das dimensões dos menires (Comprimento, Largura e Espessura), tomando os dos Almendres como termo de comparação, revela padrões muito semelhantes entre os vários recintos, embora com uma certa variabilidade. As diferenças mais sensíveis dizem respeitoa os menires isolados, que se destacam sobretudo no que diz respeito ao comprimento e ao índice de alongamento; em relação aos recintos, o contraste é bastante notório em relação ao recinto do Xarez, em que, como se viu, muitos dos menires apresentam dimensões realmente diminutas. O recinto de Vale d’El Rei apresenta igualmente valores muito reduzidos.

Nestes último caso, porém, as proporções mantêm-se relativamente homogéneas, conforme se pode verificar comparando as distribuições dos índices de alongamento (IAL) e de achatamento (IAC).

Almendres
Vale Maria do Meio
Portela de Mogos

Fig. 6.24 - Menires dos recintos da área de Évora

Xarez

Monte da Ribeira

Tojal

                 Fontaínhas                                    Cuncos                                                Casas de Baixo

Vale d’El Rei

Fig. 6.25 - Menires dos recintos melhor conservados, fora da área de Évora.


                           Cilíndricos                                                                   Ovóides alongados

                                                                           

   Ovóides

                                                            “Lâminas de punhal”

Fig. 6.26 - Menires isolados e apareados: principais grupos morfológicos

(1: Caeira; 2: menir 1 de S. Sebastião;3: Vale de Cardos; 4: Velada; 5: Almerndres 2; 6: Menir 2 da Pedra Longa; 7: Outeiro; 8:Oliveirinha; 9: Sideral; 10: Fonte do Abade; 11: menir 1 da Pedra Longa; 12: Aldeão; 13: Alto da Cruz; 14: Sobreira; 15: Casbarra 1; 16: Azinhal; 17: Monte do Tojal; 18: Esbarrondadoiro; 19: Casas 1; 20: Patalim; 21: Barrocal; 22: Monte da Ribeira; 23: Belhoa; 24: Vidigueiras; 25: Monte dos Almendres; 26: Vale de Rodrigo; 27: Vale de Besteiros; 28: Fazendas; 29: Fragosa).


Fig. 6.27 - Gráficos comparativos das dimensões (C, L) de menires e recintos do Alentejo Central, em função do recinto dos Almendres.

Fig. 6.28 - Gráficos comparativos das dimensões (L, E) de menires e recintos do Alentejo Central, em função do recinto dos Almendres.

Fig. 6.29 - Gráficos comparativos dos índices de alongamento e de adelgaçamento de menires e recintos do Alentejo Central, em função do recinto dos Almendres.

Note-se que, se considerarmos, como defendo, que a grande maioria dos menires são blocos naturais, é provável que as diferenças observadas remetam principalmente para os fenómenos geológicos que deram origem aos diferentes tipos de rocha utilizados localmente; o agenciamento humano circunscrevia-se, presumivelmente, à decisão sobre o tamanho (e peso) dos menires, enquanto as formas seriam, certamente, objeto de uma seleção em função do material disponível num raio que, como vimos, não deveria exceder os 10 Km. Num certo sentido, adaptando a proposta de P. Kalb, poderíamos considerar que o monumento espelhava, não tanto os territórios que o rodeavam, mas certos aspectos da geologia da área envolvente.

Por outro lado, em termos gerais, é de esperar que, nos recintos mais amputados, se verifique um enviesamento nas dimensões dos menires. Com efeito, os menires de maiores dimensões resistiriam, em princípio, melhor às depredações, sendo, sobretudo, os menires de tamanho mais manipulável, os que foram abatidos. Isso mesmo foi claramente observado no recinto de Vale Maria do Meio (nº 2) (Calado, 2000b: 173), em que sobreviveram apenas as extremidades de vários menires pequenos, cujas porções mesiais terão sido, segundo parece, transformadas em silhares. Este tipo de conservação diferencial dos menires aplica-se, aparentemente, ao recinto das Fontaínhas (nº 11) e, em menor grau, ao de Cuncos (nº 7), em que parecem ter sobrevivido exclusivamente ou quase, apenas os menires mais volumosos.

Nos alinhamentos da Vendeia, no SW francês, foi igualmente confirmado um fenómeno análogo (Beneteau, 2000); numa escala muito diferente, e em contexto neolítico, foi o que aconteceu com o menir de Locmariaquer: de um alinhamento de 19 menires, aparentemente de dimensões escalonadas, sobreviveu apenas, in loco, o maior de todos (Fig. 6.30).

6.2. Decoração

Se excluirmos as covinhas e um ou outro caso mais duvidoso, os menires alentejanos decorados (24 exemplares) representam apenas cerca de 6% do total de monólitos individuais registados (403 exemplares); a maior parte (19 exemplares) ocorre nos três maiores recintos megalíticos da região, enquanto os restantes são exclusivamente menires isolados, de tipo “lâmina de punhal”, restritos às áreas de Évora e Reguengos de Monsaraz. Nas áreas de Pavia, Cuncos e Tojal, todos os menires são, ou parecem ser, anicónicos, tal como acontece com todos os grandes menires isolados, de formas cilíndricas ou ovóides, patentes nas áreas de Évora e Reguengos de Monsaraz.


Fig. 6.30 - Menir tombado de Locmariaquer e fossas de implantação dos menires que completavam o alinhamento (seg. Giot et al., 1998: 287, adaptado).

Fig. 6.31 - Principais tipos de motivos gravados nos menires do Alentejo Central.

Fig. 6. 32 - Distribuição dos menires decorados (exceto covinhas).

É claro que existe a possibilidade de estarmos perante uma realidade distorcida (atendendo a que a pintura ou a gravura fina poderiam ter sido as técnicas mais generalizadas); de facto, se assim fosse, os motivos gravados ou pintados teriam desaparecido ou exigiriam, para ser identificados, uma abordagem muito específica.

A decoração conhecida foi, quase sempre, executada em baixo-relevo, embora existam ainda outras soluções técnicas, mais raras e cujos motivos são mais difíceis de identificar, de forma inequívoca.

