Capítulo 7: Os contextos arqueológicos


7.1. Menires e conjuntos de menires

Em termos operativos, existe alguma ambiguidade no conceito de menir: se, por um lado, um menir isolado é, só por si, um monumento completo, por outro, num alinhamento ou num recinto, o menir pode ser lido como apenas um elemento do conjunto, análogo, de certa forma, ao esteio de uma anta.

Foi, aliás, com base nestes considerandos que, no volume 2, separei os menires em dois grandes grupos: monumentos compósitos (recintos e conjuntos), por um lado, e menires isolados, por outro.

Tendo escolhido como unidade de análise o menir, importa agora avaliar as diferentes formas de associação dos menires entre si e em relação a outros elementos da “paisagem megalítica”.

Monumentos compósitos e menires isolados foram, por sua vez, hierarquizadas em função do peso total estimado, tendo em conta que, com algumas correções, esse valor deve ser diretamente proporcional ao esforço investido e à própria monumentalidade dos sítios.

No Alentejo Central, em que uma parte importante dos monumentos compósitos se encontra seriamente afetada, conhecem-se atualmente exemplares de algumas das principais modalidades presentes nas restantes regiões megalíticas da Europa atlântica, enquanto outras parecem estar definitivamente ausentes.

Em boa verdade, apenas podemos garantir, de forma inequívoca, a existência de recintos e menires isolados e, com menos segurança, de pares de menires. Quanto aos alinhamentos, conhece-se apenas o caso da Tera que, em última análise, tem muito pouco a ver com a maior parte dos alinhamentos curtos ou longos, simples ou complexos, relativamente abundantes noutras áreas europeias.

7.1.1. Os recintos

Os recintos megalíticos, tradicionalmente também conhecidos por cromeleques, são, certamente, a modalidade mais monumental e aquela que, na região, parece ter desempenhado um papel central na articulação dos restantes menires e conjuntos de menires.

Como se viu (capítulo 5.2.), as plantas da maioria destes recintos, nos casos em que os respectivos estados de conservação o permitem avaliar, apresentam formas de hemiciclo ou ferradura, abertas genericamente a Nascente. 

Fig. 7.1 - Plantas de recintos megalíticos do Alentejo Central

Fig. 7.2 - Proposta de faseamento da planta do recinto de Vale Maria do Meio. A linha recta, do lado Sul, (azul), seria um acrescento à ferradura (castanho).

Esta morfologia, que não é exclusiva do megalitismo alentejano (capítulo 11.2.2), apresenta aqui uma complexidade completamente original: para além dos menires que, com alguma irregularidade, definem os circuitos dos recintos, temos evidências incontestáveis da existência de menires no interior e, provavelmente no exterior, dessa linha mais ou menos imaginária. Esta aparente desordem na implantação dos monólitos, traduzida naquilo que parece, à primeira vista, uma falta de rigor geométrico é particularmente visível no recinto dos Almendres(nº 1). De facto, os menires não descrevem uma linha contínua e bem definida, como é de norma na generalidade dos recintos megalíticos europeus, quer estes tenham plantas fechadas (a maioria), quer tenham plantas abertas.

Este aspecto levou Mário Varela Gomes a propor, para o caso concreto dos Almendres que é, claramente, o mais complexo de todos, a existência de duas ou três linhas paralelas de menires (Gomes, 2002), descrevendo figuras geométricas regulares (círculo e elipse) solução que, a meu ver, é demasiado forçada; isto porque, por um lado, deixa de fora um número demasiado elevado de menires cuja localização não pode ser posta em dúvida e, por outro, pressupõe outros tantos de que não foram encontrados quaisquer vestígios.

Na verdade, creio que é mais razoável, com base na informação disponível, aceitar que os construtores dos recintos não tiveram a preocupação de obter uma figura geométrica pura; os menires teriam, pelo contrário, sido dispostos ao longo de uma linha mais ou menos pré-definida, em forma de ferradura, mas em que a colocação de cada menir, em concreto, admitiria alguma flexibilidade; é possível que essa operação não fosse aleatória, embora, no estado atual dos nossos conhecimentos não me pareça possível definir os critérios a que terá eventualmente obedecido. Convém recordar que, embora os vários monumentos pareçam seguir um plano básico comum, a verdade é que existem diferenças claras, entre todos eles, no que diz respeito quer às dimensões dos recintos, quer às dimensões, formas, decorações e posições relativas dos monólitos.

As diferenças observadas entre os vários recintos devem-se, muito provavelmente, também a remodelações e acrescentos, numa dinâmica em que cada sítio parece ter uma história própria, a partir de um protótipo comum, concretizado, em cada caso, de uma forma “personalizada”. Os dois recintos alentejanos em que, para já, parece existir mais do que uma fase construtiva, tendo implicado alterações substantivas na fisionomia do espaço ritual, são o dos Almendres (nº 1) e o de Vale Maria do Meio (nº 2); pelo contrário, o do Vale d’El-Rei (nº 15), é, pelos mesmos critérios, certamente monofásico, em termos construtivos. Quanto aos restantes, ou não dispomos de informações mínimas para avaliar as respectivas plantas originais, como acontece com todos aqueles que classifiquei como indeterminados, ou possuíam, muito provavelmente, plantas complexas (com menires no interior e, eventualmente, no exterior do circuito), e, na minha opinião, provavelmente em forma de ferradura.

Fig. 7.3 - Sobreposição das plantas do Tojal (vermelho) e dos Almendres (preto)

A generalização da planta em ferradura, como modelo para a interpretação dos recintos alentejanos, comporta alguns riscos que só o desenvolvimento da investigação pode esclarecer; de momento, a comparação das plantas publicadas, nos casos melhor conservados, permitem indiscutivelmente essa leitura.

Na verdade, apesar de o Vale d’El Rei ter sido, efectivamente, o primeiro dos recintos megalíticos publicados na região (Leisner e Leisner, 1956), e de apresentar uma inequívoca planta em ferradura, este aspecto foi sempre ignorado ou considerado excepcional, quando se tratou de interpretar as plantas dos restantes recintos.

Para além deste esquecimento, é também um facto que, por diversas razões (dimensões, estado de conservação, história da investigação), a planta do recinto dos Almendres, aparentemente fechada, acabou também por ofuscar a leitura dos restantes recintos alentejanos. No entanto, se se admitir, como desde sempre se admitiu, embora com perspectivas diferentes (Pina, 1971; Gomes, 2002), que o atual recinto dos Almendres é o resultado cumulativo de mais do que uma fase construtiva, torna-se possível discernir, na parte superior do recinto, a planta em ferradura, coincidente, em termos de forma, proporções e de disposição cénica, com a da maioria dos outros recintos alentejanos; veja-se, por exemplo, se ajustarmos as escalas, a coincidência quase perfeita com a planta do recinto do Tojal (até na posição dos respectivos “menires centrais”) (Fig. 7.3).

Esta imagem permite-nos, aliás, recuperar a proposta original avançada por H.L.Pina (Pina, 1972) de que a parte inferior (oriental) do recinto dos Almendres constituía uma espécie de antecâmara de acesso, acrescentada ao recinto principal. Na verdade, talvez se possa considerar essa parte como uma segunda planta em ferradura irregular, integrando, no seu lado ocidental, os menires de maiores dimensões que, nas leitura tradicionais, permitiriam “fechar” a ferradura do recinto ocidental e interpretá-lo como uma elipse (menires 22,26,44,45).

Sendo bastante provável que as plantas da maior parte dos recintos alentejanos sejam variações de um mesmo projeto arquitetónico baseado no arco de ferradura, com mais ou menos complexificações,  uma das questões fundamentais que se nos colocam é, naturalmente, a da origem deste modelo que, como veremos (Capítulo 6), é relativamente comum na Bretanha (Scarre, 1998b) e apresenta ainda algumas sequelas nas Ilhas Britânicas (Burl, 1999).

As semelhanças entre alguns recintos em ferradura bretões e alentejanos são bastante sugestivas, implicando, na minha perspectiva, contatos entre as duas áreas que, nos capítulos seguintes serão mais amplamente comentados.

Em contrapartida, uma das principais diferenças entre as duas áreas reside, como acima referi, no facto de os grandes monumentos alentejanos apresentarem plantas mais complexas, enquanto, na Bretanha, se trata de circuitos simples, sem menires fora ou dentro de uma linha contínua, em forma de ferradura ou de arco de círculo e que, neste aspecto, se aproximam mais da aparência do recinto de Vale d’El-Rei (nº 15).

Apesar das reservas a que uma tal comparação nos deve obrigar, creio que os paralelos formais mais próximos (no espaço e, eventualmente, no tempo), para as plantas em ferradura dos recintos alentejanos, seencontram nos concheiros do Tejo e do Sado.

