Capítulo 12: Interpretações

 12. 1. Introdução

No capítulo 4, procurei traçar uma panorâmica sintética da evolução do pensamento arqueológico, em Portugal, no que diz respeito às propostas de interpretação funcional dos menires.

Um dos problemas de muitas dessas propostas (efetivamente, a maioria delas) reside na própria indefinição cronológica e cultural do tema. Hoje não restam dúvidas de que, por exemplo, a funcionalidade dos menires mais antigos, cujo carácter não sepulcral parece incontestável, se deve diferenciar bastante da dos menires da Idade do Ferro que, pelo menos no alinhamento da Tera, aparecem claramente imbricados na estrutura física da necrópole.

Entre uns e outros, algumas utilizações e reutilizações de menires pré-existentes parecem inserir-se num fundo ideológico comum, mas testemunhar, ao mesmo tempo, uma evolução semântica que, certamente, reproduz outras mudanças em curso.

Os significados e as funções dos menires alentejanos mudaram, certamente, entre o Neolítico e a Idade do Ferro, sendo necessário interpretar os diferentes monumentos dentro dos respectivos contextos culturais; no entanto, os dados disponíveis indicam que a maior parte dos menires e, sobretudo, os monumentos mais importantes, parecem inserir-se no mesmo patamar cronológico - a transição Mesolítico-Neolítico -, constituindo, nesse processo, um elemento inovador que, uma vez inscrito nas paisagens, inspirou certamente a ereção dos raros exemplares erguidos, posteriormente, na região.

De uma forma ou de outra, os menires tardios são epifenómenos; na mesma categoria entram, até certo ponto, as estátuas e estelas (Bueno, 1995) que, entre o Calcolítico e o final da Idade do Bronze, definem, no ocidente peninsular, geografias algo distintas, mas sobrepostas, deixando, curiosamente, de fora, o Alentejo Central. O carácter tardio da maior parte delas é evidenciado pelas representações de armas metálicas (punhais e alabardas, sobretudo) que, até à chegada do domínio romano, se tornaram um dos adereços fundamentais da estatuária.

Noutras áreas europeias e com cronologias igualmente avançadas, surgiram diversos grupos de estátuas-menires, algumas com iconografias (como é o caso dos crescentes e dos báculos) que denunciam uma provável inspiração nos menires bretões (Kinnes, 1995; D’Anna et al., 1995); no conjunto, pode afirmar-se que as estátuas-menires se “desenvolveram a partir de menires simples, dentro da tradição megalítica geral” (Barfield, 1995: 13).

Também os esteios antropomórficos das antas, os bétilos, os ídolos cilíndricos ou as placas de xisto, constituem, de certa forma, sucedâneos de um ambiente iconográfico inaugurado, tanto quanto parece, pelos menires, e em que a representação tridimensional da figura humana, fortemente estilizada, tem um relevo particular.

12.2. Os menires: significados e funções

Os menires, nas suas diversas modalidades, são símbolos e, neste sentido, que creio ser o mais básico, constituem, tal como a arte rupestre, uma modalidade de linguagem gráfica. Trata-se, em última análise, de formas de registo e comunicação de informação.

A durabilidade da pedra e o potencial metafórico dessa qualidade, não foram concerteza estranhos ao megalitismo, como não o foram à arte rupestre. Se nesta, como muitos autores admitem, o suporte tem um significado em si mesmo que as gravuras acentuam ou acrescentam (Alves, 2002; Bradley, 1997), no caso dos menires anicónicos, o suporte é ele próprio o símbolo.

O considerável esforço exigido para a construção dos monumentos é revelador da importância das mensagens que se pretendia transmitir. Neste aspecto, em comparação com a arte rupestre, cuja feitura podia ser obra de “artistas” individuais, os menires traduziam certamente ideias, que podemos considerar de interesse coletivo e que envolviam e responsabilizavam toda a comunidade que os erigiu.

Comparativamente, poderia mesmo afirmar-se que, enquanto muitos santuários rupestres, por serem virtualmente invisíveis, são como um segredo que se sussurra, os menires, pelo contrário, parecem mais um discurso que se proclama.

Os menires começam por ser símbolos antropomórficos: efetivamente, de entre os vários significados que lhes têm sido atribuídos e que, em muitos casos, se podem sobrepor, aquele que, no contexto da transição Mesolítico/Neolítico, parece mais adequado, é o da representação da figura humana (Bueno e Balbín, 1996; 2002; Vazquez, 1997; Beneteau, 2000: 300).

Na verdade, no contexto da arte neolítica europeia, os símbolos antropomórficos, para além de assumirem uma enorme variedade formal, são os mais recorrentes e transversais; na própria área de origem da Revolução

Neolítica, o Próximo Oriente, o aparecimento da figura humana acompanha, ou antecede imediatamente, as

primeiras experiências de domesticação de cereais, em sociedades em que a sedentarização e a complexificação social davam os primeiros passos (Cauvin, 1999a; 1999b).

A representação extremamente simplificada da figura humana que, na maior parte dos casos nem sequer implicou qualquer transformação do “suporte”, coloca, por outro lado, os menires na linha dos desenvolvimentos conceptuais que subjazem à arte esquemática peninsular.

Os menires alentejanos, em particular, exprimem, de uma forma muito minimalista, mas eficaz, a anatomia do corpo humano: a extremidade distal arredondada, sugerindo a cabeça, o achatamento característico da maior parte deles, que permite, quase sempre, definir uma face e a própria altura dos menires, cuja variabilidade pouco se afasta, por excesso ou por defeito, da altura do corpo humano. Em média, os menires dos três grandes recintos de Évora, apresentam comprimentos da ordem dos 1, 71 m, nos Almendres (nº1), 1, 73 m, no Vale Maria do Meio (nº2) e 1, 74 m, na Portela de Mogos (nº4), valores que se aproximam dos que seriam expectáveis para as populações que os conceberam.

