1. Introdução
Os menires alentejanos são, ainda hoje, um tema relativamente omisso, no contexto dos estudos sobre a monumentalidade megalítica europeia. Esta lacuna é perfeitamente compreensível, se nos lembrarmos que a maioria dos monumentos mais interessantes (pelas dimensões, complexidade e estado de conservação) só começou a ser conhecida há cerca de três décadas, enquanto, nas grandes regiões megalíticas da Europa atlântica, os monumentos mais conhecidos o são, pelo menos,desde o século XVIII, ou mesmo antes (Cassen et al. 2000; Burl, 1979; 1993; 1999).
Fig. 1.1 - Gravura dos inícios do sec. XVII, representando um recinto circular
(Rollright Stones, Oxfordshire) (seg. Burl, 1999: 13)
Sintomaticamente, quando publicou as primeiras notícias sobre os menires algarvios, Estácio da Veiga tinha apenas conhecimento de três casos, todos duvidosos, em Portugal (em Vila Velha de Ródão – Fratel,Monte Fidalgo e Ribeira de Alcafala), embora, ao mesmo tempo, revelasse estar bem informado sobre a realidade francesa, onde estariam, já nessa altura “contados mil seiscentos e trinta e oito menires, distribuídos por oito departamentos, sendo o maior d’entre todos o de Locmariaquer, no Morbihan” (Veiga, 1891, I, 88).
Esta décalage deve-se, em parte, ao acaso. Ainda hoje, extensas áreas do nosso território permanecem virgens, em termos de prospecção arqueológica intencional, e não são muitos os menires cuja descoberta tenha sido fortuita.
Por outro lado, estes monumentos sempre foram considerados, pelos estudiosos do megalitismo, mais problemáticos do que os dólmens, quanto ao potencial informativo global e, em parte por isso mesmo, muito mais difíceis de “arrumar” em termos cronológicos e funcionais; de facto, a ausência quase sistemática de mobiliário claramente associado aos menires , assim como a desproporção numérica destes monumentos em relação aos restantes monumentos megalíticos, foram, naturalmente, fatores de desinteresse pelo respectivo estudo arqueológico.
No caso alentejano, outra das razões da descoberta tardia dos menires é o facto de, na sua maioria, se encontrarem tombados, dificultando, por isso, a respectiva identificação e de, por norma, serem constituídos por blocos sem qualquer afeiçoamento aparente, sendo facilmente confundidos com ocorrências naturais, relativamente abundantes nas paisagens graníticas da região.
Um fenómeno que há que ter em conta no estudo destes monumentos e que se relaciona com a aparente invisibilidade dos mesmos, é a pressão exercida pelas novas tecnologias agrícolas a partir de meados do século vinte, traduzida numa destruição silenciosa e descontrolada, problema veementemente denunciado pelos pioneiros do estudo do megalitismo alentejano ( Pina, 1971: 160, 161; Gonçalves, 1975: 242).
Noutras áreas megalíticas europeias, porém, os menires têm recebido tanto do público, como dos investigadores e dos poderes oficiais, uma atenção e um interesse muito mais efetivos. Em Portugal, apesar de um certo pessimismo sobre a possibilidade de descodificação do fenómeno menírico, não deixa de ser revelador do fascínio que estes monumentos exercem, o facto de, nos últimos anos, terem sido publicadas várias obras sobre megalitismo e até sobre pré-história geral, história da arte e antropologia, em cujos conteúdos os menires são um tema muito minoritário, mas, mesmo assim, foram escolhidos para ilustrar as respectivas capas (Gonçalves, 1992; Fitas, 1997; Gonçalves, 1999; Gonçalves, 2000; Cardoso, 2002; Pereira, 2004).
Em contrapartida, curiosamente, no artigo em que, como veremos, foi dado a conhecer o primeiro menir a Sul do Tejo, no último quartel do século XIX (Pereira, 1880: 253), apesar de uma parte importante versar sobre o menir e de o autor ter consciência da raridade da descoberta, o texto aparece ilustrado apenas com gravuras de antas (Fig. 4.1).
Infelizmente, muita da atracção que o megalitismo exerce sobre o grande público radica numa literatura fantasiosa que, em contraponto dos esforços e avanços da arqueologia, obscurece os menires e os dólmens entre cerimónias druídicas, visitas de extraterrestres e teorias afins.
Compete-nos, enquanto pré-historiadores, não perder de vista o que sabemos (e o que julgamos saber) sobre os contextos ideológicos, sociais, económicos ou ambientais em que os menires foram “inventados” e usados, e sem os quais muitos disparates podem, aparentemente, fazer sentido.