Fig. 7.4 - Planta composta das estruturas e enterramentos da Moita do Sebastião (Seg. Arnaud, adaptado)

A escavação do concheiro mesolítico da Moita do Sebastião, no estuário do Tejo (Roche, 1960: 92), revelou os restos de uma estrutura formada por cerca de 70 buracos de poste, com uma planta em arco de círculo, aberta a Sul, a qual foi considerada uma das “mais bem conservadas estruturas habitacionais do Mesolítico até agora conhecidas a nível europeu” (Arnaud, 1987: 53). Apesar de o escavador a ter interpretado como os restos de uma cabana (Roche, 1960: 99), a verdade é que existem vários aspetos que permitem pensar em funções e, eventualmente, morfologia alternativas. As dimensões da estrutura não parecem facilmente compatíveis com a existência de uma cobertura, o que levou J. Arnaud a reinterpretá-la como um “quebra-vento” que serviria apenas de em relação aos ventos dominantes (Arnaud, 1987: 53). Resta ainda a questão da acumulação de buracos de poste, que se verifica principalmente no lado ocidental da estrutura e que chega a dar à “parede”, deste lado, uma “espessura” de cerca de 2 m, sendo pouco plausível a proposta de Jean Roche de que se trataria doresultado de restauros e substituições de postes da suposta cabana (Roche, 1960: 99); além disso, parece incontornável uma certa contemporaneidadee articulação entre os buracos de poste (e, obviamente, dos postes que estes contiveram) e os enterramentos, os quais, de uma forma igualmente irregular, parecem prolongar os “braços” da estrutura.

Nada obsta, à partida, a que se considere a estrutura como um espaço de carácter ritual, relacionado, de alguma forma, com as próprias sepulturas: o conjunto poderia, logo à partida, ou por acrescentos sucessivos, ter desenhado um padrão em ferradura, mas com postes lado a lado, de forma aparentemente anárquica, criando uma cenografia semelhante àquela que se pode observar na parte ocidental do recinto dos Almendres.

A utilização simbólica da forma em ferradura nos rituais funerários está, aliás, bem patente no Vale do Sado. 

Fig. 7.5 - Planta dos enterramentos de Vale das Romeiras (Seg. Arnaud, adaptado)


Fig. 7.6 - Planta dos enterramentos do concheiro de Skateholm II (Seg. Larsson, 1990)

Com efeito, o concheiro de Vale de Romeiras, nas proximidades do Cabeço do Pez, foi, ao que parece, integralmente escavado e, numa área muito contida de cerca de 30 m 2 , foram descobertos os restos mortais de 25 indivíduos, dispostos em arco de círculo, desta vez aberto a SE, e intercalados com blocos de concreções calcárias (Arnaud, 1999).

A estabelecer um nexo cronológico entre os dois sítios, estão as datações radiocarbónicas que, tanto na Moita do Sebastião como no Vale de Romeiras apontam para momentos que são, em ambos os casos, dos mais antigos no Mesolítico final dos respectivos estuários, caindo ambas dentro da primeira metade do VI milénio a.C.

A disposição das sepulturas em arco de ferradura parece observar-se igualmente no concheiro mesolítico escandinavo de Skateholm II, com uma abertura muito canónica, a SE, uma notável concentração no lado ocidental e uma implantação numa encosta exposta a Sul (Larsson, 1990); note-se que, nesta necrópole, pelo menos um dos enterramentos, a Sepultura 20, era assinalada por um grande poste de madeira.

De uma forma menos explícita, os enterramentos do concheiro de Bogebakken, na Dinamarca (Tiley, 1996: 38,39), concentram-se numa encosta exposta a Sudeste e poderiam teoricamente apresentar uma disposição semelhante. Note-se que, neste caso, se definiu uma área de habitat a jusante da necrópole. Estamos, em todo o caso, perante realidades mais tardias, embora manifestamente conservadoras; as eventuais convergências com o Tejo/Sado implicariam a continuidade de práticas rituais a partir de um fundo comum de que os enterramentos em concheiros, só por si, já seriam um bom testemunho.

Em Téviec, cuja planta parece pouco organizada, os escavadores anotaram que “na origem, o habitat-necrópole de Téviec apresentava-se com o aspecto de uma série de ‘cairns’ sobrelevados marcando a localização das sepulturas” (Péquart et al., 1937: 25), o que sugere que estas necrópoles, por muito que estivessem imbricadas no espaço habitacional, terão funcionado como verdadeiros monumentos, visíveis na paisagem.

É um facto que os estudos sobre o Mesolítico, foram muito marcados, nas últimas décadas, pela agenda da Nova Arqueologia. Depois de uma fase primordial, em que os enterramentos atraíram toda a atenção, no âmbito da antropologia física, mas igualmente do ritual funerário, os aspectos rituais foram relegados para segundo plano, ou mesmo totalmente ignorados, a favor de perspectivas mais ou menos funcionalistas, circunscritas aos domínios tecnológicos, económicos, demográficos ou ecológicos.

É também certo que os concheiros do Tejo e do Sado constituem um manancial de informação preciosa, sobre diversos aspectos da vida quotidiana das populações que os produziram; no entanto, subsistem muitas dúvidas sobre a forma como foram “construídos” e utilizados, tanto mais que os vestígios inequívocos de habitat praticamente não existem, enquanto a utilização dos amontoados de restos de cozinha (e não só), nos espaços funerários, está sobejamente atestada.

É possível que os povoados propriamente ditos fossem constituídos, não exatamente por cabanas, mas por tendas - o que tornaria mais compreensível a invisibilidade arqueológica das verdadeiras estruturas de habitat – e, por outro lado, que as acumulações de detritos domésticos, eventualmente organizadas de forma intencional e culturalmente determinada, se localizassem junto dos povoados (Tilley, 1996), mas não necessariamente sobrepostas ou infrapostas, como implicitamente se tende a admitir. 

A estruturação dos enterramentos em arco de círculo, no caso de Vale de Romeiras, ou articulados com um arco de círculo definido por postes de madeira, como na Moita do Sebastião, podem servir de pistas ou de pretextos para uma discussão sobre o significado funcional dos recintos megalíticos, o que procurarei aprofundar, dentro do possível, no capítulo 12.

Por enquanto, são raros os concheiros extensivamente escavados, pelo que, com o avançar da investigação, é de esperar a descoberta de outros paralelos e, eventualmente, outras modalidades de organização formal do espaço funerário mesolítico; note-se, aliás, que na escavação do concheiro das Poças de S. Bento, no vale do Sado, foram detectadas “algumas estruturas, que podem ser interpretadas como buracos de poste” embora “as áreas até agora escavadas” não sejam “suficientemente amplas para permitirem detectar qualquer padrão bem definido” (Arnaud, 1999: 29).

A eventual relação, de carácter genético ou não, entre os menires e os postes de madeira, é praticamente um topos na literatura arqueológica e etnográfica (Giot et al., 1998: 512; Burl, 1999: 85-97; Cassen et al., 2000: 196; 198; 345; Bradley, 2002: 97). Na verdade, existem casos bem definidos (e outros nem tanto), em que estruturas rituais construídas com postes de madeira parecem preceder ou acompanhar o aparecimento de verdadeiros menires, como são, por exemplo, os de Stonehenge ou dos alinhamentos de Saint-Just. No primeiro caso, as escavações levadas a cabo, junto ao monumento, no local onde tem funcionado, nos últimos anos, o parque de estacionamento para os visitantes, permitiram descobrir estruturas compostas por buracos de poste, de cronologia mesolítica, cuja relação com o monumento posterior é discutível, mas sugestiva (Cleal et al., 1995). No caso de Saint-Just, no contexto de uma sequência muito complexa revelada por escavações em área, verificou-se que os menires eram apenas a parte visível de um conjunto de realidades em que, segundo o escavador, se incluiriam postes de madeira (Le Roux, 1999: 215).




Fig. 7.7 - Proposta de faseamento do monumento funerário de Lannec er Gadouer (fases 4 -7) (seg. Cassen et al., 2000: 345).

Um caso particularmente interessante é o do monumento de Lannec er Gadouer, em Erdeven, Bretanha, em que, na sequência de uma ocupação mesolítica do sítio, terá sido construído um semi-círculo de postes de madeira que viria, noutra fase, a ser substituído por uma estrutura funerária com esteios de pedra, sendo todo o conjunto coberto por um tumulus de planta trapezoidal (Cassen et al, 2000: 344-346).

Em Itália, no complexo de Aosta, um alinhamento de postes precedeu e, aparentemente, condicionou a orientação e a própria localização dos alinhamentos de menires (Mezzena, 1998).

As gravuras em baixo-relevo que ocorrem quase exclusivamente nos menires e, sobretudo, nos da Bretanha, do Alentejo e do Algarve, poderiam ser réplicas em pedra, de técnicas eventualmente  desenvolvidas, numa primeira fase, no trabalho da madeira. Recordemos que, nos estuários do Tejo e do Sado, não existia matéria-prima para a construção de monumentos megalíticos, pelo que, não seria de estranhar o uso da madeira, como o substituto mais viável.

Por outro lado, a ideia de uma filiação mesolítica para o megalitismo atlântico também não é, ela própria, nada original; na verdade, vários autores têm sugerido uma génese das sepulturas megalíticas bretãs (aquelas que, por enquanto, detêm, à escala europeia, o recorde de antiguidade) em algumas das sepulturas mesolíticas, com estrutura pétrea, de Téviec (Sherratt, 1990; Scarre, 1992; Thorpe, 1996).