A organização dos motivos, nos menires decorados da área de Evora, reforça, como se viu, a mensagem antropomórfica; a própria localização de báculos, quer se trate de cajados ou armas, remete, também ela, para o antropomorfismo dos suportes.

Por outro lado, as diferenças de tamanho (nomeadamente aquelas que se verificam entre os menires que compõem os recintos megalíticos), podem ser entendidas como a expressão dos diferentes estatutos das entidades evocadas, implicando, metaforicamente, uma provável estratificação social (Béneteau, 2000: 280; Cassen et al., 2000), em sociedades que, no entanto, a tradição considera geralmente igualitárias.

Convém salientar que, dentro deste esquema interpretativo, os menires, sendo antropomórficos, não se referiam necessariamente a indivíduos concretos, nomeadamente aos construtores dos monumentos, embora, de uma maneira ou outra, os representassem; é possível que, pelo contrário, aludissem a antepassados, personagens míticos, heróis fundadores ou divindades e, por extensão, como preferem outros autores, possam relacionar-se com a emergência de linhagens, num ambiente de forte coesão social, que monumentos desta ordem de grandeza parecem exigir.

Em segundo lugar, as eventuais conotações funerárias dos menires, difíceis de comprovar com base na evidência empírica, são, mesmo assim, sugeridas pelas realidades que, a montante e a jusante, se lhes podem, de algum modo, aparentar. As estruturas em forma de ferradura, indiscutivelmente funerárias, dos concheiros mesolíticos, poderão estar na origem directa dos recintos megalíticos; por outro lado, as sepulturas megalíticas que incluem, nalguns casos, verdadeiros menires na sua estrutura arquitectónica, e cujos esteios, alguns decorados, têm igualmente vindo a ser interpretados como alusões antropomórficas (Bueno e Balbín, 2002: 606, 628), são, de certo modo, um desenvolvimento desse primeiro megalitismo.

Por último, as referidas estátuas e estelas que são, possivelmente, os herdeiros mais directos dos menires, parecem igualmente aludir, sempre que se lhes conhecem os contextos, ao mundo dos antepassados.

Num certo sentido, pode afirmar-se que a própria arte rupestre participou, a par da arte megalítica, num programa de progressiva ancestralização das paisagens (Keates, 2000) que, no Alentejo Central, os menires parecem iniciar, dando, eventualmente, continuidade a práticas rituais mais antigas.

Note-se que, curiosamente, não se conhecem ainda as estruturas ou os rituais funerários correspondentes aos povoados do Neolítico antigo do Alentejo Central e que, também por isso, convém manter em aberto a possibilidade de os recintos terem desempenhado algum papel (de onde parece excluir-se, liminarmente, em todo o caso, o de lugares de enterramento) nos rituais funerários (ou, pelo menos, no culto dos antepassados) dos seus construtores.

A ligação dos menires ao mundo dos mortos, não lhes esgotaria, naturalmente, as implicações simbólicas e, sobretudo, as funções; a invocação e exibição (Beneteau, 2000: 284) dos antepassados (reais ou míticos), através da construção de monumentos, pode ser uma forma de legitimar apropriações territoriais, revelando, assim, competição, aberta ou latente, com outros grupos, no contexto de um processo de territorialização, próprio do modo de vida neolítico. Num sentido mais geral, “o culto dos antepassados refere-se aos rituais que proporcionam acesso contínuo aos mortos no além. Os antepassados neste sentido continuam a estar comprometidos nos assuntos dos seus descendentes, como participantes nas relações sociais, políticas e económicas” (Buikstra e Charles, 1999: 204).

Os autores de inspiração materialista tendem a relacionar a construção dos mais antigos monumentos com o aparecimento de estratificação social, em articulação com as alterações na base económica; estaríamos, de algum modo, perante afirmações do poder político de elites emergentes, numa fase em que alguns pretendem situar a origem das desigualdades e relacionar estas, de uma forma mais ou menos direta, com a acumulação de excedentes (Testart, 1982; Calado et al., 2004).

Chris Scarre, argumentando contra esta leitura, afirma que “na medida em que uma resposta emocional perante a morte é uma característica humana inata, abordagens centradas na questão do poder, devem ser consideradas desumanizadoras” (Scarre, 1998: 183).

Por outro lado, dentro da linha estruturalista defendida, entre outros, por Ian Hodder e Julian Thomas, a transição Mesolítico/Neolítico pode ser entendida no contexto de uma valorização do doméstico face ao selvagem, em diversos planos (Hodder, 1990; Thomas, 1991a; Barnatt, 2001). Os monumentos e, dentro desta categoria, os menires, seriam, não só uma forma de domesticação das paisagens – traduzida igualmente na implantação de povoados, abertura de caminhos, desflorestação de campos de pasto e de cultivo - mas, sobretudo, de domesticação dos próprios lugares sagrados.

Richard Bradley caracteriza essas mudanças como “ um corte radical”, das populações em vias de neolitização “com o que tinham conhecido antes”; esses grupos estariam “mudando as suas atitudes para com a natureza e o selvagem, domesticando plantas e animais” e, ao construírem monumentos, “mudando a sua percepção global dos lugares” (Bradley, 1993: 17).

De uma forma mais específica, machados e báculos, por sua vez, parecem simbolizar a domesticação da natureza vegetal e animal, respectivamente; nesse sentido, o predomínio dos báculos na iconografia dos menires alentejanos, em detrimento dos machados que, na Bretanha, têm muito maior relevância aparente, encaixa inteiramente nos dados paleoeconómicos obtidos na escavações (ou antes, na ausência deles) (Gonçalves, 2002a; 2003; Diniz, 2004) e na relação dos menires e povoados neolíticos antigos da área de Évora, com a capacidade de uso dos solos dessa mesma área (Diniz, 2004).

