2. 1. Âmbito cronológico
Em termos cronológicos, os dados reunidos no volume 2 e, sobretudo, no volume 3, abarcam o período compreendido entre os meados do VI e os finais do III milénios antes da nossa era, que corresponde, de um modo geral, ao aparecimento e amadurecimento das primeiras sociedades camponesas e das primeiras sociedades agro-metalúrgicas, no Sul da Península Ibérica.
Quanto ao limite mais recente, esta opção foi condicionada pela própria definição do conceito de menir, tal como tem vindo a ser tradicionalmente considerado pela investigação pré-histórica, no ocidente peninsular (Gonçalves e Sousa, 2000: 14); na verdade, quase por convenção tácita, os menires têm sido integrados na Cultura Megalítica regional, como um fenómeno mais ou menos paralelo aos monumentos megalíticos funerários e estes, não ultrapassam, por norma, o final do Calcolítico.
É claro que hoje sabemos bem que a utilização de monólitos morfologicamente análogos aos menires pré-históricos, extravasa largamente esse limite, pelo que se torna necessário admitir algumas zonas de sombra, para cujo esclarecimento espero, até certo ponto, contribuir.
Menos consensual, é, naturalmente, o limite mais antigo. Na verdade, depois de uma fase simplificadora e inocente em que, com base em argumentos mal escorados, se aceitava, para os menires em geral, uma cronologia tardo-neolítica, surgiram, há pouco mais de uma década, as primeiras objecções e propostas alternativas. Curiosamente, perdida a fé num modelo que parecia, teoricamente, bastante sólido, o pessimismo instalou-se e os menires revelaram-se um tema muito mais complexo do que parecia e que importava repensar.
O embrião deste trabalho foi, efetivamente, gerado pela ruptura desse esquema cronologico-cultural, que imperou desde meados dos anos setenta; a possibilidade de os menires terem começado a ser erguidos antes dos monumentos megalíticos funerários, implica uma história totalmente diferente na sequência evolutivado megalitismo regional e um retrato muito inovador da personalidade cultural das sociedades do Neolítico antigo/médio (Calado, 1990; 2002d); o tema ganhou, entretanto, consistência e amplitude com a confirmação da sobrevivência (ou reminiscência) dos menires até à Idade do Ferro (Rocha, 1997, 1999, 2000).
A questão fundamental, e aquela sobre a qual me quero debruçar mais detidamente, é, no entanto, a da génese dos menires, a qual, provavelmente, se confunde com a própria génese do Megalitismo, em sentido lato, no Alentejo Central. Interessa-me determinar a época e os atores e confrontar o que sobre eles julgamos saber, com a informação recentemente reunida. O exercício obriga, desde logo, a uma revisão dos modelos com os quais, com base noutros dados e, sobretudo, em dados de outra natureza, se tem procurado explicar a neolitização do ocidente peninsular.
2.2. Âmbito geográfico
Em termos geográficos, os limites parecem relativamente nítidos; mesmo assim, é necessário algum artifício, uma vez que existem sempre zonas periféricas ou de transição. Na verdade, a cartografia dos menires centro alentejanos define, só por si, uma paisagem bastante coesa, mais ou menos coincidente com o território do distrito de Évora, a Oeste do Guadiana; dentro deste espaço geográfico, é ainda possível agrupar os monumentos em cinco áreas megalíticas, relativamente homogéneas do ponto de vista paisagístico e separadas umas das outras por descontinuidades mais ou menos marcadas:
Fig. 2.1 - Mapa de enquadramento da área de estudo na Península Ibérica
Fig. 2.2 - Limites da área de estudo e dos concelhos
Fig. 2.3 - Mapa hipsométrico do enquadramento da área de estudo.
Fig. 2.4 - Modelo digital de terreno do enquadramento da área de estudo.
Fig. 2.5 - Mapa dos principais acidentes orohidrográficos do enquadramento da área de estudo.
Fig. 2.6 - Mapa de distribuição do total dos registos (sítios e monumentos).
Fig. 2.8 - Distribuição dos recintos megalíticos, no Alentejo Central; 1: Fontaínhas; 2: Vale d’El Rei; 3: Cuncos; 4: Sideral; 5: Casas de Baixo; 6: Tojal; 7: Almendres; 8: Portela de Mogos; 9: Vale Maria do Meio; 10: Perdigões; 11: Monte da Ribeira; 12: Xarez.