Também as mamoas que, melhor ou pior conservadas, constituem uma constante na maior parte dos monumentos funerários neolíticos (megalíticos ou não), têm sido relacionadas com os amontoados de restos de cozinha e terra que cobriam as necrópoles mesolíticas (Sherratt, 1995: 247).

Note-se também que a utilização de terra transportada a partir dos povoados para os locais de enterramento, apesar de surpreendente, parece ser uma prática que se conservou, entre nós, até à Idade do Bronze (Silva e Soares, 1981: 159).

Finalmente, tem ganho terreno, nos últimos anos, a ideia de que algumas sociedades do final do Mesolítico, com estruturas sociais complexas, como seriam, por definição, as dos concheiros do Tejo e do Sado, teriam, no contexto de um forte incremento da territorialidade e da sedentarização, e baseadas numa economia bem sucedida, de largo espectro, iniciado comportamentos, na esfera do simbólico, que podem ter incluído, eventualmente, a construção de monumentos (Bradley, 1993).

A mesma argumentação, baseada na assunção de que a complexidade social não é, necessariamente, um derivado da economia neolítica, foi recentemente, aplicada a datas mais antigas, epipaleolíticas, ou, no mínimo, do Mesolítico inicial, para explicar o aparecimento dos menires, ainda no VII milénio a.C. (Calado et al., 2004).

A propósito das plantas dos recintos alentejanos, escrevi recentemente que “a forma de ferradura, ou de semicírculo, corresponde a uma disposição básica do habitat humano, aplicada em tendas e abrigos desde o paleolítico e até mesmo na maneira com um grupo humano se dispõe à volta de uma fogueira (Binford, 1991)” (Calado, 2004). Trata-se, além disso, de uma geometria apropriada à cenografia de alguns actos sociais e políticos, como demonstram os nossos hemiciclos parlamentares...

Na verdade, no contexto do megalitismo funerário, as sepulturas abertas, em forma de ferradura, de que as antas de corredor parecem ser um desenvolvimento conceptual e arquitetónico, poderiam, de certa forma, ter recuperado preceitos mais antigos.

Fora da região e de uma forma transversal, poderíamos trazer também à colação os recintos semicirculares dos povoados com fossos das Tavoliere, com finalidades basicamente habitacionais, os “C-compounds”, ou estruturas rituais como os “Heel Shaped Cairns” escoceses, ou mesmo os monumentos, à primeira vista análogos, conhecidos no Norte de África (Milburn, 1976).

Note-se que, à excepção dos "C-compounds” italianos, os outros apresentam, com marcada regularidade, orientações a Nascente/Sul, situação que voltamos a encontrar em contextos etnográficos insuspeitos de contatos com as realidades aqui em estudo, como é o caso dos altares em forma de ferradura dos Kere, no Novo México (Fig. 7.8) (Snead e Preucel, 1999: 183), ou das arquiteturas elementares dos Bamangwato e dos Basarwa, no Botswana (Fig. 7.9); estas últimas foram, aliás, já comparadas às estruturas da Moita do Sebastião (Fewster, 1999:194).



7.8 - Recinto ritual, em forma de ferradura orientada a ESE, dos índios Keres (Novo México)

(seg. Snead e Preucel, 1999: 183, adaptado).

Fig. 7.9 - Recinto em forma de ferradura, dos Bamangwato, no Botswana (seg. Fewster, 1999: 183).



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Fig. 7.10 - Propostas de reconstituição de recintos do Alentejo Central. 1: Almendres; 2: Portela de Mogos; 3: Vale Maria do Meio; 4: Cuncos; 5: Vale d’El Rei; 6: Fontaínhas (seg. Gomes, 2002: fig. 163).


A planta em ferradura dos recintos alentejanos carece, na maior parte dos casos, de confirmações indiscutíveis, tanto mais que, como se viu, alguns monumentos sofreram acrescentos e/ou alterações estruturais.

No entanto, as reconstituições dos recintos como monumentos fechados, de plantas circulares, ovais ou elípticas, são, na minha opinião, um tanto forçadas e, provavelmente, influenciadas pelo facto de “as formas mais comuns das plantas dos cromeleques europeus” serem “o círculo e a elipse” (Gomes, 2002: 168); o próprio recinto do Vale d’El Rei (nº 15) foi interpretado como tendo “planta em forma de elipse assimétrica,” apesar de se admitir a possibilidade alternativa de ter tido “ inicialmente planta em forma de ferradura" (Gomes, 2002: 170).

Para além das plantas em forma de ferradura, abertas a Nascente, os recintos alentejanos, apresentam, quase todos, outras características comuns, em termos das respectivas estruturas internas, nomeadamente:

1. a maior monumentalidade nas cotas mais altas (no lado ocidental). Esta particularidade, que, como veremos, tem uma certa analogia com a disposição dos menires nos alinhamentos de Carnac e em Stonehenge, não se verifica, no entanto, no recinto paviense de Vale d’El Rei;

2. a existência de um menir “central”, de maiores dimensões, anicónico, geralmente acompanhado por outros monólitos, no interior do recinto, aspecto em que também o monumento do Vale d’El Rei é, manifestamente, uma excepção. O menir central ocorre sempre no lado ocidental do recinto, quase sempre com um ligeiro desvio para Norte. Uma nota final para o recinto do Xarez (nº 6), cuja forma quadrangular não pode, tanto quanto sabemos, ser aceite sem profundas reservas. Os argumentos aduzidos por Mário Varela Gomes em defesa da reconstituição produzida por Pires Gonçalves, são claramente insuficientes (Gomes, 2000b). Na verdade, o único alvéolo sobre cuja identificação parece não restarem dúvidas é o do menir central; todo o resto foi baseado em observações certamente cuidadosas, mas insuficientemente escoradas em dados objetivos.

É verdade que a forma quadrangular tem alguns raros paralelos noutros contextos megalíticos europeus e que, por isso, não é legítimo afastar rotundamente essa possibilidade; note-se, porém, que um dos paralelos invocados, o do recinto de Crucuno, teria, segundo parece (Le Roux, 1999: 217), sofrido um restauro abusivo, e, em vez de um retângulo regular, teria provavelmente, uma forma trapezoidal irregular.

Fig. 7.11 - Planta de Crucuno, anterior ao restauro (seg. Le Roux, 1999: 217)

Quanto ao Xarez, apenas com base nos factos conhecidos, seria sempre arriscado tomar como genuína uma tal reconstituição, tanto mais que os dois lados paralelos e equidistantes, em relação ao menir central, em que Pires Gonçalves se terá baseado (Gomes, 2000b: 26, 28) poderiam ser os restos dos braços de uma planta em ferradura.

É curioso o facto de o conjunto de pequenos menires (Xarez 2, nº 25), referenciados por Pires Gonçalves, a escassas centenas de metros do recinto do Xarez, terem gravados como temas únicos, embora com ligeiras variantes, o círculo e a ferradura. A forma dos menires não é concordante com o padrão dos menires pré-históricos do Alentejo Central ou, para fazer uma comparação mais próxima, dos do recinto do Xarez (nº 6). Morfologicamente, poderiam, com mais verossimilhança, aproximar-se das fórmulas utilizadas na necrópole da Tera e remeterem para um fenómeno tardio, eventualmente sidérico; não faltam, na área envolvente, os sítios do Bronze Final e da I Idade do Ferro, nem sequer temos razão para duvidar do interesse que, nessa época, terão suscitado os monumentos megalíticos, como se pode comprovar, a poucos quilómetros, com o caso da Belhoa (Gomes, 1997a), uma necrópole sidérica, de incineração, descoberta junto de uma anta e de um magnífico menir decorado.

Os círculo e as ferraduras do Xarez 2 (nº 25), gravados em sulcos profundos, tampouco se aproximam graficamente das outras gravuras conhecidas, em menires, apesar de se tratar de temas (sobretudo o círculo) bastante recorrentes.

7.1.2. Relações espaciais entre recintos

A escolha dos locais de implantação de alguns recintos megalíticos parece ter sido feita em função de outros monumentos pré-existentes; embora seja conveniente, nesta matéria, manter, pelo menos por enquanto, uma atitude prudente, tudo leva a crer que a distribuição dos menires (e das antas) não constitui um palimpsesto, em que os novos textos ignoram tudo sobre os anteriores, fazendo deles tábua rasa. Atendendo ao facto de alguns recintos e menires se terem mantido eretos até praticamente aos nossos dias - Courela das Casas Novas (nº 48), Vale d’El-Rei (nº 15), Vale de Besteiros (nº 39) ou mesmo S. Sebastião (nº 8) - e que, pelo menos alguns outros, parecem ter sido utilizados até à Idade do Ferro, a acumulação de novos monumentos megalíticos terá funcionado no contexto de uma monumentalização consciente das paisagens, de acordo com os diferentes tempos e modos de ocupação dos territórios.

O conceito de par de recintos, proposto por Pedro Alvim para a área de Évora/Montemor-o-Novo (Alvim, 2004) exigiria, se aplicado ao resto do Alentejo Central, alguma flexibilidade; em todo o caso, é evidente que casos como Portela de Mogos/Vale Maria do Meio, Cuncos/Sideral, ou Tojal/Casas de Baixo, deixam supor uma relação de qualquer tipo que não pode, em princípio, ser acidental.