Por norma, os motivos foram gravados nas superfícies mais aplanadas e regulares, as quais, na maior parte dos casos, correspondem aos planos de diaclase, menos afectadas pela disjunção esferoidal (Le Roux, 2003: 373). A ideia, defendida por M. Varela Gomes, de que se tratava de superfícies artificialmente rebaixadas, com a finalidade de receberem os motivos gravados (Gomes, 1997c: 269), não me parece resistir a uma observação cuidadosa de alguns menires decorados, como o menir 18 de Vale Maria do Meio ou o menires 25 e 33 Portela de Mogos, em que, claramente, não houve desbaste do bloco original, para além do mínimo necessário para a execução do baixo-relevo; naqueles menires, entre outros, são bem visíveis os bordos das superfícies desbastadas.

Note-se que a utilização de blocos com faces naturalmente aplanadas foi igualmente observada em muitos menires, aparentemente anicónicos, que integram os recintos alentejanos, e é igualmente muito recorrente noutros conjuntos de menires da fachada atlântica europeia (Sellier, 1991; Beneteau, 2000).

Apesar de serem relativamente pouco abundantes, os menires decorados alentejanos apresentam, ainda assim, uma certa variedade de motivos e, sobretudo, de modos de organização dos mesmos.

O tema mais repetido e com maior dispersão geográfica é, sem dúvida, o do báculo (9 menires com báculos e 19 exemplares, no total, nas áreas de Évora e Reguengos de Monsaraz), sempre representado em baixo-relevo e, por norma, numa posição de destaque na superfície do menir. Também em baixo-relevo e logo a seguir ao báculo, em termos de frequência relativa, surge o crescente lunar, associado a uma figura trapezoidal ou rectangular e, em muitos casos, a dois pequenos círculos dispostos de um e de outro lado dessa figura, formando um jogo gráfico com óbvias sugestões antropomórficas.

As linhas onduladas ou serpentiformes são outro dos temas presentes, com vários exemplares, na iconografia dos menires alentejanos; trata-se, sobretudo, de linhas múltiplas que (ao contrário das antas, onde ocorrem também, frequentemente, na horizontal) se desenvolvem sempre na vertical. Por último, são de referir alguns círculos simples, fechados ou abertos, círculos com covinhas (cup and ring), um círculo radiado (sol) e dois círculos abertos, cada um com dois segmentos de recta paralelos (menir 64 do recinto dos Almendres). Para além destes, existem ainda outros motivos que, por serem de difícil leitura, exigem algumas reservas e recomendam, por agora, um tratamento menos circunstanciado.

Na verdade, parece existir uma certa “hierarquia das grafias”, distinguindo, originalmente, os “motivos realizados de uma tal maneira que são quase invisíveis ao olho, enquanto outros realizados sobre o mesmo suporte podem ser facilmente apreciados” (Bueno e Balbín, 2002: 614, 615).

O trabalho de identificação destes temas ocultos está quase todo por fazer e as características físicas dos granitos não ajudam certamente nessa tarefa. Por esta razão, há que assumir algum grau de incerteza nos desenhos publicados, inevitável nos suportes mais friáveis e sujeitos a agressões externas mais violentas e, por outro lado, não esquecer que, se efectivamente, a pintura tiver sido usada na decoração dos menires, estamos perante uma amostra muito truncada das iconografias que completavam in illo tempore a mensagem dos monumentos.

Teoricamente, os motivos mais frequentes e mais conspícuos (em função da técnica utilizada ou da posição que ocupam no suporte), terão desempenhado um papel de relevo no sistema ideológico intrinsecamente associado aos menires. Os outros, por serem raros ou demasiado discretos, terão, nesta ordem de ideias, um papel secundário, podendo implicar, nalguns casos, acrescentos posteriores e, por isso, relacionáveis com outros contextos, mas implicando, ao mesmo tempo, alguma continuidade nos discursos simbólicos.

6.2.1. O báculo

A importância do báculo na iconografia (e na ideologia) dos construtores de menires é indiscutível; na verdade, esse estatuto parece ter sobrevivido no objeto móvel, fortemente estilizado, que acompanhou alguns enterramentos megalíticos na região alentejana e áreas limítrofes.

Outro aspecto que torna o báculo um símbolo fundamental para a descodificação do ambiente mental em que foi forjado o fenómeno do megalitismo não-funerário, é o facto de este tema ser igualmente recorrente nos menires do ocidente francês e, em particular, da Bretanha, onde, na maioria dos casos, foi igualmente gravado em baixo-relevo.

O báculo, por ter, aparentemente, perdurado em diferentes contextos culturais, mantendo-se vivo praticamente até aos nossos dias, pareceria, à primeira vista, fácil de interpretar. Efetivamente, a denominação que vingou na bibliografia arqueológica portuguesa, remete, automaticamente, para o báculo episcopal, cujo significado radica, metaforicamente, no cajado dos pastores.

Esta abordagem é, possivelmente, a que mais se generalizou por ser certamente a mais óbvia, tanto mais que, ainda hoje, é possível encontrar, entre os pastores de ovicaprinos, um instrumento semelhante (Gonçalves, 1992: 97; Calado, 2002: 29) (Fig. 6.33). Segundo Charles-Tanguy Le Roux, “on y voit un symbole d’autorité dérivé de l’houlette du berger, signification qui s’est perpétuée jusqu’à nos jours à travers la crosse épiscopale” (Le Roux, 1995: 15); a mesmalógica foi adoptada por Serge Cassen e Jean L’Helgouac’h que admitem uma inspiração do símbolo num objecto concreto da vida quotidiana “auxiliaire du berger chargé de la conduite et de la sauvegarde du troupeau. Ainsi le symbole de la crosse dans la réligion chrétienne, emblème hierarchique du pouvoir réligieux des évèques et des abbés, s’appuie-t-il sur cette notion de pasteur, bien affirmée dans le Nouveau Testament” (Cassen e L’Helgouac’h, 1992). Note-se, desde já que, num trabalho mais recente (Cassen et al., 2000), um destes autores adoptou uma outra via interpretativa que terei, mais adiante, oportunidade de comentar.


