Capítulo 8: Os contextos paisagísticos


8.1. Introdução

No capítulo 3 foi feita, em traços gerais, a caracterização fisiográfica da área de estudo. No entanto, a contextualização paisagística dos menires tem que passar, necessariamente, pelo cruzamento dos dados da geografia física com a informação arqueológica disponível, analisada em diversas escalas.

Trata-se, desde logo, de procurar, no território físico, as paisagens invisíveis de que os monumentos megalíticos são, hoje em dia, os vestígios mais palpáveis.

À escala local, os menires e, sobretudo, os recintos, constituíram, indiscutivelmente, importantes intervenções na “arquitetura” da paisagem natural; as próprias orientações astronómicas, exigindo alguma visibilidade nas direções mais significativas, sugerem a existência de clareiras, mais ou menos amplas, em redor dos monumentos.

Por outro lado, a lógica da distribuição e da implantação dos monumentos, supõe, numa escala mais alargada, um conhecimento prévio da região e uma eventual valorização simbólica de certos elementos paisagísticos fundamentais.

Aceitemos, sem discussão, que o Alentejo Central tinha sido abandonado, no início do Atlântico, no contexto da litoralização das comunidades humanas, cujos últimos vestígios estão, pelo que parece, documentados, na região, junto ao Guadiana (Almeida et al., 1999; 2002; Collado, 2004).

Para os habitantes dos concheiros, instalados, durante séculos, numa paisagem dominada pela água, com uma economia muito dependente dos recursos aquáticos e com rituais em que as próprias conchas desempenharam, aparentemente, um papel importante, o Alentejo Central (e, em particular, a área de Évora) seria, provavelmente, visto como uma região inóspita, selvagem, face aos espaços habitados, explorados e, de certa forma, domesticados, que constituiriam, em termos de subsistência, as suas áreas de captação de recursos.

A transitabilidade natural e a contiguidade, garantiam, no entanto, ao Alentejo Central, um estatuto privilegiado na geografia dos concheiros, com incidências mais prováveis na estruturação simbólica das paisagens (Knapp e Ashmore,1999: 8), do que na vida económica; neste aspecto, sendo certo que os mesolíticos exploravam os recursos cinegéticos dos respectivos hinterlands, não parece que os habituais territórios de caça se estendessem, de forma quotidiana, até ao Alentejo Central.

Trata-se, desde logo, de um território relativamente equidistante e igualmente acessível, em relação aos dois estuários. Nestes aspectos, a região surge como uma fronteira e, eventualmente, uma espécie de terra de ninguém, entre os territórios do Tejo e do Sado.

As diferenças, de várias ordens (Arnaud, 1987), e a própria separação territorial, entre os concheiros do Tejo e do Sado, permitem interpretar o Alentejo Central, antes da instalação dos primeiros povoados, como um palco natural de interações entre os habitantes dos dois estuários.

Os grandes penedos naturais das paisagens graníticas alentejanas que se vieram a tornar, no Neolítico antigo, os nós principais da rede de povoamento neolítico regional (Fotos 1 a 38; mapa 7), e que, como vimos, podem ter sido os modelos que inspiraram a construção dos primeiros menires, entraram provavelmente no universo simbólico das comunidades mesolíticas, tal como as principais linhas de transitabilidade natural que, no território do Tejo/Sado, ligam o litoral e o interior e que condicionaram a própria percepção das paisagens.

Essas formações geológicas, cujo suposto papel, na génese do megalitismo, tem vindo a ser reforçado por algumas contribuições recentes (Tilley, 1996b; Cummings, 2002; Scarre, 2004) - e que ultrapassa, obviamente, os meros condicionalismos geológicos - são, a par da ausência de água, um dos elementos que implicam um contraste absoluto com os territórios estuarinos, de solos arenosos e sem afloramentos de qualquer tipo. Também em termos topográficos, o interior, relativamente acidentado, contrasta com os estuários, com paisagens muito mais monótonas; a articulação dos menires com os pontos mais altos da região revela-se, tanto na própria localização de alguns dos mais importantes monumentos - Almendres (nº 1) e S. Sebastião(nº 8), como na escolha dos pontos destacados no horizonte, usados como back-sights nas orientações astronómicas (Evoramonte, S.Gens, Monsaraz, Montemor-o-Novo).