As orientações astronómicas, seriam, ainda nesta óptica, formas de “domesticação” dos astros - o Sol e a Lua - e do tempo, através da associação dos monumentos aos principais eventos celestes cíclicos, observáveis no horizonte; trata-se, provavelmente, de relações de poder em que o objeto, mais do que os outros homens, é o mundo natural, sendo que “o papel das representações humanas procura exprimir esta nova relação com a natureza” (Balbin e Bueno, 2002: 630).

A domesticação da natureza, conjugando aspectos económicos, sociais e ideológicos, implicou a construção “de uma imagem de vencedor sobre um meio ambiente durante muito tempo suportado” , sendo legítimo questionar “como, com efeito, a partir do momento em que se domine o mundo vegetal, animal e mineral, conceber as relações com a sua própria espécie?” (Guilaine e Zammit, 2001: 124).

Na verdade, os menires serão, para além de símbolos do poder dos antepassados, manifestações do poder de quem os contruíu, quer consideremos a comunidade como um todo, quer apenas as eventuais elites que teriam dirigido os trabalhos e tomado as decisões.

Num outro nível, os menires parecem proclamar o poder de uma nova ideologia, em fase de afirmação, alicerçada numa valorização do trabalho colectivo; esta tipo de organização laboral, era certamente indispensável, como etapa prévia, à instalação, num território economicamente difícil, de uma economia de base neolítica.

O contexto ideológico acima esboçado não esgota o potencial simbólico dos menires; os símbolos têm vida própria e são capazes de gerar analogias que, sem a sua mediação, seriam menos óbvias.

É, por exemplo, perfeitamente possível que as evocações fálicas dos menires, tenham tido, aos olhos dos construtores de menires, uma leitura semelhante à que os arqueólogos modernos fizeram. Mesmo sem ter sido, se é que não foi, concebido como um símbolo fálico, o menir faz um contraponto muito sugestivo com a simbologia uterina que, bem ou mal, se pode igualmente reconhecer nas antas (Giot et al., 1998). Descontando as eventuais questões de ordem psicanalítica, não é muito óbvia a associação automática entre os cultos da fecundidade ou da fertilidade e as preocupações específicas das sociedades agropastoris; a fecundidade e a fertilidade, tal como a sazonalidade dos recursos (calendários económicos), são igualmente questões do dia a dia dos caçadores-recoletores.

A sexualidade como fonte de símbolos parece, em todo o caso, bem documentada na arte paleolítica, mesmo que não se aceite, na íntegra, o esquema estruturalista de André Leroi-Gourhan (Gourhan, 1983: 91); por outro lado, as recentes revisões sobre o significado de alguns temas gravados nas estelas do Morbihan, recuperaram, de certo modo, a ideia da sexualização dos símbolos (Cassen et al., 2000), tal como os trabalhos de David Calado, sobre a iconografia dos menires algarvios (Calado, 2000a), na linha de antigas propostas de

Victor S. Gonçalves, em que este autor chamou a atenção para “o sincretismo entre o princípio masculino e feminino” de alguns deles (Gonçalves, 1992: 214).

Os recintos (e eventualmente também os menires isolados) eram, supostamente, reconhecidos e utilizados como lugares sagrados, onde provavelmente seriam celebrados rituais e cerimónias públicas: as orientações astronómicas dão-nos, a este respeito, algumas indicações sobre os calendários que, presumivelmente, regiam esses acontecimentos.

As plantas em ferradura dos recintos que, como referi, parecem aludir a formas elementares da organização do espaço humano, e que, possivelmente se inspiraram em modelos mesolíticos, simbolizavam, eventualmente, a casa dos mortos, significado que nas arquiteturas dolménicas se parece consolidar.

A inspiração de monumentos funerários neolíticos nas arquiteturas domésticas é, desde meados do século vinte, uma ideia enraizada na pré-história europeia, com base, sobretudo na semelhança formal entre as estruturas habitacionais, de planta trapezoidal, características do neolítico da Europa central e os túmulos longos de morfologia análoga (Cassen et al., 1998: 66).

A s plantas em ferradura das sepulturas submegalíticas, orientadas por preceitos idênticos aos que se observam nos recintos, são, elas próprias, mais simbólicas do que funcionais, uma vez que, apesar da abertura a nascente, os defuntos eram depositados, tal como nas cistas, a partir do topo.

A aparente sequência evolutiva em que as antas de corredor curto antecedem as de corredor longo, reforçada por dados recente (Gonçalves, 2003: 224), sugere, por sua vez, a permanência, ao longo do IV-III milénios a.C. de um núcleo irredutível de ideias, esboçadas ou presentes, desde os alvores do Neolítico. Na verdade, são elas que dão ao megalitismo, nas suas diversas facetas, uma unidade que está muito para além de um certo ar de família que, a priori, justificou a inclusão de antas e menires na mesma categoria genérica.

12.3. Os primeiros construtores de menires

A informação cronológica disponível (Capítulo 9) permite atribuir os primeiros menires alentejanos ao Neolítico antigo e, dentro deste, possivelmente a uma fase inicial; alguns indícios sugerem mesmo fortes relações com as sociedades do Mesolítico final, em concreto as sociedades de pescadores-caçadores-recoletores dos concheiros do Tejo e do Sado.

Posto isto, torna-se indispensável revisitar, numa nova perspectiva, os principais modelos em debate, relativos à transição Neolítico/Mesolítico, no ocidente peninsular, e as implicações dessas propostas na realidade específica do Alentejo Central.