Fig. 6.33 - Pastor alentejano, com cajado curvo. (Foto de José M. Rodrigues)



Na verdade, têm sido muito diversas as interpretações propostas; mesmo assim, pode afirmar-se que a maioria assume uma certa relação genética entre o símbolo neolítico e o báculo que, com ligeiras variantes, reemergiu em culturas tão distintas como a egípcia faraónica, a grega, a romana ou a cristã.

Esta relação aparente, cuja verosimilhança é perfeitamente aceitável, não implica, evidentemente, que o símbolo tenha mantido, nas várias circunstâncias referidas, o mesmo significado.

O báculo parece ser, na sua origem, indissociável da “invenção” do próprio megalitismo e, neste sentido, as implicações do símbolo deveriam obrigatoriamente ser distintas, nesta fase genesíaca, de todas as adaptações e reinterpretações posteriores, em sociedades seguramente muito diferentes.

Um dos aspectos em que quase todos os autores concordam, mesmo que tacitamente, diz respeito à ideia de que o báculo representa um instrumento ou uma arma, isto é, um objecto que, de uma forma ou de outra, funcionaria como uma extensão do braço humano, remetendo para um contexto iconográfico de forte expressão antropomórfica.

No que diz respeito aos protótipos funcionais, uma parte das propostas avançadas teve em mente, não os báculos gravados nos menires (descobertos, como vimos, tardiamente) mas tão-só os objectos móveis, da família das placas de xisto, que integram alguns mobiliários funerários megalíticos do Sudoeste peninsular. É este o caso das propostas de Manuel Heleno (Heleno, 1942: 462) , Georg e Vera Leisner (Leisner e Leisner, 1951: 138) ou O. Veiga Ferreira (Ferreira, 1985: 89). Todos estes autores, mesmo reconhecendo algumas fragilidades nessa leitura, procuraram explicar o báculo como uma evolução estilizada do machado encabado, símbolo com fortes repercussões noutras áreas da europa neolítica e que teria uma certa correspondência com as enxós encabadas calcolíticas ou com a forte presença da pedra polida nos espólios fúnebres.

Esta hipótese, lançada por M. Heleno (1942: 462) apoiava-se num exemplar da Lapa da Galinha (Alcanena), cuja forma em ângulo reto, sugere efetivamente um machado encabado e que seria o arranque de uma evolução estilística que culminaria nos exemplares mais recurvados e, logo, mais afastados do modelo funcional.

O. Veiga Ferreira que, num trabalho específico sobre os báculos, acabou por aderir à tese de Manuel Heleno (a quem, aliás, dirigiu algumas críticas póstumas muito violentas), concluindo que os báculos poderiam “estar ligados ao culto do machado encabado” (Ferreira, 1985: 89), tinha escrito anteriormente, numa obra em parceria com Manuel Leitão, que “...parecem ter o valor de símbolos de autoridade (...) e não de machados ou foices, ou alabardas.” (Ferreira e Leitão, 1983: 179). Quanto ao protótipo que teria dado origem ao símbolo, esses autores sugerem, com base na interpretação do báculo da Anta da Herdade das Antas, que se trate de um artefacto compósito; nesse belíssimo exemplar, destacam a existência de “uma pega com ressalto anterior na sua extremidade, para o instrumento não deslizar e cair da mão do seu utente, quando impulsionado de cima para baixo num movimento de machete”, assim como “o gume serrilhado e o bordo cortante, possivelmente constituído por enxertos de sílex.” (Ferreira e Leitão, 1983: 179).

Fig. 6.35 - Bloco decorado de Vale de Rodrigo 2 (seg. Larsson, 2001)

Victor S. Gonçalves, refuta, de forma taxativa, o modelo evolucionista de Heleno, com o argumento (já esboçado por G. e V. Leisner de que os exemplares da “variante em 7”, eram casos isolados, correspondendo a quase totalidade dos báculos conhecidos à “variante em 9” , “sendo muito improvável, talvez mesmo absurda, a sua associação a machados encabados” (Gonçalves, 1992: 93. Este autor, admitindo que, no caso dos exemplares em ângulo reto, se podia tratar da representação de machados encabados, propõe igualmente o cajado de pastor, como referente funcional do objeto simbólico ou do símbolo gravado. Quanto ao significado, recordando que “o peixe não significava , para os cristãos primitivos, a indicação de uma venda de pescado”, afirma que “o báculo do pastor é mais que um instrumento, torna-se frequentemente num símbolo de riqueza e consequentemente de poder”. (Gonçalves, 1992: 93).

Nesta ordem de ideias, a raridade relativa dos báculos de xisto, quando comparados com as placas, e a distribuição espacial dos mesmos no território de Reguengos de Monsaraz, levaram este autor a questionar se não “corresponderiam assim a chefaturas, distribuídas em função de espaços territoriais bem delimitados?” (Ibidem).

A escavação da anta 2 de Vale de Rodrigo permitiu a descoberta de um bloco de granito decorado, tombado no interior da câmara. Esse bloco, para o qual se propôs uma funcionalidade absolutamente inédita - servir de pedra de fecho da câmara, expondo o lado decorado na fachada do monumento - tem, entre outros motivos, um possível báculo (Fig. 6.35) que o descobridor interpreta como machado e compara, mesmo assim, aos símbolos gravados nos menires da região (Larsson, 2001: 38).

Esta aparente confusão interpretativa, entre machados e cajados, talvez seja mais emic do que etic: nuns casos, o símbolo aproxima-se mais da imagem do machado encabado, sempre que, como em Vale de Rodrigo (nº 1688) ou no Monte dos Almendres (nº32), a curvatura é pouco acentuada, ou do cajado, nos outros casos; uma fórmula, aparentemente sincrética, de representar essa ambiguidade, é a que encontramos plasmada nos machados-báculos bretões.

Fig. 6.34 - Exemplo do uso contemporâneo do báculo como símbolo de poder.

Outra proposta recente, também baseada exclusivamente na análise dos báculos de xisto, sugere que o protótipo funcional seria, efetivamente, uma arma de arremesso, de tipo maça, comparável aos “boomrangs” australianos (Brandherm, 1995).