Por outro lado, o Alentejo Central, de onde poderão, pelo menos em parte, ter sido originárias as populações dos concheiros, seria, também por isso, um território carregado de significados e, eventualmente, conotado com a terra dos antepassados. O antigo santuário do Guadiana, acessível a partir da área de Évora - que, em termos viários, era uma verdadeira plataforma giratória - e o próprio santuário do Escoural, poderão igualmente, cada um a seu modo, ter desempenhado um papel na fixação dessa referência.

O povoamento neolítico do interior alentejano não parece corresponder, no entanto, a um avanço contínuo, a partir dos estuários (ou do litoral): o vazio arqueológico entre o Alentejo Central e as áreas dos concheiros pode, efetivamente, corresponder também ao padrão observado noutras áreas europeias, em que, entre mesolíticos e neolíticos, se criaram espaços fronteiriços, desocupados, formando “uma espécie de no man’s land de 20 a 30 quilómetros de largura” (Guilaine e Zammit, 2001: 128).

Convém referir que, com os dados atualmente disponíveis, a lacuna em causa não parece ser apenas um vazio da investigação. É certo que podemos e devemos invocar razões de ordem mesológica, uma vez que as areias e cascalheiras terciárias só seriam atraentes junto aos estuários; porém, os eventuais confrontos entre os “partidos” em disputa, poderão ter aconselhado uma fronteira física entre os dois lados da fronteira cultural.

Em princípio, as relações paisagísticas entre os territórios estuarinos e o Alentejo Central , serão sempre relevantes para o entendimento do processo que conduziu à neolitização, relativamente precoce, desta área; os construtores dos primeiros povoados neolíticos, quer fossem indígenas quer colonos, teriam sempre coexistido com os últimos mesolíticos do Tejo/Sado e quase inevitavelmente interagido com eles.

8.2. Geologia

A relação de proximidade entre os menires e as manchas de rochas granitóides, no Alentejo Central, já antes foi referida, a propósito das questões da matéria-prima dos menires e da eventual relação entre estes e os monumentos naturais.

Também já fiz menção, como um dos critérios mais seguros para a identificação dos menires, à descontextualização geológica que afeta um bom número de monumentos (mapa 15); esta deslocação dos blocos pode ter implicado vários quilómetros, como no caso de Vale de Rodrigo (nº 46) ou do S. Sebastião (nº 8), ou escassas centenas ou mesmo dezenas de metros, como parecem ser os casos do Tojal (nº 5) ou do Vale d’El Rei (nº 15).

Outra situação muito recorrente é a dos menires que se implantam ainda em terrenos graníticos mas junto aos limites da mancha geológica; estão neste caso, por exemplo, o menir de Vale de Besteiros (nº 39), os menires do Carrascal (nº 17) ou os da Cegonheira (nº 20). Esta situação de fronteira, num contexto cultural em que se prestava, certamente, uma atenção especial à geologia, não pode deixar de ser altamente significativa (Taçon, 1999: 41) , tendo sido, igualmente observada num conjunto de menires e “menires” naturais do distrito de Portalegre, implantados em linha, junto ao contacto entre os xistos e os granitos (Oliveira, 1998; Oliveira e Oliveira, 1999-2000).

Em contrapartida, é notória a ausência de menires nos terrenos xistosos, muito bem representados na região e onde se localizam, aliás, alguns núcleos muito interessantes de antas e sepulturas submegalíticas (Leisner e Leisner, 1955; Calado, 1993a; 1994; Calado e Mataloto, 2001a), para além do próprio santuário rupestre do Alqueva (Calado, 2004); com efeito, a única excepção, é o menir da Moinhola que, nesse como noutros aspectos, destoa fortemente do conjunto dos menires da região, podendo, na verdade, relacionar-se com os povoados da I Idade do Ferro estudados nas proximidades (Casa da Moinhola, Moinho Novo de Baixo, Espinhaço de Cão) (Calado, 2002b); esta possibilidade, certamente difícil de confirmar, ajustar-se-ia certamente melhor à forma angulosa do monólito. Note-se que o menir da Moinhola se localiza num vau natural, entre a margem e a ilha que separa um braço do Guadiana do curso principal do rio.