O panorama resume-se ao velho dilema entre o modelo colonialista, com raízes profundas no pensamento arqueológico de meados do século vinte, e o modelo indigenista, numa forma mitigada, em que se assumem processos de difusão cultural, por mecanismos de contacto entre comunidades mais ou menos contíguas, uma vez que as propostas de neolitização autóctone, independente dos contributos oriundos do Mediterrâneo oriental, apesar de algumas reincidências (David Calado et al., 2004), não parecem resistir à revisão dos contextos em que as datas mais antigas foram obtidas (Fortea e Martí, 1984-1985; Zilhão, 1992; 1998).

Nos últimos anos, o avanço da investigação tem demonstrado, em várias frentes, a complexidade das questões relativas à transição Mesolítico-Neolítico, no território português, e suscitado correcções ou adaptações às formulações iniciais daqueles modelos (Sanches, 1997; 2000; Valera, 1998; Calado, 2002d; Bicho et al., 2000; Bicho et al., 2002; Carvalho, 2002; Monteiro-Rodrigues, 2000; 2002; 2003; Diniz, 2004). Trata-se, em todos os casos citados, de propostas decorrentes de estudos regionais, condicionadas, portanto, por dados que correspondem, provavelmente, a situações históricas distintas e cujo contributo não se pode, automaticamente, generalizar.

Ao contrário do que seria de esperar, atendendo aos dados que, nos últimos anos, têm vindo a lume, estão praticamente ausentes, nos diversos modelos e variantes, as questões relacionadas com aspectos rituais e simbólicos, nomeadamente as que se referem à construção de monumentos, considerada, sem qualquer discussão, um fenómeno mais tardio.

A situação parece remeter, com as devidas adaptações, para a observação irónica de Richard Bradley de que “na literatura, no seu conjunto, agricultores de sucesso têm relações sociais uns com os outros, enquanto os caçadores-recoletores têm relações ecológicas com avelãs” Bradley, 1994: 11). Entre nós, efetivamente, Mesolítico e Neolítico antigo partilham, por convenção que nem a arte rupestre, funcionando num verdadeiro universo paralelo, consegue diluir, uma estranha ausência de dimensão simbólica.

Por outro lado, está igualmente omissa, em praticamente todas as propostas, a possibilidade de contatos, no contexto da neolitização do Ocidente peninsular, em alternativa das habituais rotas mediterrânicas.

É interessante observar que os fundamentos de indigenistas e colonialistas (Soares e Silva, 1979; Silva e Soares, 1981; Silva, 1989; Soares, 1992; Soares; 1995; Silva, 1997; Soares e Silva, 2003; Zilhão, 1992; 1993; 1995; 1998; 2000; 2001) tiveram, como pontos de partida, objectos de estudo totalmente diferentes: Carlos Tavares da Silva e Joaquina Soares, que foram os principais promotores do modelo indigenista, construíram-no com base nas prospecções e escavações desenvolvidas na Costa Sudoeste, sobretudo no povoado de Vale Pincel 1, nos anos setenta do século passado; em contrapartida, João Zilhão forjou o seu modelo de difusão démica, que serve de referência às restantes variantes entretanto surgidas, com base nos dados da Estremadura e, mais exatamente, da escavação da Gruta do Caldeirão, obtidos maioritariamente na segunda metade da década seguinte.

A discussão, por vezes acalorada, que os promotores destes dois modelos têm vindo a travar, em defesa, entre outros aspectos, da maior antiguidade dos respectivos sítios (ou conjuntos de sítios) de referência, remete, aparentemente, para os laços afetivos que tendem a estabelecer-se entre os investigadores e os seus objetos de estudo; fora disso, a disjuntiva entre indigenismo e colonialismo, que tem sido um lugar comum na maior parte das regiões neolíticas europeias, mesmo naquelas em que a investigação de campo reuniu doses consideráveis de informação pertinente (Dennel, 1985; Whittle, 1995; Thorpe, 1996; Tilly, 1996; Pluciennik, 1998; Zvelebil, 1998; Arias et al., 2000; Barnett, 2000; Cooney, 2000; Zvelebil e Lillie, 2000; Marchand, 2003), está provavelmente longe de ser resolvida. Os dados disponíveis permitem várias leituras alternativas e houve certamente uma multiplicidade de situações que não facilitam a vida aos modelos demasiado abrangentes.

A adopção de uma ou outra destas propostas depende, em primeiro lugar, das preferências teóricas de cada um e, em segundo lugar, das contingências da informação disponível que constitui, em cada momento, o “estado da arte”.

Dentro destas, interessa-me em particular a proposta, recentemente apresentada por Mariana Diniz (Diniz, 2004), que partiu do estudo de uma realidade concreta – o povoado do Neolítico antigo da Valada do Mato – para uma reflexão sobre a neolitização do Alentejo interior.

M. Diniz, mesmo aceitando, no essencial, as premissas teóricas da difusão démica, reclamou, para o Alentejo Central, o estatuto de enclave neolítico – estatuto que, nas propostas de J. Zilhão, mesmo nas suas formulações mais recentes, seria exclusivo da Estremadura e eventualmente, do Algarve. Foi igualmente questionado o carácter retardatário da neolitização do interior peninsular, que decorria tanto do modelo colonialista, como do modelo indigenista, e que os elementos cronológicos disponíveis para a Valada do Mato (Diniz, 2004: 269-270), permitem, até certo ponto, contrariar.

Note-se que a antiguidade da neolitização regional era, na verdade, um dado adquirido desde a publicação da cerâmicas cardiais da Gruta do Escoural, há mais de trinta anos (Santos, 1971); novos trabalhos na gruta confirmaram essa realidade, sugerindo uma ocupação exclusivamente cardial, no interior da cavidade, e outra só com cerâmicas impressas, eventualmente restrita à área da entrada, a que se teria seguido uma terceira fase, no Neolítico final, novamente no interior da cavidade e, aparentemente, no santuário exterior. Esta última parece ser a única em que foi atestado o uso funerário (Araújo e Lejeune, 1995: 75).