É verdade que as “geminações” de recintos podem ter assumido formas muito diversas, tanto mais que, como já vimos, não existem dois monumentos iguais.

No caso específico da Portela de Mogos (nº 4) e do Vale Maria do Meio (nº 2), localizados a pouco mais de 1 Km um do outro, é de sublinhar o facto de o prolongamento para Este, da linha formada pelos dois recintos, passar pelo menir da Casbarra 1 (nº 31) e pelo menir do Mauriz (nº 38), dois dos maiores menires isolados desta área, e de essa linha poder ter, eventualmente, um significado astronómico, (Calado e Rocha, 1996; Silva e Calado, 2004), possibilidade a que voltarei a fazer referência, no capítulo 8.

No mesmo círculo geográfico, o recinto dos Almendres (nº 1) assume, também nesta matéria, foros de excepcionalidade, uma vez que não se conhece, nas suas proximidades imediatas, nenhum outro recinto megalítico.

Já em Pavia, onde existem dois recintos megalíticos, Fontaínhas (nº 11) e Vale d’El Rei (nº 15), as distâncias entre eles são muito superiores àquelas que separam os restantes pares de recintos, embora, não sendo intervisíveis, pareçam demarcar um território bastante coerente.

Por outro lado, em Reguengos de Monsaraz existem relações muito sugestivas, em termos de proximidade, contacto visual e, eventualmente, relação com a paisagem, nos recintos muito mal conhecidos dos Perdigões (nº 13), Monte da Ribeira (nº 9) e Capela (nº 87), enquanto o monumento do Xarez (nº 6) aparece desgarrado dentro do área megalítica de Reguengos. Na verdade, se dermos crédito à possibilidade de alinhamentos, de base arqueoastronómica, entre monumentos não intervisíveis (Giot, 1988: 322), o Xarez poderia, conforme já tive ocasião de anotar (Calado e Rocha, 1996), constituir, com os Almendres, um par de recintos muito sui generis.

7.1.3. Recintos e menires isolados

Para além destas relações, aparentemente não aleatórias entre alguns recintos megalíticos, existem também algumas situações em que os menires isolados parecem associados espacialmente a recintos megalíticos.

Um exemplo, já clássico, em que um grande menir isolado pode ser (e tem sido) relacionado com um recinto megalítico, é precisamente o do menir do Monte dos Almendres (nº 32), que estabelece um alinhamento solsticial com o recinto dos Almendres (nº 1) (da Silva, 2000: 115; Alvim, 1996-1977: 16).

No caso do Tojal (nº 5)/Casas de Baixo (nº 12), a articulação entre os dois recintos, seja ela de que natureza for, é fortemente sublinhada pela interposição, exatamente na mesma linha, do menir do Monte do Tojal (nº 57) (Calado, 2003b). A orientação do conjunto não se enquadra nos azimutes astronómicos reconhecidos; no entanto, o alinhamento observado ajusta-se, de uma forma bastante clara à orientação do relevo, aspecto que, como veremos, se aplica também aos monumentos da Herdade da Tera, em Pavia - Monte da Tera (nº 74), Tera (nº 14) e Vale d’El Rei (nº 15).

Em Montemor-o-Novo, o conjunto formado pelo recinto de Cuncos (nº 7), pelo menir das Casas Novas (nº 48) e pelo menir do Sideral (nº 42) foi igualmente considerado significativo e foi-lhe mesmo atribuída uma implicação arqueoastronómica (Gomes, 1986); descartada, como se viu, essa interpretação, permanece o facto de que estes três monumentos, a que há que somar o menir da Sobreira e o recinto do Sideral, para além dos dois menires do Monte do Álamo (nº 18) (estes, um pouco mais afastados), formam um cluster muito definido, em que, numa base diversa da que foi anteriormente ensaiada, talvez seja legível uma sequência, conjugando a estrutura da paisagem terrestre e, pelo menos, um evento celeste importante. Num primeiro momento, teríamos o menir do Sideral, instalado em função do festo e do relevo (trata-se do ponto mais destacado, topograficamente, num raio visual muito extenso); marcada, deste modo, a área, teríamos, de seguida, o recinto de Cuncos, orientado pelo cabeço de Montemor-o-Novo, alinhado a 100 º, e, finalmente, a posição destes dois, teria sido utilizada para a implantação dos restantes.

Também em Pavia, o grande menir cilíndrico da Caeira (nº30) parece estabelecer uma associação espacial significativa com os recinto de Vale d’El-Rei, o mais próximo, e o das Fontaínhas (nº 11), a uma distância já considerável. Na verdade, os três monumentos materializam, à semelhança da maioria dos restantes conjuntos, uma relação genericamente equinocial, com o habitual desvio para Sul. Embora os dados sejam muito escassos, A sequência cronológica mais plausível, seria, de Oeste para Leste, Fontaínhas, Vale d’El Rei e Caeira.

7.1.4. Os pares de menires

A confirmação do menir 2 de S. Sebastião (as primeiras referências só consideraram o menir 1 como indiscutível) (Burgess, 1987: 40) abriu caminho à identificação de uma modalidade, de que havia já alguns raros indícios, mas que nunca tinham chamado a atenção dos investigadores: os pares de menires.

Trata-se de monumentos muito frequentes nas Ilhas Britânicas e, um pouco menos, também na Bretanha, cuja característica mais notável é o dimorfismo acentuado entre os dois monólitos (Burl, 1993: 181-202); este aspecto é muito notório no par de S. Sebastião, em que o menir 1 é cilíndrico, de silhueta esguia, e, em contrapartida, o menir 2 é ovóide e muito volumoso.

Convém recordar que, sem intervenções arqueológicas específicas, é sempre possível que os pares de menires sejam apenas o que resta de arranjos mais complexos; por isso, é sempre com algumas reservas que se poderiam incluir os menires do Monte do Álamo (nº18) ou da Pedra Longa (nº 16) dentro desta categoria, embora também nestes dois casos, os menires que os compõem sejam morfologicamente diferenciados.

Os pares de menires da Lucena e da Abaneja (hoje desaparecido) são certamente monumentos de outra natureza. As formas angulosas, as dimensões modestas e o facto de serem blocos muito semelhantes entre si, exigem outras explicações (e, eventualmente, segundo creio, outras cronologias) que, só a escavação poderia, com sorte, vir a sustentar. O “par” do Monte das Flores (nº 23), proveniente de um local onde, à superfície, existem indícios de uma necrópole da Idade do Ferro, deve, por comparação com o monumento paviense da Tera (nº 14), ser o que resta de um monumento funerário previsivelmente mais complexo.

7.1.5. Os alinhamentos

O único alinhamento inequívoco, no Alentejo Central, é, efetivamente, o do monumento da Tera, cuja cronologia sidérica é, atualmente, um dado inquestionável.

No entanto, é possível que os três menires do Carrascal (nº 17), no Redondo, sejam também eles parte de um alinhamento destruído; na verdade, os monólitos formam uma linha bastante credível, embora só um deles (menir 3) pareça estar in situ. É igualmente sugestivo o facto de a linha que definem apontar para o cume mais alto da serra d’Ossa, o do S. Gens, cuja silhueta se recorta no horizonte, a Norte do Carrascal.

7.1.6. Os menires isolados

Os menires isolados constituem, como se compreende, o conjunto mais heterogéneo e mais difícil de avaliar. Extrapolando as óbvias lacunas presumíveis em boa parte dos recintos, é praticamente certo que muitos menires isolados desapareceram sem deixar rasto.

As relações entre menires isolados resumem-se, quase todas, a uma articulação, aparentemente difusa, com áreas geográficas discretas. As eventuais relações “programadas” entre os menires isolados, se existiram, não foram, por enquanto, tornadas perceptíveis.

7.2. Menires e monumentos funerários

Em termos muito gerais, é possível afirmar que, no Alentejo Central, existe uma certa coincidência entre as áreas com menires e as principais manchas de megalitismo funerário, tanto mais que umas e outras se relacionam intimamente, como veremos, com a distribuição das rochas granitóides na região (Fig. 7.12).

Nesta escala, não deixa de ser notável a coincidência entre a grande mancha dolménica alentejana e a distribuição dos menires e recintos; uma certa coincidência verifica-se, aliás, também noutras áreas peninsulares.

Porém, numa escala mais detalhada, esta imagem revela-se, pelo menos em alguns casos mais significativos, bastante enganadora.

Em Évora, os três grandes recintos megalíticos e muitos dos menires que com eles se podem relacionar espacialmente - S. Sebastião (nº 8), Monte dos Almendres (nº 32), Vale de Cardos (nº 35), Veladas (nº 36), Azinhal (nº 33), Esbarrondadouro (nº 53), Casbarra (nº 31), Mauriz (nº 38) - parecem demarcar um território onde, como veremos, se concentram os povoados mais antigos e onde são raras as evidências de megalitismo funerário (Fig. 7.13), apesar de estas estarem muito bem representadas nas áreas imediatamente adjacentes.