Também nos terrenos calcários, maioritariamente integrados na grande mancha de calcários cristalinos e dolomíticos que constitui a extremidade Nordeste da presente área de estudo, os menires estão completamente ausentes , embora, neste caso, o megalitismo funerário seja igualmente muito raro. A presença de vestígios de habitat, com cronologias que arrancam no Neolítico antigo (Calado, 1995-1996) e continuam, sem aparentes hiatos, até ao Calcolítico final (Calado, 2001a), tornam ainda mais incompreensíveis estes vazios; podemos, eventualmente, invocar problemas tafonómicos, relacionados com a intensa exploração a que os mármores têm sido sujeitos desde, pelo menos, a época romana, quer para uso direto, quer para o fabrico de cal.

Seja como for, apesar de, em termos estritamente tecnológicos, tanto os xistos como os calcários poderem fornecer matéria-prima viável (recorde-se que, noutras áreas europeias, nomeadamente na Bretanha, não são raros os menires de xisto ou de calcário) o certo é que no Alentejo Central (como, aliás, noutras áreas limítrofes), parece terem funcionado regras mais estritas; na região, os menires são, quase por definição, inseparáveis das paisagens graníticas.

O mesmo se passa, como se viu, com os povoados do Neolítico antigo que, com raríssimas excepções, são igualmente exclusivos das áreas graníticas ou, pelo menos, das imediações destas.

No entanto, os povoados do Neolítico antigo, tal como os menires, repartem-se de forma muito irregular nas próprias manchas graníticas da região, pelo que devemos concluir que os afloramentos graníticos são uma condição necessária, mas não suficiente, para a presença de uns e outros.

As condicionantes meramente técnicas impostas pela presença/ausência de matéria-prima adequada aplicam-se, por exemplo, às áreas onde não existem afloramentos rochosos, de qualquer tipo, disponíveis a uma distância razoável.

No entanto, a exclusão de umas rochas a favor de outras, parece ultrapassar as verdadeiras limitações técnicas e apelar a explicações de ordem cultural.

As formas arredondadas dos geomonumentos graníticos, em contraste com as formas angulosas das rochas xistosas (neste aspecto, os calcários são, mais uma vez, um caso à parte) poderiam inserir-se num fundo “iconográfico” mais amplo, cujas primeiras manifestações arrancaram, segundo parece, no Epipaleolítico, época em que a arte rupestre terá começado a privilegiar os motivos arredondados - zoomorfos e, eventualmente, antropomorfos (Collado, 2004).

8.3. Topografia

À escala do sítio, as regras topográficas que ditaram a implantação dos menires e dos recintos megalíticos parecem relativamente flexíveis: mesmo nos monumentos que, por diversos motivos, integramos sem hesitação no mesmo patamar cronologico-cultural, encontramos alguns implantados em altura, como os Almendres (nº 1), a Portela de Mogos (nº 4) ou o S. Sebastião (nº 8), enquanto outros são, pelo contrário, monumentos de planície ou de vale, como o Vale Maria do Meio (nº 2), o Mauriz (nº 38), ou o recinto do Xarez (nº 6).

No entanto, em todos eles, sob diversas formas, os locais de implantação apresentam inequívocas exposições a Nascente, com prováveis implicações arqueoastronómicas. Recorde-se que, reforçando a orientação do terreno, os próprios recintos se orientam para Nascente.

Clive Ruggles, um dos renovadores mais consistentes da arqueoastronomia atual, defende que “as visões do mundo não ocidentais não separam a terra do céu; a astronomia é uma parte integral de todas as cosmologias indígenas, e isto significa que é pouco avisado estudar as paisagens sagradas isoladamente em relação ao céu” (Ruggles, 1998: 208).

Na verdade, é difícil, em qualquer estudo sobre megalitismo, contornar o problema das orientações astronómicas; a arqueoastronomia megalítica, apesar das relações tradicionalmente conturbadas com o discurso arqueológico dominante e da necessidade sentida, sobretudo a partir dos anos oitenta, de uma certa reorientação metodológica, tem vindo a ocupar (ou a recuperar) um lugar de algum relevo na descodificação dos sistemas simbólicos e rituais das sociedades pré-históricas (Heggie, 1981a; 1981b; Aparicio et al., 1993; Iwaniszewki, 1994; Ruggles,1999; Barnatt, 2001: 98; Bradley, 2002b).