A continuidade de ocupação do velho santuário - que, apesar do Coa, continua a ser a única gruta com arte paleolítica, no território português - a partir do Neolítico antigo, não surpreende, uma vez que se conhecem hoje outras evidências de neolitização precoce da região e de uma continuidade, sem hiatos, pelas fases seguintes.

A questão mais importante coloca-se em relação à existência ou não de um nexo de qualquer tipo entre a reocupação neolítica do santuário e as ocupações anteriores; a esta questão, no entanto, os dados disponíveis não permitiram fornecer nenhuma resposta cabal: por um lado, não foi datada a camada estalagmítica que sela os níveis paleolíticos (Ibidem: 41) e, por outro, foi escavada uma camada, estratigraficamente diferenciada “correspondendo a um eventual nível de transição entre os estratos superiores com cerâmica e os inferiores onde predominam os artefatos em quartzo”, onde foram recolhidos “alguns artefatos talhados em sílex (lascas incaracterísticas)” (Ibidem: 27).

Dito de outro modo, sendo relativamente fácil compreender o abandono do santuário durante o “êxodo” do Mesolítico final, é também possível admitir algum tipo de frequentação, mesmo que esporádica, por parte das populações epipaleolíticas que, sabemo-lo hoje, frequentaram o interior alentejano; os vestígios podem estar “camuflados” nos níveis perturbados do interior da gruta ou, em função do tipo de uso do sítio, não se terem sequer depositado. Em todo o caso, a ocupação paleolítica parece estender-se até ao Magdalenense.

Se admitirmos que, mesmo sem uso direto, o santuário rupestre se possa ter conservado no mapa mental dos descendentes dos seus fundadores e primeiros utilizadores, estamos, naturalmente a privilegiar uma perspectiva indigenista. Como alternativa que me parece um pouco menos viável, os portadores das cerâmicas cardiais podiam ser colonos recém-chegados à região (vindos da Andaluzia ou de Valência) e, certamente numa fase inicial, ter redescoberto a gruta - de acesso muito discreto - e reutilizado o santuário dos presumíveis antepassados dos indígenas.

Por outro lado, o estudo detalhado dos artefatos líticos da Valada do Mato (nº 1119) permitiu detectar sintomas inequívocos de alguma identificação cultural com o substrato indígena; essa inesperada promiscuidade, na óptica de um colonialismo puro e duro, foi interpretada com o resultado da absorção, pelos grupos exógenos recém-chegados, assumidos como integralmente neolíticos, de elementos da cultura material mesolítica (Diniz, 2004: 354), na linha interpretativa preconizada, para o Oeste francês, por Grégor Marchand (Marchand, 2003).

Esse fenómeno, designado como aculturação passiva, e integrável num processo mais amplo de “fusão diferencial”, poderia, de acordo com a referida proposta, ser explicável como um resultado de eventuais “fluxos de mulheres que partem de grupos de caçadores-recoletores para ingressarem nos grupos de produtores” (Diniz, 2004: 343).

Arqueologicamente, a aculturação passiva das comunidades neolíticas implica que tenha existido uma fase inicial, por enquanto não detectada na Valada do Mato nem nos outros sítios reconhecidos na região, anterior à absorção dos elementos mesolíticos e em que, por isso, as ditas analogias tecnológicas ainda não estariam presentes; pelo contrário, uma primeira análise dos dados da escavação do Xarez 12, em Reguengos de Monsaraz, sugeriu uma eventual fase mesolítica, estratigraficamente não confirmada ou, em alternativa, um Neolítico antigo que, desde o início, incorpora artefatos de tradição indígena (Gonçalves, 1999; 2002a).

Seja como for, atendendo às relações espaciais privilegiadas, entre os territórios dos concheiros mesolíticos do Tejo e do Sado e a Valada do Mato (que, na verdade, é apenas um ponto numa rede de povoamento particularmente densa), assim como às cronologias aceites para uns e outros, seria sempre de esperar alguma interação entre ambos os lados da fronteira cultural.

No entanto, a chegada, ao Alentejo Central, de colonos neolíticos oriundos de áreas relativamente longínquas, como são a região valenciana ou a Andaluzia oriental, sendo uma possibilidade, não é concerteza a única, nem, na minha opinião, aquela que melhor se ajusta aos dados disponíveis.

O modelo da onda de avanço, em que se concebia um movimento colonizador lento e paulatino, de Leste para Oeste (Ammerman e Cavalli-Sforza, 1984), foi, recentemente, posto em causa, no Mediterrâneo ocidental, com base na revisão das datações publicadas (Zilhão, 2001). De facto, o curto lapso de tempo (não superior a 200 anos) decorrido entre a instalação das primeiras comunidades neolíticas no Norte de Itália ou no Sul de França e no Ocidente peninsular, exigiu, para que o modelo de difusão démica se pudesse manter, o conceito de colonização neolítica de longa distância, por via marítima, traduzido na formação, nos territórios de acolhimento, de verdadeiros enclaves neolíticos. Estranhos numa terra estranha.

Porém, esse tipo de mobilidade, envolvendo a deslocação de grupos de colonos neolíticos, para locais distantes, é, certamente, questionável, tanto mais que é possível conceber alternativas mais “económicas” para explicar os dados arqueográficos.

O paralelismo entre a colonização neolítica do Mediterrâneo ocidental e a colonização das ilhas do Pacífico, com o qual, em última análise, se pretende justificar o modelo (Zilhão, 2001) esquece, a meu ver, os particularismos geográficos que separam os dois fenómenos; refiro-me, nomeadamente, ao facto de, nos espaços que separam os supostos enclaves neolíticos peninsulares, haver certamente territórios disponíveis, mais próximos e implicando, portanto, uma ruptura menos traumática com as raízes e um custo logístico muito inferior.