Em Reguengos de Monsaraz, são sobretudo o recinto do Xarez (nº 6) (Fig.7.14) e, em menor grau, o dos Perdigões (nº 13) que aparecem bastante isolados em relação às principais concentrações de antas.

Os recintos de Cuncos (nº 7) e Sideral (nº10) e os menires que os rodeiam (Fig. 7.15), ocupam o centro de um território virtualmente vazio de megalitismo funerário, com uma única excepção que confirma a regra, a anta da Sobreira, monumento muito especial por integrar, aparentemente, um grande menir na sua construção.

O mesmo se passa, segundo parece, com o recinto das Fontaínhas (nº 11), na área de Pavia (Fig. 7.16).

No entanto, no núcleo montemorense do Tojal (nº 5) ou, em Pavia, na área de Vale d’El-Rei (nº 15), o panorama difere substancialmente: nos dois casos, existem monumentos funerários, de diferentes tipos, nas áreas envolventes dos recintos, sugerindo fenómenos de monumentalização cumulativa das paisagens.

                        Fig. 7.12 - Distribuição das sepulturas megalíticas, na Península Ibérica (seg. Oliveira, 1997: 57)


Fig. 7.13 - Monumentos funerários na área envolvente dos recintos de Évora;1: Almendres; 2: Vale Maria do Meio; 3: Portela de Mogos.

Fig. 7.14 - Monumentos funerários na área envolvente do recinto do Xarez.

Fig. 7.15 - Monumentos funerários na área envolvente do recinto de Cuncos.

Fig. 7.16 - Monumentos funerários na área envolvente do recinto das Fontaínhas.

Existem, por outro lado, alguns indícios que apontam para a utilização ou a reutilização de menires na construção de antas. Trata-se, em quase todos os casos, de blocos que, apenas por razões morfológicas se podem classificar como menires.

O mais interessante, por ser o mais seguro, é o do menir de Vale de Rodrigo 1 (nº 46), hoje ligeiramente deslocado, mas que deveria originalmente estar implantado junto à entrada do corredor do monumento funerário, encaixando, por isso, perfeitamente, no clássico conceito de menir indicador; menos canónicos, em termos morfológicos, os menires da Correia (nº 41), o “menir” 6 e, de forma menos óbvia, o “menir” 7 da Anta do Zambujeiro (nº 3), parecem inserir-se igualmente nesta categoria.

Note-se que, na Bretanha, junto à entrada do corredor do dolmen das Pierres Plates ergue-se também um monólito paralelepipédico.

Todos os outros casos correspondem a monólitos, mais ou menos meniróides, inseridos, como esteios da câmara, nas próprias estruturas das antas, como acontece com a anta da Sobreira, em que o possível menir se conserva intacto, ou com as antas do Escoural (nº 54) ou da Mitra 2 (nº 55), em que os monólitos suspeitos se apresentam ambos amputados e reutilizados no lado norte da estrutura.

Um outro grupo, menos sugestivo, é constituído por antas com monólitos esguios que funcionam como pilares, como se observa na anta do Zambujeiro (menires 1 a 5) e na das Cabeças (nº 64), com inúmeros paralelos, fora da presente área de estudo.

7.3. Menires e vestígios de habitat

A contextualização arqueológica dos menires do Alentejo Central, indispensável para uma leitura integrada dos monumentos, foi, desde a raíz, uma das prioridades deste trabalho e aquela que, na prática, exigiu maior investimento de tempo e recursos; na verdade, os cerca de 2500 sítios listados, para além de representarem um manancial que, neste trabalho, fica longe de ser esgotado, fazem, para já, da região, uma das melhor conhecidas, no que diz respeito sobretudo à cartografia dos vestígios de habitat das primeiras sociedades camponesas.

Convém recordar que, ao elevado volume de dados de natureza superficial cuja informação, em muitos casos, é de “baixa intensidade”, se juntam os resultados de escavações de emergência (a maioria) e uma ou outra integrada em projetos de longo curso.

Penso que tentar compreender aspectos como as dinâmicas do povoamento das sociedades neolíticas, apenas através dos vestígios de habitat, omitindo o capítulo da monumentalidade megalítica, equivale a estudar o Egito sem fazer referência às pirâmides ou a sociedade medieval sem contemplar as catedrais. Mutatis mutandi, o estudo dos monumentos exige uma avaliação, obviamente ponderada, dos vestígios arqueológicos que, apesar de serem, por norma, muito mais discretos, são o reflexo dos comportamentos e das opções, em diversos domínios, dos respectivos construtores e utentes.

A distribuição dos menires alentejanos apresenta uma concentração sem paralelos numa área relativamente compacta (Mapa 2), com cerca de 15 Km de diâmetro, localizada a Oeste de Évora, onde, em termos regionais, ocorre igualmente a maior densidade de sítios de habitat com cerâmicas decoradas e/ou indústrias micro-laminares (Estampas 1-15; 18; 20, nº1,2,3,5; 21; 22; 23, nº1; 24), atribuíveis ao Neolítico antigo/médio (Mapas 3 e 5). De entre estes, destaca-se, de várias formas, mas sobretudo por ter sido recentemente objeto de um estudo aprofundado, o povoado da Valada do Mato (nº1119) (Diniz, 2004).

Na verdade, se alargarmos ao resto da área de estudo a comparação entre a intensidade da fenómeno menírico (sobretudo se avaliada em função do peso dos monólitos) e a intensidade do povoamento atribuível ao Neolítico antigo/médio, verifica-se igualmente uma clara correlação entre as duas manchas, destacando-se, a seguir a Évora, a área megalítica de Reguengos de Monsaraz.

Fig. 7.17 - Povoados do Neolítico antigo, na área de Évora.

Por outro lado, na lista relativamente extensa de sítios de habitat que, por ausência de dados mais específicos, atribuí genericamente ao Neolítico/Calcolítico, é natural que uma boa parte se venha igualmente a poder atribuir ao Neolítico antigo/médio; efetivamente, aqueles sítios, geralmente com escassos materiais de superfície, apresentam, a Oeste de Évora - e também na área de Reguengos (Estampa 19; 23, nº2) - uma maior frequência de artefatos ou restos de talhe em sílex (Mapa 6), material que, só por si, parece ser um indicador de antiguidade na sequência neolítica regional.

Mesmo os achados avulsos reforçam esta imagem global, ocorrendo, com mais frequência, nas áreas mais ricas em menires, os artefatos e os restos de talhe de sílex (Mapa 11), e com menos intensidade relativa, os percutores ou a pedra polida (Mapas 9 e 10).

É igualmente notável, pela negativa, a escassez de sítios de habitat do Neolítico final ou do Calcolítico, nas áreas onde ocorrem, por um lado, as maiores concentrações de menires e, por outro, as manchas mais significativas de vestígios de habitat do Neolítico antigo/médio. Esta ausência é particularmente notória na “Baixa do Xarez” ou no triângulo Almendres/Portela de Mogos/Évora.

Fora destes dois principais núcleos de menires alentejanos, a presença de vestígios de povoamento do Neolítico antigo/médio está relativamente bem definida, junto ao recinto de Cuncos (Fonseca, 1987: 179), enquanto nas áreas do Tojal (Estampas 16 e 17) ou de Pavia (Calado, 2001: 230, nº14) essas evidências, embora existam, são muito pouco expressivas.

Se, em termos gerais, a imagem resultante é relativamente clara, continua a ser muito difícil tentar estabelecer vínculos entre monumentos e povoados concretos. As relações de proximidade entre os recintos de Cuncos (nº 7), dos Almendres (nº 1), do Vale Maria do Meio (nº 2), dos Perdigões (nº 13), ou até mesmo do Xarez (nº 6), e os povoado adjacentes ou, pelo menos, localizados nas proximidades imediatas, são certamente sugestivas; seria, porém, necessário, dispor de cronologias finas que, infelizmente, não existem.

Em todo o caso, parece lógico, atendendo aos recursos humanos necessários para a construção dos menires e, sobretudo, dos recintos, que esta fosse obra de comunidades dispersas por vários povoados e não apenas dos habitantes de um qualquer povoado individual; a ideia de uma congregação de esforços intercomunitários, com laços que a construção dos monumentos reforçaria, foi igualmente proposta no contexto de outros monumentos neolíticos europeus (Edmonds, 1999).

Apesar de um ou outro caso menos explícito, como é o caso dos Perdigões (nº 13) e eventualmente da Pedra Longa (nº 16), não podemos falar de coincidência espacial entre os menires e os povoados; pelo contrário, a imagem que se impõe é a de que, em termos gerais, os presumíveis povoados dos construtores e utilizadores dos monumentos se localizam nas proximidades mas não nos próprios locais de implantação desses mesmos monumentos.

Neste aspecto, os menires alentejanos diferem substancialmente do padrão observado no Algarve ocidental, em que se chegou a falar de “povoados com menires” (Gomes e Cabrita, 1993; David Calado, 2000b; David Calado et al., 2004) embora a eventual discrepância cronológica entre uns e outros possa matizar esta leitura.