1. Área de Évora
Corresponde a uma concentração muito significativa de monumentos, num território relativamente pouco extenso, com cerca de 15 Km de diâmetro, a Oeste da cidade de Évora; fora deste núcleo central, que inclui os três maiores recintos megalíticos da Península Ibérica - Almendres (nº 1), Portela de Mogos (nº 4) e Vale Maria do Meio (nº 2) - e alguns menires de grandes dimensões - Monte dos Almendres (nº 32), S. Sebastião (nº 8), Oliveirinha (nº 27), Mauriz (nº 38), Veladas (nº 36), Vale de Rodrigo (nº 46), localizam-se alguns menires avulsos, ainda no concelho de Évora e, um pouco para Norte, nos concelhos de Montemor-o-Novo e Arraiolos. Trata-se, sobretudo, de uma área granítica que corresponde, em termos gerais, a terrenos pouco ondulados, intercalada de relevos de gnaisse, nas cabeceiras superiores das bacias do Tejo, do Sado e do Guadiana.
2. Área de Reguengos de Monsaraz
Corresponde, basicamente, aos terrenos de rochas granitóides do concelho de Reguengos de Monsaraz. Os menires organizam-se, aparentemente, em dois subgrupos: um deles, a Oeste, com dois (ou três) recintos e alguns menires isolados, que parece formar uma mancha mais ou menos contínua, na parte Norte do concelho, enquanto o recinto do Xarez (nº 6) aparece relativamente isolado, a ESE dessa área, junto ao Guadiana. Existem ainda alguns menires isolados, dispersos pelo concelho.
3. Área de Pavia
Os menires e os recintos dispersam-se, nesta área, ao longo de uma faixa, de direcção genericamente EW, que compreende manchas de gnaisses, granitos e terrenos detríticos. É possível, igualmente, subdividir este grupo em duas unidades, atendendo à distância e às diferenças que os separam: a oriente dos limites da área megalítica funerária de Pavia, sobre terrenos terciários, localiza-se, relativamente isolado, o recinto das Fontaínhas (nº 10); o outro núcleo, centrado no recinto de Vale d’El Rei (nº 15), integra ainda o menir da Caeira, alguns monólitos duvidosos e os menires relacionados com a necrópole da Tera (nº 14). O menir da Gonçala (nº 58) surge deslocado em relação a um ou outro núcleo.
4. Área de Cuncos
Compreende um conjunto restrito de monumentos, aparentemente organizados em torno do recinto de Cuncos (nº 7). Trata-se de terrenos de rochas metamórficas, junto aos limites com os tonalitos. Relaciona-se directamente com o festo Tejo-Sado.
5. Área do Tojal
Compreende um par de recintos - Tojal (nº 5) e Casas de Baixo (nº 12) - e um menir isolado - Monte doTojal (nº 57) - inseridos num contexto monumental muito diversificado, com um conjunto de sepulturas megalíticas e submegalíticas. Os monumentos ocupam duas pequenas manchas detríticas, rodeadas de afloramentos de rochas granitóides.
Para além destas cinco áreas, onde podemos, aparentemente, rastrear alguns possíveis indicadores de identidades micro-regionais, existem alguns monólitos dispersos, sempre em articulação com as prováveis fontes de matéria-prima (rochas graníticas ou granitóides) de que se destaca o pequeno conjunto de menires (alguns deles duvidosos) da área do Redondo.
A análise sumária da distribuição dos menires no Alentejo Central permitiria, à partida, definir uma área de estudo mais restrita, excluindo, por exemplo, o concelhos de Estremoz, Borba, Vila Viçosa, Alandroal, Viana do Alentejo e Vendas Novas (Fig. 2.2).
No entanto, o território do actual distrito de Évora, a Oeste do Guadiana (que configura uma área de estudo com cerca de 7100 Km 2), apresenta uma clara unidade geográfica, aferida historicamente pela própria centralidade natural da cidade de Évora; as raízes deste território remontam, pelo menos, até à época romana e decorrem de uma lógica espacial cujos fundamentos parecem adequar-se razoavelmente ao fenómeno menírico regional. Pretendi, por outro lado, confrontar, numa realidade paisagística bem definida, as presenças e ausências de menires. Na verdade, a escassez deste tipo de monumentos na região da serra d’Ossa (Calado, 2001a), onde, por diversas razões, as prospecções têm sido, nos últimos anos, particularmente intensas, constituiu uma das questões fundamentais no arranque deste projecto.
Para a caracterização fisiográfica do Alentejo Central, utilizei principalmente os dados sintetizados nos mapas do Atlas do Ambiente (Comissão Nacional do Ambiente), na escala de 1:1 000 000, e as respectivas Notícias Explicativas, a par de outros trabalhos de carácter geográfico, assentes igualmente em cartografia de pequena escala (Daveau, 1977: 92, 96; 1985:29, 30; Ferreira, 1981: 18, 20); a imagem resultante beneficiou ainda, em alguns aspectos, do conhecimento directo do território, como resultado indireto do trabalho deprospecção.