Desde logo, não se afiguram fáceis de entender, as próprias motivações para a partida, estando, evidentemente, fora de causa as habituais explicações de ordem processual -pressão demográfica/escassez de recursos. Toda a orla mediterrânica tinha, em direção ao interior, possibilidades de expansão (que, ainda no Neolítico antigo, se tornou efetiva) praticamente ilimitadas.

A verdade é que os próprios “enclaves” cardiais, não se localizam propriamente no litoral, ao contrário do que seria de supor para quem, por hipótese, tivesse vindo de barco. O carácter relativamente interior do Caldeirão ou até da Cabranosa e, sobretudo, o da Gruta do Escoural, são, neste quadro, elementos a ponderar.

Por outro lado, se aceitarmos a origem valenciana ou andaluza desses grupos, importa também questionar como foram escolhidos os locais de destino e porquê. Tratava-se, note-se, de uma odisseia sem regresso e, ao mesmo tempo, de colónias sem “metrópole”.

A instalação em territórios desabitados e, segundo parece (Araújo, 2003), densamente florestados, exigiria, da parte desses pequenos grupos pioneiros, um esforço enorme de desbravamento das terras para fins agrícolas e pastoris, tanto maior quanto a distância em relação aos povoados de proveniência implicava um corte radical com a retaguarda logística. 



Fig. 12.1 - Distribuição dos sítios do Neolítico antigo, do Mediterrâneo ocidental, com datas consideradas fiáveis (seg. Zilhão, 1999).

Note-se que, no que diz respeito ao Alentejo Central, em particular, as características geológicas, pedológicas, hidrológicas e, de um modo geral, paisagísticas, eram certamente muito distintas das que os supostos colonos conheceriam em Valência ou na Andaluzia, obrigando a um esforço adicional de reconhecimento e adaptação.

Nestas condições, a retoma de uma atividade agropastoril normal, tendo como termo de comparação os padrões praticados nos povoados de origem, demoraria sempre um certo tempo, durante o qual a qualidade de vida dos grupos seria obrigatoriamente afetada.

Efetivamente, embora fosse possível o transporte, em barcos rudimentares (provavelmente canoas monóxilas), de algumas cabeças de gado, a verdade é que o tempo necessário para refazer, nos territórios colonizados, um rebanho economicamente rentável, seria,certamente, de vários anos.

Por outro lado, a partir das regiões valenciana ou andaluza, é possível, teoricamente, conceber rotas terrestres que tivessem permitido, aos putativos colonos, atingir o Alentejo Central ou mesmo (porque não?) a própria Estremadura. Mais uma vez, o obstáculo imposto pelas paisagens fechadas, que se admite terem acompanhado o óptimo climático atlântico, não favorece, porém, esta hipótese, pelo menos numa fase inicial do processo.

A criação de novos povoados, no contexto do modelo clássico da onda de avanço, não comportava, naturalmente, nenhuma das dificuldades apontadas, uma vez que as novas instalações se implantariam em territórios adjacentes aos povoados-mãe, beneficiando, certamente, em fase de arranque, dessa proximidade.

As causas geralmente admitidas para um tal movimento, inscrevem-se num registo funcionalista que, verdadeiro ou não, não suscita, a priori, grandes objeções: o esgotamento dos solos (ou apenas uma redução da produtividade dos mesmos), como resultado de uma suposta agricultura de queimadas, ou, alternativamente, mecanismos de fissão, como forma de regulação das tensões sociais; uma e outra supõem, em todo o caso, um significativo crescimento demográfico.

Fig. 12.2 - Distribuição do povoamento do Mesolítico final, no Centro-Sul de Portugal (seg. Araújo, 2003: 103).

Fig. 12.3 - Principais correntes de difusão dos sistemas técnicos neolíticos (seg. Marchand, 2001: 117).

eventualmente religiosa/ideológica (Cauvin, 314-317), não pode, obviamente, ser excluído. Os argumentos invocados por J. Zilhão (e parcialmente adaptados por M. Diniz), em defesa do modelo colonialista, assentam sobretudo nos seguintes aspectos: 

1- ausência de substratos indígenas nos territórios “colonizados” (reproduzindo, aparentemente, embora numa escala diferente, uma das características do Neolítico antigo da Europa central); 

2- diferenças significativas nas técnicas de talhe, entre o Neolítico antigo e o Mesolítico;

3- semelhanças estilísticas entre as formas e decorações das cerâmicas e certos objetos de adorno do Neolítico antigo da Estremadura (e do Alentejo Central) e das presumidas regiões de origem;

4- escassos indícios de neolitização in situ das comunidades mesolíticas locais.

A este modelo de neolitização, tal como tem sido defendido, subjaz uma desvalorização radical do papel das populações indígenas, as quais, nesta perspectiva, teriam aderido passivamente às inovações  oriundas do Mediterrâneo oriental, apenas depois de pressionadas pelos grupos exógenos instalados nas vizinhanças.

Ignora-se um aspecto, muito caro aos indigenistas, que é a profunda transformação que se adivinha nas sociedades mesolíticas mais complexas (Zvelebil, 1998: 25; Zvelebil e Dolukhanov, 1991: 238), no sentido da neolitização, e a própria história das sociedades mesolíticas europeias, dos seus contatos e influências.

Por outro lado, o modelo indigenista, tal como tem sido esboçado, concebeu apenas mecanismos de neolitização in situ, nos quais os concheiros do Tejo/Sado não teriam estado substancialmente envolvidos; esta marginalização voluntária em relação às mudanças que iam alastrando, à sua volta, seria, de acordo com essa leitura, o resultado de condições ambientais particularmente ricas e, portanto, propícias a um certo conservadorismo, com paralelos noutras áreas da fachada atlântica europeia e não só.

O destino dessas comunidades, cujos vestígios revelam uma forte personalidade cultural, seria, a médio prazo, uma estranha extinção sem descendência.