No entanto, persiste, da parte dos arqueólogos, um certo distanciamento, sobretudo nos casos em que manifestamente a arqueoastronomia “tem estado divorciada do estudo das sociedades neolíticas como tais” (Giot, 1998: 324). Tendo, tal como Giot, a Bretanha megalítica como referência, mas pensando em termos mais gerais, C.-T. Le Roux, embora aceite algumas orientações astronómicas concretas e destaque algumas regularidades, manifesta-se prudente sobretudo em relação às orientações estelares, chamando também a atenção para as dificuldades emergentes do estado de conservação dos monumentos e das paisagens (Le Roux, 1993).

Efetivamente, tem sido no domínio das orientações azimutais mais elementares, envolvendo apenas o Sol e a Lua, que a adesão dos pré-historiadores tem sido mais incondicional. Trata-se, nesta perspectiva, de monumentos construídos de acordo com observações que não exigiam, de forma alguma, conhecimentos científicos elaborados; de resto, os próprios astros e os eventos celestes seriam certamente percebidos no contexto de uma rede de significados de carácter mágico-religioso, articulada com o significado específico dos próprios monumentos.

Como seria de esperar, os dados e as interpretações referentes às orientações astronómicas dos menires resumem-se, nos textos arqueológicos, a apêndices ou comentários breves, e este trabalho não será, neste aspecto, excepção.

As excepções, por enquanto as únicas, são, para não fugir à regra, da responsabilidade de não arqueólogos (Alvim, 1996-1997; 2004; da Silva, 2000; da Silva e Calado, 2004). Trata-se, basicamente, nos primeiros textos, dos resultados da análise da estrutura interna do monumento dos Almendres e das putativas implicações arqueoastronómicas da mesma, tipo de abordagem que receio enfermar de algumas fragilidades conceptuais e metodológicas: a mais importante resulta do facto de uma parte importante do monumento ter sido restaurada, sem controle arqueológico e sem registo, pelo proprietário. Nos textos mais recentes, ambos os autores analisaram sobretudo as localizações dos monumentos em função uns dos outros e, sobretudo, de relevos destacados no horizonte e as implicações astronómicas dessas posições relativas.

Os resultados confirmam, sem margem razoável para dúvidas, a frequência das orientações astronómicas solares e, sobretudo, lunares, dos principais monumentos avaliados: foram, apenas, testadas as orientações básicas em função dos nascentes ou ocasos solares, nos solstícios e nos equinócios, e das pausas maior e menor da Lua.

Marciano da Silva, para além de ter testado, no terreno, alguns destes alinhamentos fundamentais, avançou recentemente uma hipótese explicativa para as orientações das antas alentejanas, aplicável igualmente a algumas orientações recorrentes nos menires (da Silva, 2004; da Silva e Calado, 2004).

Basicamente, essa proposta assenta na coincidência notável entre o leque de orientações observadas nos monumentos e um evento celeste de grande potencial simbólico, como era certamente o nascer da primeira Lua Cheia depois do Equinócio – a que o autor chamou de Lua de Primavera (da Silva, 2004). As orientações verdadeiramente equinociais são raras e, muito provavelmente, não foram intencionais; segundo C. Ruggles, esse tipo de orientação astronómica “não encontra suporte em nenhum estudo sistemático da evidência de grupos regionais de monumentos” (Ruggles, 1998: 204). 

Fig. 8.1 - Nascer do Sol sobre a colina de Monsaraz, visto a partir dos Perdigões, dois dias antes do Equinócio (seg. da Silva, 2000: 127).


Na verdade, para observar os Solstícios ou as pausas lunares, basta anotar diariamente as posições do nascer ou do por dos astros, no horizonte; o Equinócio, pelo contrário, não pode ser controlado pelo mesmo processo: são necessários cálculos, ainda que para nós, relativamente simples, para determinar o evento.