Trata-se de uma área que, em termos geomorfológicos, se integra, quase na totalidade, no Maciço Antigo e, dentro deste, na zona de Ossa-Morena. É atravessada pela chamada falha da Messejana, ou falha do Alentejo, a grande fratura geológica que percorre no sentido SW-NE, todo o Alentejo, prolongando-se, a partir de Campo Maior, pelo território de Espanha (onde é conhecida como falha “de Plasencia”).
No Alentejo Central, o relevo apresenta-se frequentemente muito movimentado (declives entre os 8% e os 35%) nas manchas de rochas metamórficas do complexo xisto-grauváquico, que predomina na região da serra d’Ossa e na serra de Portel; nestes contextos, os recursos aquíferos subterrâneos são muito limitados(com produtividades inferiores a 50 m3-dia/Km2) e os solos com fraco potencial de uso agrícola (classes D e E).
Nas áreas de granitos/quatzodioritos/granodioritos/tonalitos e outras rochas magmáticas afins, o relevo é normalmente muito mais suave (declives geralmente inferiores a 4%) e, embora o aquífero subterrâneo seja igualmente pouco significativo (produtividades inferiores a 50 m3/dia/Km2), os solos são, por regra, mais aptos para a atividade agrícola (dominam as classes B e C); esta paisagem, que constitui, por assim dizer, o núcleo central do Alentejo Central, é determinante na distribuição do megalitismo regional .
Dentro deste grupo, os granitos propriamente ditos aparecem bem representados, estendendo-se, numa linha quase contínua, de S. Geraldo (Montemor-o-Novo) por Santana do Campo (Arraiolos) até Pavia (Mora).
De um modo geral, dentro das rochas magmáticas, as áreas graníticas aparecem-nos particularmente desfavorecidas em termos de capacidade de uso dos solos (dominam atualmente as classes D e E - uso não agrícola), característica que podemos relacionar com os declives mais acentuados e com uma maior pedregosidade dos terrenos.
As rochas carbonatadas, por sua vez, definem áreas de relevo ocasionalmente vigoroso (nos rebordos do Maciço Calcário de Estremoz, por exemplo, os declives atingem os 35%), com assinaláveis recursos aquíferos subterrâneos (produtividades entre os 250 e os 300 m3-dia/Km2) e com boas manchas de terras agrícolas, potenciadas pela abundância de água e pela presença de solos argilosos que resultam da alteração dos calcários (terra rossa). Note-se, porém, a ocorrência significativa de extensas áreas com solos muito pedregosos, sem qualquer viabilidade para uso agrícola, nomeadamente nas zonas centrais do Maciço Calcário de Estremoz, de substrato dolomítico.
A mancha de terrenos detríticos, correspondente às bordas das bacias terciárias do Tejo e do Sado, abrange boa parte dos concelhos de Montemor-o-Novo e Mora, e quase a totalidade do concelho de Vendas Novas. Trata-se de áreas de relevo geralmente pouco acidentado, com fortes limitações em termos de capacidade de uso dos solos, no caso das formações oligocénicas, e em que a rede hidrográfica, densamente hierarquizada, abriu vales de fundo aplanado, preenchidos com aluviões, geralmente aptos para agricultura de regadio; os interflúvios são atualmente terrenos de montado, em que é notório, com raras excepções, o escasso potencial agrícola (classes D, E e, apenas pontualmente, C).
Apesar da importante produtividade atual dos recursos aquíferos subterrâneos que, no troço inferior das bacias atinge valores superiores a 400 m3 (dia/km2), a elevada profundidade a que se encontra uma boa parte dos lençóis freáticos deve ser tomada em consideração, no contexto das épocas que nos interessam. São ainda de assinalar as manchas detríticas paleogénicas, algumas das quais intimamente relacionadas com a falha da Messejana. Estas áreas, aparecem como oásis de solos agricultáveis (classes B e C), considerando sobretudo o “deserto” de terrenos xistosos em que se inserem.
Fig. 2.9 - Cartografia geológica simplificada do Alentejo Central e localização dos menires.
Em termos hidrográficos, o Alentejo Central partilha as três principais bacias do Sul do País, que convergem num ponto localizado algures entre Évora e Arraiolos.
Cursos de água e festos representam, para os tempos pré-históricos e até recentemente, os principais elementos da rede viária natural da região, que, como veremos, desempenha um papel aparentemente fulcral na distribuição dos principais recintos megalíticos alentejanos.