Nessa mesma leitura, pensada a partir da área de Sines, a neolitização do interior teria sido feita a partir dos primeiros povoados neolíticos litorais, de substrato mesolítico, e seria, por natureza, um fenómeno

secundário e “evolucionado”, o que dificilmente se enquadra nas cronologias relativamente antigas (diretas e indiretas), tanto da Estremadura como do Alentejo Central. Esse avanço para o interior, carece, além disso, de uma trama geográfica credível, no que diz respeito à própria paisagem e aos dados arqueológicos que pudessem fazer a ponte. Carece também, pelo menos por enquanto, de motivações razoáveis: não creio concebível que o crescimento demográfico a partir de uns escassos núcleos populacionais instalados no litoral, fosse suficiente para justificar o enxameamento, tanto mais que a tendência, no Neolítico antigo, parece ser de concentração do povoamento em áreas restritas.

Um crescimento demográfico optimista, num povoado como Vale Pincel, teria alimentado, em vários séculos, para além do seu próprio crescimento, a fundação de povoados interiores, como o da Salema; mas para que, em meados do VI milénio, essa expansão tivesse chegado à área de Évora ou de Reguengos, pujante como parece ter chegado, não se afigura suficiente; em paralelo, haveria sempre que encontrar um destino para o povo dos concheiros, cuja extinção ou mesmo diluição, em termos étnicos, parece pouco provável.

A aparente velocidade excessiva com que a neolitização avançou, no Mediterrâneo ocidental afetou também, em menor grau, a ideia de uma difusão percolativa, implicando, em vez das relações lentas de vizinho a vizinho, relações de longa distância.

Na verdade, o cerne da questão parece-me consistir na mobilidade e nos prováveis contatos inter-regionais desenvolvidos pelas populações de caçadores-recoletores do Mesolítico final.

Desde logo, a economia destas populações era, por definição, muito mais apta para suportar deslocações de longo curso. A pesca, a caça e a recoleção poderiam alimentar indefinidamente um grupo de caçadores-recoletores que, em viagem, não precisava de alterar radicalmente os seus modos de subsistência.

Acresce, ainda, o facto fundamental de se tratar de populações cujas aptidões náuticas estariam, em princípio, tanto ou mais desenvolvidas e exercitadas do que as das populações neolitizadas, suas contemporâneas (Patton, 1995: 21). As localizações dos concheiros, nunca longe das margens dos estuários, e alguns indícios de pesca de alto mar são, a este respeito, bastante eloquentes.

As comunidades mariscadoras poderiam, sem grandes dificuldades técnicas, ter estabelecido laços de vários tipos, inclusivé de carácter genético, com populações já neolitizadas ou em vias de neolitização, nas costas andaluzas e valencianas.

É, aliás, bastante plausível que essas relações sejam anteriores à chegada do pacote neolítico (que inclui, para além da pedra polida, da cerâmica, dos ovicaprinos e dos cereais, uma nova ideologia) ao território peninsular (Martí Oliver e Juan-Cabanilles, 1997: 244, 245; Kunst e Rojo, 1999: 262-263).


Fig. 12.4 - Cartografia do avanço da agricultura primitiva e dos cemitérios mesolíticos (seg. Bradley, 1993: 14).



Fig. 12.5 - Zonas de interação na Europa atlântica; A: Neolítico antigo; B: Neolítico final (seg. Bradley, 1997: 24, adaptado).

A navegação e as interações culturais que ela teria suscitado entre grupos mesolíticos e neolíticos geograficamente separados, tem tido, nos últimos anos (e não só) muitos defensores (Bradley, 1997; L’Helgouac’h, 1995; Patton, 1995: 21;Cooney, 2000: 7; Courtin, 2000: 22), embora sob perspectivas cronológicas e culturais distintas; efetivamente, para além de uma navegação de cabotagem, com trajetos mais ou menos longos, existem também indícios seguros de alguma navegação de alto mar: a colonização de Chipre, por grupos do PPNB, a qual teve lugar antes dos inícios do VII milénio a.C. (Cauvin, 1999b), ou, noutro contexto geográfico e cronológico e em menor grau, a neolitização das Ilhas Britânicas, comprovam, sem margem para dúvidas, esse fenómeno.

As semelhanças (em termos de tecnologias líticas e, sobretudo, em termos de rituais funerários) entre os concheiros do Tejo/Sado e os do Golfo do Morbihan (aparentemente, sem escalas intermédias), apesar de terem merecido um ou outro comentário ligeiro, em estudos especificamente dedicados ao Mesolítico português (Roche, 1960; Arnaud, 1987), e mesmo estudos comparativos, no domínio tecnológico (Marchand, 2001b, 2001c), não foram, até à data, suficientemente exploradas, quanto às suas possíveis implicações no processo de neolitização da fachada atlântica.

Por outro lado, as analogias flagrantes entre os menires da Bretanha e do Alentejo, também elas sem paralelos convincentes pelo meio, sugerem contatos diretos, por via marítima. Esses contatos, a terem

realmente ocorrido, seriam, naturalmente, mais lógicos entre as respectivas populações mesolíticas do que entre o Morbihan e o interior alentejano (Calado, 2002).

Como alternativa ao modelo de difusão démica e, sobretudo, à versão mais radical dos enclaves neolíticos, os dados disponíveis para a neolitização do Alentejo Central podem, com vantagem, ser interpretados como o resultado do dinamismo das últimas sociedades de caçadores-recoletores dos estuários do Tejo e do Sado. A singularidade dos menires alentejanos, exige um contexto singular.

Essas sociedades, em vias de sedentarização e de complexificação social, desde, pelo menos, a primeira metade do VI milénio, teriam, nesta perspectiva, estabelecido fluxos de informação em duas direcções: uma, pela fachada atlântica, focada particularmente no Sul da Bretanha e a outra, pela via mediterrânica, estendendo-se, pelo menos, até à região de Valência (Fig. 12.6; 12.7).