Brandherm admite que, para além de armas de combate pessoal, pudessem ter servido igualmente como armas de caça, embora desvalorize esta possível função, argumentando que “ como instrumento exclusivamente de caça seria difícil tornar-se num símbolo de ‘status’ elevado nas sociedades da antiga Europa do quarto e terceiro milénio, sociedades nas quais a caça muito provavelmente ainda não se tinha transformado num passatempo desportivo de algumas pessoas privilegiadas” (Brandherm, 1995: 92).

O casal Leisner, cuja preferência, embora cautelosa, pela tese do machado, já foi acima referida, achou, por outro lado, que “a comparação com o bumerang (...), também não” era “convincente” (Leisner e Leisner, 1951: 138).

No entanto, esta hipótese, recuperada primeiramente num trabalho colectivo (Bailloud et al, 1995) foi retomada, em força, em trabalhos mais recentes (Cassen et al., 2000; Cassen e Vaquero Lastres, 2004), com argumentos e uma visão de conjunto muito elaborados.

Subjacente a esta linha interpretativa que, no que respeita à identificação dos báculos como símbolos inspirados numa arma de arremesso, não é propriamente original, está a proposta de vinculação dos menires (e da iconografia que lhes está associada) ao mundo dos últimos caçadores-recoletores mesolíticos.

Trata-se, metaforicamente, de uma arma de arremesso contra uma certa mainstream que tende a identificar o megalitismo como um fenómeno decorrente da implementação ou do desenvolvimento da economia agropastoril e em que a monumentalidade, megalítica ou outra, é vista como parte integrante de um conjunto de inovações especificamente neolíticas.

É certo que a própria atribuição da génese do megalitismo às últimas comunidades mesolíticas, não sendo completamente inusitada (Bradley, 1993, 1997), exige dados de que, aparentemente, não dispomos e que, em boa verdade, Serge Cassen sugere a atribuição dos monumentos com báculos a uma fase de transição entre os últimos caçadores-recoletores e os primeiros neolíticos, embora com um papel particularmente ativo para os primeiros (Cassen et al., 2000: 550.

No entanto, ao contrário da proposta de Brandherm (1995), a arma de arremesso seria aqui basicamente uma arma de caça miúda, destinada nomeadamente à captura de lagomorfos; à primeira vista, esta função parece insuficientemente relevante para justificar a figuração do báculo lado a lado com animais de grande porte, potencialmente perigosos, como o cachalote ou os cornúpetos ou mesmo com um símbolo tão fecundo na Europa neolítica como foi o do machado.

Na verdade, creio que as grandes estelas bretãs reúnem símbolos que poderão, eventualmente, ser atribuídos ao mundo dos caçadores-recoletores, com outros que refletem as inovações com que, na segunda metade do VI milénio a.C, eles entraram em contacto e que, de uma forma ou de outra, lhes condicionaram as trajetórias. Nesse sentido, quer a representação de animais, quer a representação, relativamente pouco frequente nas estelas, de arcos e flechas, parecem evocar o mundo dos caçadores-recoletores; o machado e o báculo, especialmente por aparecerem associados no contexto de suportes excepcionais, poderiam, por seu turno, referir-se, respectivamente, à pastorícia (de ovi-caprinos) e à agricultura/desflorestação. A domesticação dos animais e a domesticação das plantas.

No entanto, é verdade que alguns báculos, sobretudo os menos recurvados, se afastam da forma típica do cajado pastoril e a possibilidade de o artefacto ter sido adaptado a partir de uma arma curva pré-existente não parece totalmente inverosímil.

Num painel com pinturas rupestres de Medbo (Barfendalen, Bohuslan, Suécia) atribuíveis ao Mesolítico escandinavo, a par de antropomorfos e representações de animais selvagens, aparece, relativamente centrado na parede vertical de um rochedo, o que parece ser a representação de um báculo (Tilley, 1996: 49). Note-se que as dificuldades inerentes à datação da arte rupestre e as datas tardias do Mesolítico escandinavo não permitem definir, neste caso, a antiguidade relativa, face aos báculos dos menires alentejanos ou bretões. São, por outro lado, bem conhecidas as “importações” de itens neolíticos, no Mesolítico escandinavo, durante séculos, sem alterações sensíveis nos padrões económicos dessas sociedades.

Na perspectiva em que me coloco, admitindo que o cajado surgiu, ab ovo, como instrumento de pastores, com funções muito específicas (ajudar a capturar os animais individualmente, para ordenha, tosquia ou outros fins), nada obsta a que passasse igualmente a ser utilizado, pelos mesmos pastores, como arma de caça oportunista.

A tese do boomerang assenta, fundamentalmente, no cruzamento de dados etnográficos de proveniências muito diversificadas (Austrália, África, América), de dados históricos e iconográficos (relativamente ambíguos) do mundo clássico e de alguns escassos dados iconográficos europeus, embora a proposta tenha, aparentemente,


Fig. 6.36 - Painel decorado de Medbo (Bohusla, Suécia, de temática mesolítica, com um possível báculo na área central (seg. (Tilley, 1996: 49).

surgido de uma leitura peculiar da temática expressa nas grandes estelas decoradas bretãs e, em particular, da estela de Gavrinis/Table des Marchands (Cassen e Vaquero-Lastres, 2003; Cassen e Vaquero-Lastres, 2004).

Nessa leitura, para sublinhar a interpretação do báculo como arma de caça e, por isso, associável ao ambiente económico/ideológico dos caçadores-recoletores, o próprio machado foi desvinculado dos contextos neolíticos ou neolitizantes em que, por norma, se insere e considerado um “objeto simbólico, tão próximo da singularidade e da raridade dos animais figurados, como afastado da ferramenta pletórica dos agricultores” (Cassen et al., 2000: 651).

No extremo oposto, em termos interpretativos, refira-se ainda a proposta recente de I. Thorpe que, assumindo, sem discussão, que os báculos bretões seriam símbolos “da celebração da introdução da agricultura na área” (Thorpe, 1999: 60) aceita, como igualmente viáveis, duas leituras muito distintas, mas complementares: o báculo tanto poderia referir-se, de acordo com a opinião mais generalizada, à criação de ovelhas, como representar uma espiga de cereal e ter, portanto, conotações agrícolas. Esta última interpretação tem, ela própria, uma história já longa, com base nos báculos, quase todos com a haste muito aberta, patentes na estela/esteio de cabeceira da Table des Marchands (Cassen et al., 2000: 608).