A observação da Lua de Primavera, seria, portanto, um método de observação e celebração do Equinócio e, precisamente por ocorrer em datas variáveis, permite explicar a oscilação das orientações dos monumentos, dentro de um arco que se centra nos 105º e que raríssimas vezes é inferior a 90º.

Num estudo arqueoastronómico sobre as antas de Valencia de Alcántara, na bacia do Tejo, em que uma parte se orienta para azimutes inferiores a 90º, chegou-se a uma conclusão muito semelhante, embora com base na Lua Cheia de Outono (Belmonte e Belmonte, 2000).

No Alentejo Central, são vários os monumentos ou conjuntos de monumentos meníricos cujas disposições sugerem, de alguma forma, orientações azimutais em função da Lua de Primavera.

Fig. 8.2 - Nascer do Sol sobre Evoramonte, no Solstício de Verão, visto a partir da Portela de Mogos (seg. da Silva e Calado, 2003: 87).



Fig. 8.3 - Histogramas dos azimutes de 110 Luas de Primavera e de antas do SW peninsular, incluindo as do Alentejo Central (seg. da Silva, 2004).

Fig. 8.4 - Alinhamento de recintos e menires, a Noroeste de Évora.

Fig. 8.5 - Alinhamento dos recintos e menires da área do Tojal.

Destaca-se, sobretudo porque implica um conjunto de monumentos de primeira categoria, o alinhamento formado pelos recintos da Portela de Mogos (nº 4), do Vale Maria do Meio (nº 2) e pelos menires daCasbarra 1 (nº 31) e do Mauriz (nº 38). Abstraindo da vegetação actual e assumindo a existência de clareiras em torno dos monumentos, teríamos os dois primeiros intervisíveis, assim como o primeiro e o terceiro. O menir da Casbarra 1 estabelece, por sua vez a ligação visual entre a Portela de Mogos que se destaca, no horizonte ocidental, e o Mauriz que aparece enquadrado por uma entalhe no horizonte mais próximo. Esta linha está orientada aos 101º.

Os recintos e menires de Pavia, por sua vez, distribuem-se ao longo de uma banda genericamente WNWESSE; se considerarmos apenas os dois recintos pré-históricos podemos mesmo falar numa orientação em torno dos 106º.

O recinto de Cuncos, cuja implantação é bastante canónica, com um declive relativamente acentuado, orientado a Nascente, encontra-se alinhado, a 100º, com o cabeço do castelo de Montemor-o-Novo que se destaca, de forma imponente, no horizonte oriental.

Os recintos do Monte da Ribeira (nº 9) e dos Perdigões (nº 13) estão, por sua vez, equinocialmente apontados ao cabeço de Monsaraz, num ângulo que dependeria, naturalmente da parte do cabeço que seria usada como mira.

Fora do âmbito geográfico deste trabalho, mas com ele certamente relacionado, podemos ainda mencionar o recinto desmantelado do Alminho, no distrito de Portalegre, de onde, na direcção dos 100 º, a intersecção do horizonte longínquo com o horizonte mais próximo pode ter definido um eixo de observação.

Menos credível, devido à distância envolvida, é o alinhamento, orientado aos 105º e definido pelos recintos dos Almendres (nº 1) e do Xarez (nº 6). Por outro lado, contribui para dar alguma credibilidade a esta linha, o facto de ela incluir ainda a Anta Grande do Zambujeiro (nº 3) e o povoado dos Perdigões (nº 13) (Silva et al., 1998), dois sítios que, à escala regional e cada um dentro do seu género, dispensam certamente adjetivos.

É claro que não é possível generalizar a todos os recintos, conjuntos ou menires isolados estas ou outras orientações de base astronómica: mesmo que originalmente todos tivessem sido implantados em função de critérios desse género, a verdade é que os monumentos atualmente conhecidos não passam de uma amostra mais ou menos amputada do universo original e nem todos os nexos, infelizmente, se mantiveram.

Além disso, não é certo que os monumentos tenham sido todos, ou tenham sido apenas, orientados em função de eventos celestes: conhecem-se bastantes casos em que, aparentemente, os monumentos foram conjugados com a estrutura da paisagem envolvente, sem que tenham sido identificadas orientações de carácter astronómico. As linhas definidas pelos monumentos da área do Tojal (Fig. 8.5) ou de Cuncos (Fig. 8.6), tal como o alinhamento da Tera, parecem ilustrar essa alternativa.