7.4. Menires e arte rupestre

                                 

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                                    5 6
Fig. 7.18 - Painéis com cruciformes; 1: Penedo da Almoinha (seg. Zbiszewski et al, 1977: 41); 2, e 4: Pedra das Gamelas (seg. Correia, 1921: 103, 104); 5, 6: Pedra da Talisca (seg. Correia, 1921: 106).

1
2

Fig. 7.19 - Rochedos com cruciformes; 1: Pedra das Taliscas (seg. Correia, 1921: La. XXVIII, 1); 2: Pedra das Gamelas.


1
2

Fig. 7.20 - Rochedos com cruciformes; 1: Penedo das Almoinhas; 2: Pedra da Loba.


Até à descoberta recente do complexo rupestre do Alqueva, eram raras e, à primeira vista, irrelevantes para os objetivos deste trabalho, as manifestações de arte rupestre no Alentejo Central, exceptuando, até certo ponto, as pedras com covinhas.

No entanto, a maior parte das covinhas são, aparentemente, tardias em relação aos menires e ocorrem praticamente em todos os contextos geológicos, nomeadamente nos xistos onde, como veremos, estão ausentes, por regra, os menires e os povoados do Neolítico antigo. Na verdade é a partir do Neolítico final e, sobretudo, do Calcolítico que as covinhas surgem, embora com pouca frequência, em contextos mais ou menos controláveis, nomeadamente povoados e sepulturas.

A escavação, atualmente em curso, do povoado de S. Pedro (nº1452), no Redondo, permitiu contabilizar um número elevado de blocos soltos decorados com covinhas, inseridos ou não nas construções, (Rui Mataloto, inf. pessoal).

Por outro lado, é notória a ausência de covinhas, no território balizado pelos recintos dos Almendres (nº1), Vale Maria do Meio (nº2) e Portela de Mogos (nº 4), enquanto nos territórios adjacentes, onde se localiza a maioria das antas da região, esse tipo de gravuras surge com alguma pujança (Calado e Bairinhas, 1994).

Os painéis com cruciformes, que constituem um grupo temática e espacialmente muito coeso, a que se acrescentou recentemente a Pedra da Loba (nº374), no concelho de Arraiolos (descoberta pelo Dr. Francisco Bilou), balizam uma área quase sem menires - exceptua-se o menir do Alto da Cruz ( nº 71), nem monumentos funerários, localizada entre as grandes áreas megalíticas de Pavia, a Nordeste, e de Arraiolos/Évora, a Sudoeste.

Esta discrepância notória em relação à distribuição espacial das antas e dos menires poderia ter, desde logo, implicações cronológicas; no entanto, a contenção geográfica dos cruciformes pode, alternativamente, corresponder a especificidades culturais de âmbito localizado; numa escala maior, não deixa de ser sugestiva a proximidade em relação a um núcleo algo desgarrado do grupo de Évora, de povoados do Neolítico antigo/ médio, de que se destaca o povoado da Pedra da Moura (nº375), com cerâmica cardial. Esta associação, se se viesse a comprovar, implicaria alguma sincronia com os menires, num contexto eventualmente diferenciado do resto da região.

Os afloramentos onde foram gravados, sempre em paredes verticais, os motivos cruciformes, correspondem todos a “monumentos naturais” relativamente destacados da envolvência geológica, com morfologias vagamente zoomórficas; os cruciformes surgem associados a outras variantes de antropomorfos esquemáticos, estilisticamente muito distintos dos que se conhecem, em número razoável, no complexo do Alqueva (Baptista, 2002; Calado, 2004; Collado, 2004).

Quanto aos painéis do santuário exterior da gruta do Escoural (Santos, Gomes e Monteiro, 1981), localizada muito próximo da área de maior concentração de menires (e, sobretudo, do par de menires de S.Sebastião) tudo aponta para uma cronologia tardo-neolítica ou calcolítica; seja como for, o suporte, o contexto arqueológico e os próprios temas tornam-no uma ocorrência única na região; essa peculiaridade relaciona-se, provavelmente, com a própria gruta que estaria, nessa altura, inacessível e é a única ocorrência cársica conhecida no Alentejo Central.

Fig. 7.21 - Painéis do santuário exterior do Escoural (seg.Gomes et al., 1993: 107).

Fig. 7.22 - Localização da Gruta do Escoural, no contexto dos menires do Alentejo Central.

De facto, a gruta do Escoural, apesar da reocupação neolítica, esteve total ou parcialmente abandonada (pelo menos no interior) durante um largo período de tempo. Coloca-se aqui, naturalmente, a questão de, até que ponto e de que forma, o antigo santuário paleolítico, mesmo oculto, se teria mantido na memória dos primeiros reutilizadores do espaço da gruta e se teria, numa fase final, vindo a plasmar no santuário exterior.

Efetivamente, segundo Tim Ingold, “a paisagem é constituída como um registo duradouro - e testemunho - das vidas e trabalhos das gerações passadas que moraram nela, e ao fazê-lo, deixaram qualquer coisa de si próprios” (Ingold, 1993: 152).

Por último, apesar de ser cedo para um balanço circunstanciado sobre as eventuais relações entre os menires e a arte rupestre do Alqueva - tanto mais que não foram ainda publicados os resultados dos estudos de pormenor, sobre os motivos e a respectiva distribuição espacial – avancei, num artigo recente (Calado, 2004) algumas reflexões possíveis sobre o tema, numa escala de análise ampla, em termos espaciais e cronológicos.

A comparação global entre a arte rupestre do Alqueva e a arte megalítica dos menires alentejanos, feita sobretudo em termos dos respectivos contextos paisagísticos, mas considerando igualmente os suportes, as técnicas e os motivos, revelou um conjunto de diferenças, certamente significativas, entre os dois fenómenos.

Recorde-se que, noutras perspectivas, a arte rupestre de ar livre e a arte megalítica têm vindo a ser consideradas indissociáveis, genericamente contemporâneas e, até certo ponto, como duas manifestações, integradas num mesmo fundo cultural comum e partilhando, no essencial, as mesmas regras iconográficas e simbólicas.

Na verdade, os menires e arte rupestre do Guadiana inserem-se, claramente, na grande família das manifestações artísticas e simbólicas que, desde o Paleolítico Superior, se desenvolveram, em vários círculos específicos, mas em que se pode, a priori, postular um continuum demográfico e cultural.

Os dados atualmente disponíveis sobre o povoamento pré-histórico no Alentejo Central, ainda que ténues no que diz respeito ao Paleolítico superior e ao Epipaleolítico, apenas sugerem o abandono da região no Mesolítico final, num período que, em última análise, foi relativamente curto e em que as populações se fixaram em áreas contíguas.

No quadro que a seguir se apresenta, são listadas as principais diferenças; elas não implicam, porém, que não existam igualmente pontos de contacto, alguns dos quais foram referidos já no capítulo 6.

Fig. 7.23 - Relações macro-espaciais entre os menires, os concheiros e os santuários rupestres do Tejo e do Guadiana

(seg. Calado, 2004).

Arte Rupestre                                         Menires

As cotas mais baixas                                  As cotas mais altas

Rio                                                              Festo

Húmido                                                       Seco

Xisto                                                           Granito

Horizontal                                                   Vertical

Picotado                                                      Baixo-relevo

Círculos e antropomorfos                           Báculos e crescentes

Continuidade                                               Ruptura

Natural                                                         Artificial

Oculto                                                         Exposto

Sem paralelos na Bretanha                         Com paralelos na Bretanha


As diferenças observadas podem, de alguma forma, relacionar-se com o hiato demográfico que parece ter afetado a região durante o Mesolítico final (Araújo, 2003b); é certo que a ausência de provas não é a prova da ausência, mas a hipótese do esvaziamento mesolítico da região, que se presume em benefício da formação dos concheiros estuarinos do Tejo e do Sado, para além de lógico, beneficia dos resultados negativos das prospecções e sondagens intensivas levadas a cabo, no contexto dos trabalhos arqueológicos do Alqueva, por uma equipa experiente que, em contrapartida, registou e escavou um sítio epipaleolítico (Almeida et al., 2002; Almeida et al., 1999). Convém recordar que, em função dos padrões expectáveis, a ter havido ocupações mesolíticas no Alentejo Central, seria junto ao Guadiana a área mais provável; no entanto, foi esta a área mais intensamente estudada nos últimos anos e os resultados não parecem deixar demasiada margem para dúvidas.

Porém, alguma permanece: a escavação do extraordinário povoado do Neolítico antigo do Xarez 12 (nº 2139), (Gonçalves, 2002a), localizado na margem direita do Guadiana, revelou uma indústria lítica muito rica, de carácter micro-laminar e geométrico, que levou o escavador a admitir ser “possível a existência de uma ocupação mais antiga” (Gonçalves, 2002a: 103).

Por outro lado, as prospecções que efectuei, na região, permitiram identificar dois novos sítios com indústrias líticas cujas características parecem indiciar igualmente uma origem mesolítica: o sítio do Barrocalinho 17 (nº1990, foto 1-3), em Reguengos de Monsaraz, e o Alto de S. Bento (nº1698, Foto 4), em Évora.