Recorde-se, para terminar, que o báculo ocorre, esporadicamente, como um elemento decorativo, em recipientes cerâmicos neolíticos, tanto na Bretanha como no Alentejo (Cassen e L’Helgouac’h, 1992). Trata-se, pelo menos no Alentejo, de prováveis evidências da continuidade do símbolo, cuja longevidade se presta, naturalmente, a alguns equívocos cronológicos.

6.2.2. A Lua e o Quadrilátero

Nos menires alentejanos, estes dois motivos aparecem quase sempre associados e, apesar de algumas ligeiras variações, em termos de formas e de dimensões, apresentam sempre a mesma posição relativa, com o crescente por baixo do quadrilátero e ambos numa posição de destaque. A mesma associação pode ser também observada na face posterior da estela de cabeceira da Table des Marchands, na Bretanha (Fig. 11.9) (Boujot e Casse, 1997: 220; Cassen et al., 2000: 296); em contrapartida, um outro menir bretão, o de Kermaillard (Fig. 11.10) (Briard, 1990: 5), apresenta os dois símbolos lado a lado. Não se conhecem, no Alentejo, exemplares em que o quadrilátero apareça separadamente, como acontece em alguns menires bretões (Fig. 11.8) (Shee, 1981; Cassen et al., 2000: 291, 294; Lecerf, 1999: 78) ou no caso, excepcional a todos os títulos, de Stonehenge (Burl, 1999) e ainda em monumentos peninsulares mais tardios (Bueno e Balbín, 1997).

A distribuição geográfica da associação Lua/Quadrilátero é muito mais restrita que a dos báculos; de facto, só foi, até agora, identificada nos três grandes recintos de Évora: Almendres, Portela de Mogos e Vale Maria do Meio e, à excepção do menir 18, no último destes recintos, esses símbolos são, aparentemente, sempre acompanhados por dois pequenos círculos, dispostos um de cada lado do quadrilátero.

De uma forma geral, em todos os casos, a disposição dos diferentes motivos entre si e em relação ao próprio suporte, evoca claramente a figura humana. Segundo Mário Varela Gomes (Gomes, 1997c; 2002b), responsável pela interpretação e pelo desenho dos menires decorados dos Almendres (nº 1) e da Portela de Mogos (nº 4), os círculos e o quadrilátero seriam, respectivamente, representações dos olhos e do nariz do personagem; o crescente lunar, por sua vez, representaria um colar. A reforçar o carácter antropomórfico do conjunto, foram ainda identificados alguns detalhes anatómicos (seios) ou de indumentária (cinto), perfeitamente integráveis no contexto, mas cuja existência efetiva, atendendo ao grau de conservação das superfícies decoradas dos menires, me parece discutível.

Note-se que, nestes menires, o crescente poderia igualmente, ser visto como a figuração da boca, tanto mais que o quadrilátero pode ser interpretado como o nariz. Esta possibilidade que, nunca foi equacionada em relação às estátuas-menires de Évora, foi, no entanto sugerida, por Vergílio Correia, com base na análise do ídolo cilíndrico da Folha das Barradas (Correia, 1921: 89) .

No menir 18 do recinto de Vale Maria do Meio (nº 2), o aspecto antropomórfico pode, eventualmente, ter sido sugerido por um arranjo diferente: os dois báculos dispostos simetricamente poderiam substituir graficamente os círculos que, nos restantes, são interpretados como a representação dos olhos (Vol. 2, fig. 21).

Seja como for, o antropomorfismo do conjunto não implica que cada um dos elementos não tenha, por si só, um significado específico. Tudo leva a crer que, nos menires de Évora, tenham sido usados símbolos com vida própria, articulados em jogos gráficos que lhes atribuem novas dimensões simbólicas.

O crescente lunar aparece, nos menires de Évora, igualmente associado a outros motivos, embora, nesses casos, a forma seja menos explícita. Um deles, é o do menir 17 da Portela de Mogos, um monólito esguio e anguloso, com uma iconografia, em que se incluem nomeadamente figurações antropomórficas, bastante distinta da dos restantes menires decorados desse mesmo recinto; o outro é o menir 57 dos Almendres (Fig. 6.37), com um conjunto de báculos e com um crescente, do qual foram publicadas fotografias, feitas após tratamento bicromático (Gomes, 1989: 257; Bueno e Balbín, 1995: 371), e que, num trabalho mais recente, foi interpretado também como báculo (Gomes, 1994b: 337).

Existe ainda um conjunto de motivos em arco de círculo, presentes nos menires de Évora e de Reguengos, assim como noutros contextos (Bueno e Balbín, 1997: fig. 18) que podem, por hipótese, ser representações lunares, embora se afastem do inconfundível rigor gráfico dos crescentes, em baixo-relevo, que ocorrem associados aos quadriláteros.

A importância simbólica dos astros e, dentro destes, do Sol e da Lua, evidenciada pelas relações espaciais entre os monumentos e a paisagem, parece ter-se materializado igualmente em iconografias específicas, recorrentes, em posições de destaque nas superfícies dos menires.

Fig. 6.37 - Lua e báculo, em baixo-relevo, no menir 57 do recinto dos Almendes.

O círculo, cujo significado, por se tratar de uma forma demasiado universal, é sempre difícil de balizar, poderia, neste contexto, corresponder também a representações astrais e, atendendo à presença do crescente, eventualmente solares.

A interpretação do crescente, nessas figurações antropomórficas, como objecto de adorno (colar), é uma boa possibilidade que remete, sobretudo, para paralelos mais tardios, na região e fora dela (Bueno, 1995; Kinnes, 1995;Marinis, 1995; Bueno e Balbín, 1998; Gonçalves, 2004: 170).

No entanto, na referida estela-menir/esteio de cabeceira da Table des Marchands, elementos análogos apresentam um arranjo de tal forma distinto, que as interpretações avançadas não aludem sequer à possível figuração antropomórfica do conjunto. De facto, o crescente foi interpretado como uma evocação do mundo subterrâneo e o quadrilátero, como uma representação da terra; neste caso particular, o quadrilátero é encimado por dois semicírculos que, por sua vez, foram interpretados como uma figuração do Céu; existem ainda dois pequenos semicírculos que, nas bordas da estela, enquadram os outros motivos e que foram interpretados como representações astrais (o Sol ou a Lua) (Boujot e Cassen, 1997: 220).