Como já tive oportunidade de defender noutros lugares, estou convencido de que os dados disponíveis permitem encarar os menires como a primeira manifestação do fenómeno megalítico, no Alentejo Central (Calado, 1999; 2002), e de que é no próprio processo de neolitização das últimas comunidades de caçadores-recoletores do Tejo-Sado que essa inovação ganha sentido.
Esta perspectiva, reforçada por indícios de diversas ordens, surgidos sobretudo na última década, implica uma certa ruptura com a tradição da investigação portuguesa, em que o Mesolítico, o Neolítico
Fig. 1.2 - Capas de algumas publicações recentes, refletindo o interesse pelo tema dos menires.
Antigo e Megalitismo se constituíram como compartimentos relativamente estanques e em que, sobretudo, o primeiro e o último dos elementos deste trinómio seriam totalmente independentes; estes universos paralelos não são, evidentemente, exclusivos da realidade arqueológica portuguesa (Thomas, 1991b).
Sendo claro que a neolitização do Alentejo Central deve ser, quase por definição, integrada na corrente que, de Oriente para Ocidente, atingiu todo o Mediterrâneo e as costas ocidentais da Península Ibérica, a perspectiva em que, à partida, me coloco, exige uma focagem adicional que, de alguma forma, integre, na mesma trama de relações, alguns pontos-chave da fachada atlântica europeia.
Efetivamente, se, quer o estudo das últimas sociedades de caçadores-recoletores e, em particular, as que enterraram os seus mortos nos concheiros, quer o estudo do megalitismo têm sido, tradicionalmente, relacionados com o espaço geográfico da Europa atlântica (Roche, 1960; Jorge, 1982; Arnaud, 1987; 1993; Gonçalves, 1996), a verdade é que, no mapa da neolitização do nosso território, os olhares se voltam exclusivamente para o mundo mediterrânico.
O estudo dos menires do Alentejo Central exige uma superação destes esquemas unidirecionais e a integração, num mesmo modelo interpretativo, de realidades que só artificialmente se poderão tratar em separado. É de regra, entre nós, que os estudos sobre Mesolítico e Neolítico antigo se concentrem em questões do foro económico e tecnológico; temas como o sagrado, a monumentalidade ou o simbólico seriam, pelos vistos, um exclusivo das sociedades que, a partir do Neolítico médio, construíram antas, fizeram placas de xisto ou até, no limite, sistemas de muralhas simbólicas. Pelo meio, ou ao lado, os estudos de arte rupestre que, em princípio, poderiam funcionar como elo de ligação, constituem, entre nós, um universo aparentemente autista e divorciado de tudo o resto.
As cronologias relativamente baixas em que ocorreram, na Grã-Bretanha, na Irlanda ou na Escandinávia, os primeiros avanços neolitizadores, pareciam, só por si, explicar a coincidência entre a construção dos primeiros monumentos (nomeadamente megalíticos) e o Neolítico antigo, nessas áreas; pelo contrário, quer no eixo reno-danubiano, quer no mediterrânico, a construção de monumentos sempre pareceu desfasada em relação à adopção do modo de vida camponês. O megalitismo, concebido, por norma, apenas na vertente funerária, seria, na melhor das hipóteses, o resultado tardio de um processo lento, de consolidação da economia de produção e nunca um dos ingredientes básicos associados à transição mesolítico-neolítico.
O Sul de Portugal e a Bretanha parecem, no entanto, constituir exemplos precoces, no mundo europeu, da emergência, mais ou menos simultânea, do Neolítico e da monumentalidade, representada pela ereção dos menires mais antigos (Calado, 2002; Cassen, 2000; David Calado et al., 2004).
É claro que poderíamos sempre procurar um imponderável germe oriental nos dados que têm surgido, nos últimos anos, relativos às grandes estelas decoradas, em contexto económico de caça e recolecção, de que se destaca o sítio anatólico de Göbekli Tepe (Cauvin, 2000; Verhoeven, 2002); porém, as dificuldades óbvias impostas pela distância (cronológica e espacial) e a ausência de pontos intermédios, inviabilizam ou, pelo menos, relativizam, a valorização destes antecedentes.
A informação atualmente disponível sobre os menires e que constitui o cerne deste trabalho, sendo parcelar e permitindo, em muitos casos, múltiplas leituras, obriga, mesmo assim, a uma revisão conceptual que extravasa, largamente, o próprio tema. Procurei, por um lado, apresentar e criticar a base de dados reunida, mas explorar, com a contenção indispensável, as respectivas consequências.
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