Uma relação preferencial com aspectos oro-hidrográficos foi defendida, a propósito de Stonehenge, por T. Darvill que sugeriu a articulação do monumento com “uma cosmologia terrestre baseada na paisagem mais do que nos céus e talvez originalmente derivada de mitos e lendas dos antigos caçadores-recoletores que primeiro ocuparam a área” (Darvill, 1997: 181).

Porém, a articulação dos monumentos com os eventos celestes mais espetaculares e fáceis de observar, através da interposição de determinados pontos destacados no horizonte, parece ter sido bastante frequente nas estratégias de implantação dos menires alentejanos.

Pedro Alvim, num trabalho circunscrito à área da serra de Monfurado (Alvim, 2004), defendeu que os elementos da paisagem terrestre fariam parte de uma rede de significados que conjugava, num mesmo sistema espacial, as linhas do céu (os astros) e da terra (festos e horizonte).

Partindo da relação evidente entre a distribuição dos menires (e, sobretudo, dos recintos) e as principais linhas de festo que intersectam a região (Calado, 1990; 1997; 2000), o autor verificou que estas linhas coincidem, de uma forma bastante coerente, com algumas direções astronómicas elementares. Na sua opinião, os construtores do recinto dos Almendres (nº 1) tiraram partido desta coincidência, amplificando, “à escala dos limites da visibilidade a monumentalidade do sítio” (Alvim, 2004: 9,10).

A leitura proposta por Pedro Alvim sugere, naturalmente, um primado da paisagem (e de um conhecimento circunstanciado da mesma) na determinação dos diferentes locais de implantação dos monumentos. Na prática, esta perspectiva atribui ao par de menires de S. Sebastião um certo papel de pivot, a partir do qual, por prolongamento dos dois troços do festo que nele convergem, teria sido determinada a posição do conjunto do Tojal (nº 5)/Casas de Baixo (nº 12) ou do recinto dos Almendres (nº 1). Esta função central ou genesíaca do monumento de S. Sebastião é muito sugestiva, sobretudo se tivermos em conta que o menir 2 de S. Sebastião é o mais pesado de todos os menires alentejanos e que o monumento se localiza na cota mais alta em relação a todos os restantes.


Fig. 8.6 - Alinhamento dos recintos e menires da área de Cuncos.

Fig. 8.7 - Orientações internas dos menires dos Almendres incluindo a orientação solsticial que se prolonga para o menir do Monte dos Almendres (seg. Alvim, 1996-1997: 16).

Fig. 8.8 - Esquema das relações entre os monumentos, os festos e as orientações lunares e solares (seg. Alvim, 2004).


Fig. 8.9 - Projecções dos troços do festo principal, a partir dos menires de S. Sebastião (seg. Alvim, 2004).


Por outro lado, a possibilidade de alguns monumentos terem sido intencionalmente implantados no prolongamento das principais linhas de festo, poderia eventualmente aplicar-se, com alguma propriedade, aos menires isolados que continuam, para Noroeste, o segmento definido pelo festo Sado/Guadiana, a partir do único ponto em que os três festos principais (e, com eles, as bacias do Tejo, Sado e Guadiana) se encontram (Fig. 8.10, 1). Na verdade, com alguma imaginação, poderíamos ainda ver, nos menires de Reguengos de Monsaraz, o prolongamento dessa mesma linha, na direção inversa (Fig.8,10, 2), e, nos monumentos de Pavia, o prolongamento, também para Noroeste, do festo Tejo-Sado, a partir do ponto de inflexão localizado em Evoramonte (Fig.8.10, 3). 

Para além destas relações aparentes, entre os monumentos e a trama estrutural da região, há ainda a considerar a importância dos principais relevos no horizonte; destaca-se, de entre estes, o perfil da serra d’Ossa e, em particular o detalhe mais imponente, visto a partir do quadrante ocidental, que é o cabeço de Evoramonte.