Não deixa de ser curioso que, nesta leitura (em que se procurou um paralelo com a decoração de um vaso do monumento funerário de Lannec er Gadouer) se interpretem como figurações astrais dois motivos pouco explícitos e se omita o sentido mais óbvio do crescente.

Numa perspectiva semelhante, baseada na história comparada das religiões, propôs-se uma certa ligação entre conceitos como lua-chuva-fertilidade-mulher-serpente-morte-regeneração periódica, como um fundo comum que “surge com frequência nas sociedades agrícolas” (Jorge, 1990: 222).

O crescente é, evidentemente, a forma mais inequívoca de representar a Lua; no entanto, admitindo a possibilidade de os mesmos símbolos gráficos representarem, polissemicamente, realidades distintas, mesmo que, de algum modo, relacionáveis, o crescente poderia remotamente remeter para as plantas em ferradura que encontramos nos recintos alentejanos ou ambos reproduzirem um conceito comum. As correspondências formais entre alguns símbolos básicos da arte rupestre esquemática e plantas de estruturas arquitetónicas, sempre muito hipotéticas e criticáveis (Bradley, 1997: 51), não deixam, mesmo assim, de suscitar alguma reflexão (Zuchner, 1989; Arcà, 1995; Avner e Avner, 1995).

O carácter ambíguo de alguns destes símbolos, parece observar-se, por exemplo, no menir 57 dos Almendres, em que, como se viu, o crescente se confunde com a extremidade curva dos báculos, ou no menir 17 da Portela de Mogos, em que o possível crescente se aproxima graficamente de um motivo interpretado como corniforme, cujos paralelos bretões são muito idênticos (Fig. 11.18).

Esta ambiguidade permite compreender melhor a interpretação avançada por um autor bretão, para quem as lúnulas são também uma variante do símbolo cornudo (Lecornec, 1996: 128).

Quanto ao quadrilátero que, nos exemplares melhor conservados, assume normalmente a forma de um trapézio, com a base para cima, o significado é, aparentemente, mais difícil de estabelecer. A forma quadrangular (e, sobretudo, trapezoidal) poderia, atendendo ao contexto, remeter para o simbolismo do machado, fazendo, como acontece frequentemente nos exemplares bretões, contraponto com as representações dos báculos.

Por outro lado, a forma trapezoidal (e, por vezes retangular), com dimensões muito semelhantes às do

motivo representado nos menires de Évora, é característica de um artefato simbólico muito específico do Alentejo Central: as placas de xisto decoradas que ocorrem, em contextos funerários do Neolítico final e Calcolítico, onde, por vezes, têm como contraponto, precisamente os báculos de xisto.

A associação do báculo com uma forma retangular, em baixo-relevo, que foi interpretada como paleta, surge também no menir de Navalcán (Bueno e Balbín, 1995: 375,376) e figuras quadrangulares incisas surgem, como referi, esporadicamente também em esteios de sepulturas megalíticas, nomeadamente nas da Granja de Toniñuelo, Soto e Alberite (Bueno e Balbín, 1997: 115).

Para ampliar o leque das ambiguidades, note-se que, no caso específico das placas de xisto, a forma do suporte parece assumir igualmente carácter antropomórfico, reforçado, nalguns casos de forma muito explícita, pela decoração (olhos, braços) ou por detalhes anatómicos recortados (ombros, braços, olhos) (Gonçalves, 2003c; 2004a).

Convém ter em mente que o trapézio tem também, tal como os semicírculos, correspondência em formas arquitetónicas neolíticas; tanto as casas longas como muitos dos grandes monumentos tumulares da Europa Central e Ocidental, apresentam plantas trapezoidais e a analogia formal com a forma do machado é, aliás, uma observação antiga (Cassen et al., 2000: 607), retomada em trabalhos recentes (Patton, 1991; Tilley,1996a).A forma trapezoidal está igualmente latente, nos alinhamentos de menires, organizados em leque, de muitos monumentos bretões e britânicos.

Em contrapartida, ignoramos quase tudo sobre as plantas das cabanas neolíticas peninsulares; num contexto um pouco mais antigo, a única excepção, funcionalmente muito mal compreendida, é a fossa trapezoidal que sobrepõe o recinto de postes dispostos em semicírculo, no concheiro mesolítico da Moita do Sebastião (Roche, 1972); a aparente raridade desta estrutura deve, como se sabe, ser matizada pela escassez de escavações modernas, em área aberta, tanto nos sítios mesolíticos como nos neolíticos antigos.

6.2.3. A Serpente

Trata-se de um dos símbolos mais universais, de entre os que estão presentes nos menires alentejanos e não só.

Recorrente na arte rupestre de ar livre, nomeadamente no complexo rupeste do Guadiana, é igualmente um tema central na arte megalítica peninsular (Shee, 1981).

A interpretação das linhas ondulantes que, nos menires, se orientam sempre na vertical, não é pacífica (Bueno e Balbín, 1995): alguns autores propõem que se trate, efetivamente, da representação da serpente, animal que integra, muitas iconografias e mitologias, um pouco por todo o lado (Clottes e Lewis Williams, 1998: 28; 94; Dowson, 1998: 79; Jolly, 1998: 259; Whitley, 1998: 16,17), podendo implicar ou não uma certa ofiolatria; as dúvidas resultam, naturalmente, do facto de, na maioria dos casos, não serem perceptíveis caracteres anatómicos inequívocos.

As implicações simbólicas da serpente são culturalmente determinadas: uma das leituras possíveis e, de certo modo, aquela que cristalizou na tradição cristã, é a que identifica a serpente com o mundo subterrâneo, com conotações mais ou menos tenebrosas (Boujot e Cassen, 1997).

Num texto recente, a propósito de um menir em que foi identificado um grande serpentiforme vertical, foi sugerido que “o facto de as serpentes serem gravadas como se subissem a partir da terra (i.e. movendo-se verticalmente para cima desde a base da pedra) ecoa o carácter ctónico frequentemente atribuído às serpentes nas mitologias documentadas” (Scarre e Raux, 2000: 758).