O Guadiana, cujo leito se encaixa profundamente nos xistos (pontualmente também nos quartzodioritos) é, na verdade, o grande acidente hidrográfico do Alentejo Central, uma vez que o contacto com as outras bacias é feito apenas através dos troços superiores de alguns dos respectivos afluentes.
Climaticamente, verifica-se, nesta região, uma diminuição progressiva da pluviosidade a par de um aumento da insolação (com valores médios anuais que atingem as 3000-3100 horas), da radiação solar (que atinge as 165 kcal/m2) e das amplitudes térmicas, à medida que, a partir do Oeste, nos aproximamos do Guadiana.
Estas elevadas amplitudes térmicas resultam sobretudo da ocorrência de estios “muitíssimo quentes” (mais de 33o C, 137 dias, ou mais, com máximo superior a 25o C) (Daveau, 1985: 47, 52).
Orlando Ribeiro observou que “no vale do Guadiana, que é durante o Estio uma fornalha que nenhum vento refresca, as plantas crestam-se com o ar ardente e seco” (Ribeiro, 1987: 107). De entre as causas que permitem explicar esta conjuntura destaca-se o maciço da serra d’Ossa, que intercepta os ventos húmidos do Noroeste e desencadeia localmente chuvas “orográficas”, sendo, por isso, responsável por uma diminuição da pluviosidade na parte Leste da região; a bacia do Guadiana, por outro lado, é “caminho fácil das influências climáticas continentais”, oriundas dos planaltos da Meseta Sul (Daveau, 1985: 29).
Note-se, em todo o caso que, mesmo mantendo reservas que se impõem sobre a extrapolação dos dados climáticos atuais para épocas para as quais não existem ainda reconstituições paleo-ambientais suficientes, como é o caso do Alentejo Central, a estabilidade dos principais fatores climáticos envolvidos (topografia, continentalidade e direção dos ventos dominantes) permite admitir que, mesmo com valores absolutos distintos, as relações fundamentais se tenham conservado basicamente idênticas.
Em termos ecológicos, as áreas de cotas superiores (Maciços de Elvas, Estremoz, serra d’Ossa e Monfurado), apresentam características fitoclimáticas submediterrâneas, com a presença do zambujeiro (Olea europaea,var. sylvestris), do Pinheiro bravo (Pinus pinaster, var. atlantica), do pinheiro manso (Pinus pinea), do carvalho cerquinho (Quercus faginea) e do sobreiro (Quercus suber).
Nas áreas com cotas mais baixas (com um limite em torno dos 350 m), distingue-se uma zona de tipo ibero-mediterrâneo que coincide com a bacia do Guadiana e uma zona de transição que reúne caraterísticas ibero-mediterrâneas e submediterrâneas e corresponde aos troços superiores das bacias do Tejo e do Sado.
Na bacia do Guadiana, as espécies autofíticas dominantes são o zambujeiro e o sobreiro, enquanto na zona de transição, a par da ausência do carvalho cerquinho e dos pinheiros, encontramos as mesmas espécies que nas anteriores e ainda o zimbro vermelho (Juniperus oxycedrus).
Quanto aos recursos mineiros, de que apenas interessam, no âmbito deste trabalho, as mineralizações cupríferas, o Alentejo Central não parece constituir uma região particularmente rica. Destacam-se, no entanto, algumas ocorrências na serra de Monfurado, na serra de Portel e, em especial, na região da serra d’Ossa (Ferreira e Viana, 1956: 528; Carta Mineira de Portugal, 1960; Allan, 1965; Ferreira, 1970:99; Perdigão, 1971, 1974; Gonçalves, 1974, 1988; Castro, 1985: 82-84; Domergue, 1987:518).
Outra das matérias-primas cuja presença é altamente pertinente, o anfibolito, encontra-se bem representada na região, em afloramentos que permitiam uma exploração superficial que não parece ter deixado rastos.
O sílex e outras rochas siliciosas, utilizadas pelo menos desde o Neolítico antigo, ocorrem, sob a forma de pequenos seixos rolados, nas cascalheiras quaternárias do Guadiana, embora para as indústrias laminares, o sílex fosse certamente proveniente de áreas exteriores ao Alentejo Central; o uso do material do Guadiana parece, em geral, ter sido sobretudo de âmbito local.
Também o quartzito ocorre, na região, exclusivamente nas cascalheiras do Guadiana; a distribuição dos achados avulsos de seixos talhados neste material, demonstram essa proveniência e uma irradiação, com um certo gradiente, de Leste para Oeste (mapa 8).
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