É óbvio que a serra d’Ossa, sendo exterior aos territórios em que foram construídos menires, foi integrada na estrutura simbólica dos monumentos; na verdade, a serra d’Ossa representa, no contexto geográfico do Alentejo Central, o principal acidente orográfico, cujo potencial simbólico, numa região de horizontes abertos, é perfeitamente compreensível.

À escala local, os aspectos topográficos da paisagem parecem ter sido igualmente determinantes na escolha dos locais de implantação dos monumentos: os da área de Cuncos e do Tojal (Fig. 8.5 e 8.6) configuram, pelo que parece, uma disposição relativa dos elementos que os compõem, claramente condicionada pela topografia local.

8.4. Hidrografia

Como acabamos de verificar, a rede hidrográfica parece ter desempenhado um papel fundamental nas implantação paisagística dos menires alentejanos, em particular dos de Évora e Montemor-o-Novo e, de um modo diferente, dos de Reguengos de Monsaraz ou Pavia.

Os festos, tal como os cursos de água com os quais se relacionam, constituem caminhos naturais por excelência e foram, certamente, usados como tal pelos construtores dos menires da região. Neste sentido, a área de Évora, onde, segundo parece, se concentra o principal foco de menires alentejanos e a maior concentração de povoamento do Neolítico antigo, corresponde, efetivamente, a uma situação peculiar: é neste território que convergem os festos principais dos três grandes rios do Sudoeste peninsular, o que implica uma clara centralidade geográfica, baseada em condições de transitabilidade privilegiadas.

De certo modo, pode afirmar-se que, nesta mesopotâmia definida pelo Tejo, o Sado e o Guadiana, todos os caminhos naturais vão dar a Évora. Numa escala mais detalhada, verifica-se que, nesta área, a maioria dos monumentos que aqui nos interessam se relacionam, direta ou indiretamente, com as bacias do Tejo e do Sado.

Numa outra perspectiva, relacionada com os recursos hídricos, é importante anotar o facto de a área de Évora carecer de cursos de água significativos: com efeito, este território é drenado por uma rede hidrográfica incipiente que só vai ganhando corpo à medida que se afasta dele e se aproxima dos antigos limites dos estuários do Tejo e do Sado. Trata-se, efetivamente, de uma área de nascentes, as cabeceiras dos regatos que alimentam os afluentes dos referidos rios.

Fig. 8.10 - Projecções de troços de festos, eventualmente relacionadas com localizações de menires.

Este divórcio entre monumentos e cursos de água é menos evidente fora da área Évora-Montemor-o-Novo. De facto, nas restantes áreas em que ocorrem recintos megalíticos e que, com base em critérios quantitativos e geográficos, podemos considerar periféricas, as relações com os festos são igualmente a norma, embora se trate sempre de festos secundários, sugerindo adaptações a realidades locais de um modelo cuja génese pode, por hipótese, ter sido eborense.

Note-se, por outro lado, que, em Reguengos de Monzaraz, os menires não manifestam nenhuma proximidade preferencial pelo Guadiana, sendo, ainda assim, o enigmático recinto do Xarez (nº 6) a excepção mais notável. Quanto aos restantes recintos, sobretudo o dos Perdigões, mas também, de forma mais atenuada, os do Monte da Ribeira (nº 9) ou da Capela (nº87) - tal como os menires isolados mais importantes - implantam-se sobre ou perto das linhas de festo que separam o Degebe, o Álamo e o Azevel, e, em todo o caso, em posições muito interiores em relação ao Guadiana.

Em Pavia, os principais monumentos parecem também relacionados com linhas de transitabilidade natural consubstanciadas pelos festos secundários.

Esta preferência pelos festos não deve apenas ser lida numa óptica funcionalista: as implicações simbólicas dessas linhas de fronteira entre bacias hidrográficas, os “meios-mundos” da toponímia popular (Alvim, 2004), pesaram provavelmente mais do que a função hodológica, que certamente também tinham, na escolha dos locais de implantação dos monumentos.


Sem comentários:

Enviar um comentário

Abstract

     Este trabalho corresponde ao Volume 1 de uma Tese de Doutoramento, defendida na FLUL, em 2005 e aprovada por unanimidade. O júri, como ...