Dentro deste campo semântico, outro sentido possível remete para o mundo dos mortos e para conceitos de morte/renascimento que o megalitismo funerário pressupõe (Bueno e Balbín, 1995).

Aparentemente noutro extremo, David Calado, num estudo sobre os menires do Algarve, interpreta as linhas ondulantes como representações de ondas, tendo como referente o próprio mar, com o qual os monólitos mantêm uma relação de proximidade relativa (D. Calado, 2000a).

A associação entre este símbolo e a água - as ondas, a chuva ou os rios - conta igualmente com interessantes paralelos etnográficos (Dowson, 1998).

No Alqueva, os serpentiformes estão bem representados nos três principais núcleos de gravuras - Molino Manzanès, Casa da Moinhola (Fig. 6.38) e Retorta - por outro lado, sugerindo analogias formais, numa outra escala, o complexo rupestre concentra-se claramente junto das curvas mais acentuadas do Guadiana (Calado, 2004), pelo que não deixa de ser sugestiva a possibilidade de os símbolos aludirem, ou aludirem também, ao curso serpenteante do rio.

Nada obsta, no entanto, a que a serpente e a água fossem identificadas pelo mesmo símbolo e que, numa base analógica, uma e outra fossem tidas como manifestações de uma mesma realidade. Sabe-se, por exemplo, que entre os aborígenes australianos “o movimento da serpente ancestral criou os meandros dos cursos de água” (Tilley, 1994: 40) e a própria linguagem corrente refere metaforicamente o curso serpenteante dos rios ou os movimentos ondulantes das serpentes.

A escavação do povoado tardo-neolítico das Águas Frias (Calado e Rocha, 2004) revelou um sistema de fossos sinuosos, semelhantes aos que, em Papa Uvas (Martin de la Cruz, 1985, 1986) e em Juromenha 1 (Calado, 2002b), tinham sido apenas muito parcialmente observados; um deles, o fosso mais interior, cuja extremidade Sul foi integralmente escavada, apresenta uma curiosa e funcionalmente incompreensível, redução progressiva das dimensões (largura e profundidade) o que, aliado à forma ondulante, sugere a representação de uma cauda de serpente.

Fig. 6.38 - Rocha 10 da Moinhola (Alqueva), com serpentiformes, associados a antropomorfos e círculos

(seg. Baptista, 2002: 162).

Fig. 6.39 - Distribuição das gravuras picotadas ao longo do Guadiana, na área do Alqueva.

Fig. 6.40 - Planta dos fossos do povoado das Águas Frias (Alandroal) (seg. Calado e Rocha, 2004)


Reduzindo mais a escala, note-se que é muito sugestiva a presença, em dois povoados com fossos sinuosos, Juromenha 1 e Papa Uvas (Martin de la Cruz, 1985, 1986), de cerâmicas decoradas com serpentiformes.

Recentemente, num estudo específico sobre o tema da serpente na pré-história peninsular, Primitiva Bueno e Rodrigo Balbín observaram uma frequente associação entre as representações mais convincentes da serpente e os temas antropomórficos que, nos menires, são expressos pelo próprio suporte (Bueno e Balbín, 2002).

É difícil, neste contexto, resistir a comparações culturalmente transversais; recorde-se, por exemplo, o símbolo da medicina ocidental, atributo de Esculápio, em que se reúne a serpente e o cajado ou a serpente Kundalini da fisiologia/filosofia oriental.

6.2.4. O Círculo

Já fiz acima referência às possíveis conotações astronómicas (nomeadamente solares) dos círculos que surgem, com diversas variantes, nos menires alentejanos.

A representação solar mais indiscutível é a do menir da Belhoa, enquanto o círculo gravado na extremidade superior do menir 17 da Portela de Mogos (nº 4), também muito sugestivo, aparece duplicado pelo antropomorfo com sol que lhe subjaz; também os três círculos do menir 58 dos Almendres (nº 1) já foram interpretados como representações solares (Gomes, 1989: 264) e poderíamos, certamente com algum risco, sugerir um significado semelhante para os pequenos círculos interpretados como representações oculares nas chamadas “estátuas- menires”. Essa ambiguidade de sentidos verifica-se, aliás, claramente, na síntese olhos-Sol que ocorre, por exemplo, nas placas de xisto alentejanas (Gonçalves, 2004: 169-170).

No entanto, é muito provável que, na arte megalítica peninsular, o círculo tenha também outros referentes.

Trata-se, mais uma vez, de uma forma básica, relativamente universal, apta, em termos iconográficos, para representar realidades e conceitos muito diversos.

Fig. 6.41 - Motivo serpentiforme, em fragmento cerâmico de Juromenha 1.

É curioso que, na arte paleolítica europeia, dominada pelas figurações, mais ou menos naturalistas, de animais de grande porte, mas em que os temas geométricos não são raros, o círculo esteja praticamente ausente. Em contrapartida, no complexo rupestre do Alqueva, como noutros contextos pós-glaciares, os círculos, isolados ou inseridos em grafias mais complexas, ultrapassam com grande margem, os restantes temas (Calado, 2004; Collado, 2004).

Fosse qual fosse o significado que assumia, podemos certamente relacionar este símbolo com as profundas mudanças que acompanharam o processo de neolitização, entre as quais se destaca uma marcada tendência para a sedentarização: é possível que o espaço linear do caçador-recolector nómada (Nash, 2000: 5) se tenha graficamente transformado no espaço centrado, circular, concêntrico, do sedentário. No entanto, é pouco provável que as implicações simbólicas dos círculos se esgotem nas leituras de carácter topográfico que, em alguns contextos genericamente contemporâneos, parecem fazer sentido e a que já fiz referência.