No primeiro caso, a par de algumas escassas cerâmicas lisas - uma com decoração plástica (Estampa 23, 2) - recolheu-se um interessante conjunto de artefatos micro-laminares, de que se destacam dois trapézios assimétricos, de truncaturas côncavas, em rochas siliciosas de provável origem regional (Estampa 19); no segundo, para além de lamelas, recolheu-se um triângulo, num contexto em que as cerâmicas decoradas também parecem ausentes (Estampa 18, 1-26).

Fig. 7.24 - Trapézios do Barrocalinho 17 (Reguengos de Monsaraz).

É claro que podemos estar perante sobrevivências técnicas, relacionadas com práticas económicas atávicas, em comunidades de caçadores-recoletores recentemente neolitizadas ou mesmo em vias de neolitização.

O hipotético abandono da região (num processo que teria, na generalidade, afetado os territórios do interior) seria o resultado das alterações climáticas do período atlântico, traduzidas diretamente numa “densificação da floresta” (Araújo, 2003: 111) e, por isso, em piores condições de transitabilidade. Num tal cenário, é aceitável uma interrupção ou uma redução drástica do uso dos santuários rupestres do interior pelas populações do Mesolítico final; isso poderia explicar a ausência, nesses santuários, dos símbolos que certamenteterão surgido, no seio das últimas comunidades de caçadores-recolectores, na eminência das profundas mudanças que o modo de vida neolítico acabou por introduzir.

Essa fase implica, teoricamente, um ambiente de tensões e rupturas e, por isso mesmo, propício ao aparecimento de novos símbolos e novas práticas rituais. Convém não esquecer que as condições geológicas dos estuários não eram propícias ao desenvolvimento da arte rupestre; neste cenário, a madeira pode ter desempenhado um papel de substituto natural dos suportes clássicos da arte rupestre.

7.5. Menires e monumentos naturais

Conforme já referi, no capítulo 3, verifica-se, com alguma expressão na bibliografia arqueológica portuguesa, uma certa tendência para confundir menires e afloramentos naturais, sobretudo quando estes apresentam formas mais ou menos meniróides.

Num trabalho académico recente, centrado no recinto dos Almendres (nº 1), foi expressamente defendido que “alguns penedos naturais, integrados em contextos, tanto arqueológicos como etnográficos, demonstrando terem sido associados a rituais de fertilidade e a outras práticas mágico-religiosas, talvez com origens pré-históricas, sejam classificados como menires” (Gomes, 2002: 154).

Também Jorge de Oliveira, em vários trabalhos sobre o megalitismo no distrito de Portalegre, classificou como menires três monumentos naturais: Porra del Burro, Pombais e Sete. Para os dois primeiros, este autor defendeu uma situação mista: tratar-se-ia de afloramentos naturais, embora afeiçoados pela mão humana; no terceiro caso, “a configuração natural do afloramento, dispensou grande investimento de talhe” (Oliveira e Oliveira, 1999-2000: 158).

Na minha opinião, o próprio afeiçoamento do “menir” da Porra del Burro ou do “menir” dos Pombais, poderia ser questionado; trata-se de afloramentos cujas formas caprichosas são relativamente frequentes e que resultam normalmente da ação de fenómenos exclusivamente naturais, como, aliás, é reconhecido em relação à Rocha dos Namorados (nº96) e à Pedra Alçada (nº94).

Com ou sem afeiçoamento, geralmente difícil de confirmar nos granitos, não creio que os afloramentos naturais se devam confundir com os menires. Uma das diferenças tem a ver com a óbvia anterioridade de uns em relação a outros: os primeiros, como elementos proeminentes da paisagem natural, foram provavelmente usados, muito antes da ereção dos menires, como referências espaciais e, eventualmente, simbólicas.

O carácter mais inovador dos menires e, de certa forma, também dos outros tipos de monumentos, cujo arranque acompanhou, de perto, a neolitização da Europa atlântica, é precisamente o facto de serem inequivocamente obra humana e de traduzirem um esforço coletivo extraordinário que era, suponho, um dos ingredientes mais importantes do processo.

Na ereção dos menires parecem manifestar-se, de forma simbólica, as ideias chave daquela que, tendo sido certamente uma revolução económica e tecnológica, o foi também no âmbito da estrutura social e ideológica; estava em causa, entre outros aspectos, a redefinição do papel do Homem face à Natureza (Barnatt, 1998: 96; Guilaine e Zammit, 1998: 124), exigida pelo confronto entre o modo de vida tradicional, representado pelos caçadores-recoletores, e as profundas inovações introduzidas pela pastorícia e pela agricultura.

A instalação, no Alentejo Central, de uma economia neolítica, por muito incipiente que fosse, tinha, necessariamente, que passar, pelo menos numa fase inicial, por uma domesticação drástica das paisagens (e uma concomitante apropriação dos territórios); tratava-se, no mínimo, de desbravar áreas de cultivo e de pastoreio, instalar povoados e abrir caminhos numa paisagem densa e, durante vários séculos, desabitada (Araújo, 2003).

É precisamente, segundo creio, este ambiente de intenso investimento laboral, que permite enquadrar o extraordinário esforço colectivo necessário à construção dos monumentos megalíticos, tarefa para a qual não se vislumbram, com facilidade, nem antecedentes óbvios, nem motivações de ordem económica.

É de supor que estivessem em causa, eventualmente, mecanismos sociais de tipo competitivo, jogos de poder, como consequência dos confrontos e rupturas que seriam de esperar em sociedades cujas bases tradicionais estavam em vias de contestação e desagregação.

Os construtores de menires eram, por definição, os adeptos da mudança.

Vistos nesta perspectiva, os rochedos naturais e os menires representam, aparentemente, conceitos antagónicos, mesmo que, à primeira vista, sejam morfologicamente muito semelhantes.

A relação fundamental entre uns e outros deve ter sido, no entanto, de carácter genético (Cassen et al., 2000; Scarre, 2002d); efetivamente, os próprios blocos que, ao serem transportados e erigidos, se transformavam em menires, existiam já nas paisagens naturais e é possível que, ainda nessa condição, carregassem significados específicos, eventualmente relacionados com as funções que se lhes vieram a destinar.

Por outro lado, a sacralização dos acidentes naturais mais importantes, entre os quais se inscrevem os afloramentos rochosos mais eminentes, está perfeitamente atestada em inúmeras ocorrências arqueológicas (Fig. 7.19 e 7.20) e etnográficas (Fig. 7.28), quer em termos genericamente rituais, quer em contextos funerários.

É, sobretudo, nas sociedades com maior mobilidade, com são, por regra, os caçadores-recoletores, que os marcadores naturais das paisagens ganham importância acrescida (Taçon 1994: 126; Barnatt, 1998: 98; Cooney, 1998: 110; Ouzman, 1998: 39; Nash, 2000: 5; Swartz, 2000: 160; Alves, 2002: 61; Bergh, 2002: 139; Cummings, 2002: 107).

Não é raro, antes pelo contrário, que os “santuários” de arte rupestre correspondam também a lugares com grandes afloramentos naturais: o Buraco da Pala, El Pedroso, Peña Tú, são alguns dos mais conhecidos no ocidente peninsular, embora se trate indiscutivelmente de um fenómeno de alcance geográfico quase planetário (Klassen, 1998: 69).

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Fig. 7.25 - Monumentos naturais meniróides; 1: Peramanca (Evora); 2: Barrocal (Évora); 3: Sete (Monforte).

No Alentejo Central, as mesmas paisagens graníticas que foram o cenário privilegiado do fenómeno megalítico, são, por outro lado, muito ricas em afloramentos naturais sugestivos. Blocos alongados, alguns dispostos na vertical, caos de blocos, “recintos” naturais ou alinhamentos são, efetivamente, características recorrentes da paisagem geológica, mesmo descontando as amputações a que, desde época megalítica até ontem à tarde, ela tem estado sujeita.

De uma forma relativamente intuitiva, herdeira das perspectivas românticas sobre a Natureza e a Paisagem, Vergílio Correia classificou, na área de Pavia, alguns afloramentos graníticos mais notáveis, em particular aqueles em que julgou ver algum agenciamento pré-histórico, como santuários ou “lugares de religião” (Correia, 1921: 97); as escavações que conduziu num desses sítios - a Pedra da Moura (nº269; fig. 7.26) - e que permitiram recolher alguns artefatos neolíticos, convenceram-no da justeza da sua interpretação.

Merece destaque a observação desse autor, a propósito de outro suposto santuário natural, os Barroqueiros de Oliveira; nas suas palavras “outro motivo (...) que seguramente provocou e facilitou a consagração das penhas foi o aspecto de uma delas, a maior (...); corroída, fortemente escavada na parte inferior das suas faces Norte e Sul, parece um gigantesco cogumelo ou a carapaça de um tatú descomunal” (Correia, 1921: 99). A semelhança deste afloramento com a Rocha dos Namorados (nº96) ou com a Porra del Burro é assinalável.

Fig. 7.26 - Pedra da Moura (Pavia, Mora) (seg. Rocha, 1999: 221).

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Fig. 7.27 - 1-3: Formações de aspecto meniróide do lapiás de Negrais (Granja dos Serrões); 4: vista parcial, do lado Norte.