Um caso particularmente interessante, é o dos círculos com covinha central, do menir do Monte da Ribeira (nº 40), em Reguengos de Monsaraz. A raridade deste tema, na região, contrasta com a sua frequência noutras regiões megalíticas mais setentrionais, com um particular destaque para as Ilhas Britânicas, onde ocorre também em menires (Burl, 1999), sugerindo, apesar da universalidade do tema, contatos de longo curso, em que o Noroeste da Península poderia ter funcionado como estação intermédia. A posição secundária, em relação ao báculo, com o qual contrastam em termos técnicos (o báculo é em baixo-relevo) e a ausência de paralelos nos outros menires da região, podem, eventualmente, implicar o carácter tardio destas gravuras.

As covinhas poderiam, como grafemas autónomos, pertencer, eventualmente, à mesma categoria simbólica que os próprios círculos e remeter igualmente para as conotações astronómicas, representando eventualmente estrelas (Belmonte, 2003: 82-85), ou mesmo, mais especificamente, o próprio Sol (Bueno e Balbín, 2003: 421). No entanto, as covinhas conhecidas nos menires alentejanos parecem geralmente tardias (Calado, 1997b; Gomes, 2002), uma vez que ocorrem, com bastante regularidade, apenas ao longo das faces expostas dos monólitos tombados, situação igualmente observada na Bretanha, embora de uma forma aparentemente menos sistemática (Le Goffic, 1997: 363).

Nos Almendres (nº1) e na Portela de Mogos (nº4), as covinhas ocorrem muito pontualmente e não parecem articuladas com as restantes gravuras, enquanto no Vale Maria do Meio(nº2) não foi identificado nenhum monólito com covinhas; este motivo está também, aparentemente, ausentes nos recintos do Tojal (nº 5), Cuncos (nº 7), Sideral (nº 10) e Fontaínhas (nº 11). 

6.2.5. Síntese

As gravuras dos menires alentejanos inserem-se numa tradição gráfica e num fundo cultural com raízes que, segundo parece (Bueno e Balbín, 2002; Collado, 2004) remontam, sem esforço, ao epipaleolítico e, numa perspectiva mais abrangente, ao próprio paleolítico superior; no entanto, alguns elementos parecem retratar, simultaneamente, uma ruptura profunda.

O carácter artificial da implantação dos suportes e o investimento que esta operação implicava, são uma inovação fundamental que condicionou, decerto, a lógica dos temas representados. À especificidade cronológica e cultural dos menires corresponde, naturalmente, uma iconografia peculiar.

Sem pretender reduzir o potencial simbólico dos temas representados, com significados que, como vimos, se adivinham complexos, a esquemas estritamente descritivos, nem, por outro lado, entrar em terrenos interpretativos demasiado arriscados, creio que podemos hierarquizar a temática dos menires alentejanos em dois grandes blocos: as referências antropomórficas e as astronómicas.

Ambos remetem directamente para a transição Mesolítico-Neolítico, no sentido mais amplo possível. A sedentarização, a territorialização e a domesticação são as palavras-chave de um processo que, em termos económicos e sociais, não está ainda bem compreendido, mas que, em vários registos, se pode conjugar com a simbólica global dos menires.

Se, nas orientações astronómicas dos monumentos, encontramos uma boa materialização das ideias que os símbolos astrais, numa duplicação aparente, evocam, elas próprias parecem inserir-se num “projeto” que, para além da domesticação do espaço, procurava igualmente domesticar o tempo. Por outro lado, a descoberta do “calendário cósmico” proporcionada pela observação dos movimentos do Sol e da Lua, no horizonte, é necessariamente uma consequência da sedentarização.

Dentro das representações antropomórficas a que os menires, pela primeira vez, deram corpo, em grande escala e a três dimensões, o báculo dá-nos informações sobre quem eram e o que proclamavam os construtores de menires; trata-se, segundo creio, de uma indicação de carácter económico, mas cujo alcance simbólico é indiscutível.

Segundo J. Cauvin (1999: 195), “o desejo humano de dominação dos animais”, explicaria, só por si, a adopção da pastorícia, mais do que as supostas vantagens de ordem económica; no entanto, com ou sem vantagens na relação quantitativa entre o investimento e o retorno (Sahlins, 1983), é bem possível que a pastorícia, certamente complementada pela caça e pela recolecção, tenha sido a base de subsistência dos construtores de menires alentejanos.

A exibição “alto e bom som” do símbolo da pastorícia (de ovi-caprinos), como um atributo dos personagens figurados, implica, eventualmente, num cenário de disputa, que os destinatários da mensagem seriam os grupos que não se identificavam, eles próprios, com a pastorícia e esses corresponderiam, por exclusão de partes, às últimas sociedades mesolíticas. A agricultura detinha ainda, segundo tudo leva a crer, um estatuto pouco mais do que simbólico.

De entre os motivos mais sugestivos, os serpentiformes parecem constituir o grupo menos inovador. A possibilidade, que me parece lógica, de o rio ter constituído um dos referentes materiais deste símbolo, remete para uma origem paleolítica do conceito. Na verdade, a escolha das curvas do rio ou, pelo menos, da mais acentuada delas, foi certamente obra dos primeiros “artistas” que frequentaram o Molino Manzanès (Collado, 2004). É curioso o facto de a serpente ser abundante na arte megalítica dolménica peninsular, sobretudo porque, no Alentejo Central, esta modalidade é praticamente inexistente; destacam-se, neste contexto de aparente pobreza, os possíveis serpentiformes da Anta Grande do Zambujeiro (nº3) (Rocha, 2004) .

O carácter ambíguo dos símbolos, que, algumas vezes, está na origem dos desacordos interpretativos entre os investigadores, não parece ter sido acidental; trata-se, ou pelo menos parece tratar-se, de efeitos que foram intencionalmente explorados, de forma gráfica e talvez também conceptual.

Na verdade, por serem formas muito básicas, estes símbolos prestam-se a leituras polissémicas que, hoje em dia, perdidos os contextos em que foram inventados, não é fácil descodificar.

O machado e o báculo, o báculo e a lua, o machado e a figura humana, a lua e o corno, o olho e o Sol, são alguns dos binómios que, como se viu, não deixam de causar uma certa perplexidade.

                              

Fig. 6.42 - Jogos gráficos com símbolos elementares, em dois logotipos recentes (2004).


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Abstract

     Este trabalho corresponde ao Volume 1 de uma Tese de Doutoramento, defendida na FLUL, em 2005 e aprovada por unanimidade. O júri, como ...