Também noutros contextos geológicos, em áreas não muito afastadas, a atracção provocada por acidentes naturais monumentais, a partir do Neolítico antigo (ou talvez antes) constitui motivo de reflexão sobre os ambientes paisagísticos e mentais de onde emergiu o megalitismo. Um dos exemplares mais curiosos é o que resta do lapiás de Negrais, um verdadeiro campo de menires naturais, ordenados em função do declive do terreno, com o blocos maiores nas cotas mais altas. O eventual papel inspirador deste santuário natural - eventualmente conhecido e frequentado pelas populações dos concheiros (Roche, 1972: 57) - na concepção dos primeiros recintos megalíticos alentejanos, é uma hipótese a considerar; também na área da serra da Lua, poderíamos destacar um outro caso muito sugestivo, o “cromeleque” da Barreira (Fig. 10.10 e 10.11), como um geomonumento capaz de suscitar réplicas megalíticas.

A valorização simbólica dos grandes blocos naturais, de aspecto mais ou menos rude parece, por outro lado, ser uma característica específica recorrente do megalitismo (Scarre, 2002d; 2004). O facto de a maioria esmagadora dos monumentos megalíticos (e, em particular, os menires alentejanos) serem feitos de blocos naturais, sem qualquer afeiçoamento, revela uma síntese curiosa entre duas atitudes aparentemente contraditórias: por um lado, criaram-se espaços claramente culturais, rompendo, em locais bem escolhidos, a estrutura natural da paisagem e, por outro, usaram-se elementos que, nesta ordem de ideias, remetem para valores tradicionais (Bergh, 2002; Bradley, 1998).

Isto significa, provavelmente, que a verdadeira inovação, aquela que implica efetivamente uma ruptura de fundo, foi o próprio ato de, com elementos já fortemente carregados de significados, reorganizar o espaço, impondo-lhe novas valências e sentidos. Alterando a terra.

Não surpreende, pois, que, na região, as relações de proximidade entre afloramentos notáveis e menires não sejam particularmente sugestivas: os monumentos tendem a localizar-se em áreas libertas de competidores naturais. Por outro lado, como veremos, nem todas as áreas graníticas, mesmo com afloramentos notáveis - como é o caso da Pedra Alçada (nº94) - têm menires.

Em termos de proximidade física, o caso mais interessante é provavelmente o do recinto de Vale Maria do Meio (nº 2): com efeito, a escassas centenas de metros deste recinto, localiza-se uma área com grandes afloramentos (de onde se presume, aliás, que seja oriunda a maioria dos menires); trata-se de imponentes formações graníticas, de estrutura orientada, compostas maioritariamente por blocos alongados, dispostos na vertical, cujas dimensões decrescem notoriamente no sentido do declive do terreno.

Merece igualmente referência o curioso afloramento antropomórfico dos Macedos (nº 97), muito próximo do menir do Monte dos Almendres (nº 32) e em articulação visual com o recinto dos Almendres (nº 1).

Também junto ao menir do Mauriz (nº 38), a uma escassa dezena de metros, localiza-se um afloramento natural, de dimensões modestas, o qual, num certo ângulo, se assemelha a um verdadeiro menir erecto (Volume 2, fig. 117, 4).

Porém, um dos resultados mais recorrentes das prospecções de superfície levadas a cabo, nos últimos anos, na região, foi, efetivamente, a associação espacial quase sistemática entre os afloramentos mais destacados na paisagem e os vestígios de povoamento do Neolítico antigo (Calado, 1995a; 1997a; 2000a; 2001a; 2002d; Soares e Silva, 1992; Gonçalves, 2002a). As sobreposições espaciais entre estes e os menires, numa escala ampla, justificam alguns comentários.

A implantação de povoados do Neolítico antigo junto de grandes afloramentos graníticos tem sido igualmente atestada, nos últimos anos, noutras áreas do ocidente peninsular, nomeadamente no povoado do Prazo (Sanches, 2002: 194; Monteiro-Rodrigues, 2000; 2002) e no povoado de S. Pedro de Canaferrim (Simões, 1996; 1999; 2003), entre outros.

A articulação micro-espacial entre as estruturas de habitat e os afloramentos não está ainda bem esclarecida.

Há casos em que as cabanas se terão adossado aos blocos, preenchendo os intervalos entre eles; noutros, tudo indica que os povoados se instalaram em clareiras de maiores ou menores dimensões, delimitadas pelos afloramentos, ou nos espaços devolutos em volta dos mesmos.

O carácter funcional desta opção é uma questão em aberto: a escavação do povoado do Prazo sugeriu, a propósito das lareiras e empedrados postos a descoberto que “a sua disposição mais ou menos periférica a grandes afloramentos graníticos leva a supor que eles terão sido usados como ponto de apoio de outras estruturas, provavelmente de madeira, as quais definiriam abrigos ou cabanas” (Monteiro-Rodrigues, 2000: 163).

Fig. 7.28 - Gravura representando uma aldeia kiaka, instalada junto a um inselberg granítico (seg. Lima, 1988: capa).

Numa notícia muito preliminar sobre o povoado do Xarez 12 (nº2137), em Reguengos de Monsaraz, o responsável pelas escavações aponta o facto de os fornos cerâmicos estarem “protegidos por um conjunto de grandes afloramentos” (Gonçalves, 2002a: 103; 2003: 92), aspecto que dificilmente se pode aplicar aos fornos da Carraça 1 (Gonçalves, 2002: 101).

No entanto, fosse qual fosse a forma como os espaços de habitat se articulavam estruturalmente com os afloramentos, tirando eventualmente partido das condições oferecidas nos diferentes casos, parece claro que a escolha dos locais deve ter obedecido mais a razões de ordem simbólica do que pragmática.

No centro de Angola, entre os Kiaka, os grandes afloramentos graníticos serviram tanto para recolher os crânios de personagens importantes, escondidos em abrigos formados por caos de blocos, em locais de difícil acesso, como para estabelecer a residência dos chefes. O rei kiaka habitava um “inselberg formado por grandes pedras que pesam, provavelmente, várias toneladas, afastadas umas das outras, criando, assim, clareiras ou recintos, onde os Kiaka construíram cabanas e que servem, igualmente, de pátios interiores” (Lima, 1992: 115); as cabanas não se adossam, neste caso, aos afloramentos.

Num trabalho recente, explorei algumas das questões em torno dos menires e afloramentos naturais, no contexto particular do Alentejo Central (Calado, 2002). Em síntese, defendi a possibilidade de uma valorização ritual desses “menires naturais” pelas comunidades mesolíticas do Tejo/Sado que, em fase de neolitização, terão instalado, junto deles, os primeiros povoados da região. Paralelamente, os afloramentos terão funcionado como um dos elementos de continuidade, enraizando, no imaginário mítico das sociedades mesolíticas, o discurso inovador que foi a ereção dos primeiros menires.

Esta leitura inscreve-se numa perspectiva assumidamente indigenista, não apenas no que diz respeito à forma como foi recebido o pacote neolítico, mas também como foram interpretadas as ideias que o acompanhavam.

A vertente ideológica do pacote neolítico, que não tenho dúvidas em considerar de origem oriental (tal como as ovelhas e os cereais) depararam, na fachada atlântica, com sociedades relativamente complexas, cuja complexidade não parece ter sido apenas de ordem social ou económica: o mundo funerário revela – aparentemente mais do que estamos habituados a pensar – comportamentos rituais complexos, a que certamente correspondia uma estrutura ideológica elaborada.

Os menires seriam, assim, uma síntese entre crenças difíceis de extirpar, fortemente articuladas com um modo de vida bem sucedido, e a revolução profunda que o vento leste foi fazendo chegar, a partir de meados do VI milénio a. C.

A criação de novos sistemas de crenças, tendo como base outros anteriores, não nos é, de todo, estranha: sem precisar de recuar muito, as três grandes religiões do mundo ocidental têm, como sabemos, tanto de ruptura, como de continuidade.

A invenção dos menires seguiu certamente o padrão habitual da inventividade humana: a partir de ideias ou objetos pré-existentes, acrescenta-se algo, altera-se um detalhe e o resultado é a criação de qualquer coisa que antes não existia. Neste caso, e porque os menires, como, de resto, a arte rupestre, são formas de comunicação de mensagens, penso que poderíamos falar na utilização de ideias antigas, partilhadas pelos destinatários, para fazer passar uma mensagem inovadora.

Uma avaliação recente sobre o megalitismo no país de Gales e a relação deste com afloramentos naturais, sugere que “as origens conceptuais da monumentalidade” se poderiam encontrar no Mesolítico e que os monumentos parecem ter sido “cuidadosamente instalados numa paisagem já preenchida com sítios simbólicos e importantes” (Cummings, 2002: 107). Tratar-se-ia, segundo a autora, “de uma apropriação do passado mítico pelos vivos” (ibidem: 119).

A relação espacial entre os estuários e o Alentejo Central poderia, como veremos no Capítulo seguinte, ter proporcionado uma relação deste tipo.


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Abstract

     Este trabalho corresponde ao Volume 1 de uma Tese de Doutoramento, defendida na FLUL, em 2005 e aprovada por unanimidade. O júri, como ...