As relações entre os concheiros do Tejo/Sado e a região valenciana, são sugeridas, por exemplo, por

analogias tecnológicas entre as indústrias dos estuários portugueses e as de níveis mesolíticos da Cueva

de la Cocina, próxima de Valência (Aparício, 1989: 215).

Fig. 12.6 - Proposta de contactos litorais de longa distância, na transição Mesolítico Neolítico da Europa ocidental.

A presença, mesmo que rara, da cerâmica e a ausência de faunas domésticas (à excepção do cão), nos concheiros, implicam, por um lado, que os seus autores não ignoravam, certamente, as inovações chegadas do Leste e, por outro, que, perante elas, manifestavam um elevado conservadorismo, pelo menos em termos económicos.

Na verdade, as pautas culturais neolíticas devem ter gerado, sobretudo nas comunidades mais complexas, como seriam as dos concheiros do Tejo/Sado, atitudes de adesão e de rejeição, traduzidas em conflitos e clivagens internas, cuja ultrapassagem passaria, eventualmente, pela saída dos partidários da mudança e pela instalação destes em áreas devolutas, na periferia dos territórios tradicionais (Ammerman, 2002: 19). Trata-se, em última análise, dos mesmos fenómenos de fissão que, curiosamente, foram propostos como causas possíveis para as improváveis colonizações marítimas de longa distância (Zilhão, 2001: 14185).

No entanto, parece mais difícil descortinar eventuais causas para a fissão nas sociedades neolíticas do que em sociedades confrontadas com uma profunda revolução cultural.

Os colonizadores do Alentejo Central teriam, nesta óptica, transportado consigo, a partir dos territórios dos estuários, alguns aspectos da cultura material mesolítica e, simultaneamente, os elementos essenciais da economia e da ideologia neolíticas, importados a partir de focos intermédios do Mediterrâneo ocidental. Os menires seriam inovações inspiradas, por um lado, em práticas rituais ancestrais e, por outro, na ideologia veiculada pelo próprio pacote neolítico.

Fig. 12.7 - Proposta esquemática das principais relações interregionais envolvidas na neolitização/megalitização do Alentejo Central.

Note-se que a miscigenação cultural observada na Valada do Mato (nº1119), em que, a par de artefatos líticos e técnicas de talhe, oriundos do fundo cultural autóctone, existem cerâmicas e objetos de adorno, com analogias em áreas relativamente remotas, a ser explicada por fluxos de mulheres entre grupos diferentes, deveria ter-se feito em sentido inverso àquele que foi recentemente sugerido (Diniz, 2004): de facto, parece pouco provável que as mulheres tivessem levado consigo técnicas e tipos de artefactos “ligados à caça e à guerra” (Marchand, 2003: 193) que, em princípio, correspondem a atividades masculinas. Já as cerâmicas ou os objetos de adorno parecem mais consentâneos com a aquisição, por grupos de caçadores-recoletores, de mulheres oriundas de comunidades já neolitizadas.

Outro aspecto em que se pode questionar o sentido da aculturação que a cultura material do Neolítico antigo centro-alentejano evidencia, diz respeito à “natural absorção, dos outros grupos por parte do sistema de maior complexidade social” (Diniz, 2004: 347); de facto, é difícil imaginar nos hipotéticos pioneiros recém chegados, em número reduzido, a um ecossistema mal conhecido e, portanto, mal dominado, uma complexidade social maior do que aquela que, em geral, se reconhece nas populações dos concheiros mesolíticos, instalados, havia vários séculos, num território particularmente favorável, e com índices de sedentarização que os rituais funerários deixam facilmente entrever. Note-se que, segundo M. Zvelebil, as “sociedades de caçadores-recoletores, em algumas partes da Europa, desenvolveram estruturas sociais e estratégias de gestão dos recursos, análogas em complexidade e talvez mesmo produtividade às dos agricultores neolíticos” (Zvelebil, 1998: 25).

Por outro lado, um tal cenário explicaria satisfatoriamente algumas das especificidades do Neolítico antigo do Alentejo Central, como são, por exemplo, os dispositivos rituais com planta em forma de ferradura, para os quais não se conhecem paralelos na Andaluzia ou na região valenciana e que, num contexto de ruptura e de inovação em relação ao modo de vida mesolítico, representariam, talvez mais do que as indústrias líticas, um importante elemento de continuidade cultural.

É certo que a disponibilidade do pacote neolítico deve ter desencadeado outros tipos de respostas, por parte de outras comunidades de caçadores-recoletores locais: num dos extremos do leque, podemos supor uma situação como a que, aparentemente, caracterizou a neolitização da Escandinávia, em que os indígenas, mesmo absorvendo alguns itens do pacote neolítico, resistiram durante largos séculos aos ventos de mudança; no outro extremo, os grupos, eventualmente os menos bem sucedidos, ou que dispunham de menos recursos, agrupados em sociedades mais simples, cuja adesão pode ter sido fácil e sem traumas internos.

A instalação de povoados neolíticos, um pouco por todo o interior da Península, em datas quase tão antigas como as do litoral, exige uma participação ativa da população mesolítica que, por essa altura, se extingue como tal. Mesmo com um crescimento demográfico elevado, as colónias de neolíticos puros dificilmente poderiam ter desempenhado um papel de relevo nos efetivos demográficos envolvidos no processo.

Para além do Alentejo Central onde, num percurso que pode ter demorado séculos, terão “desaguado” as populações dos concheiros do Tejo/Sado, são admissíveis outros fenómenos “de colonização interna”, a partir das mesmas ou, eventualmente, de outras bases mesolíticas.

Quanto ao móbil das eventuais expedições mesolíticas de longa distância, é muito difícil atribuir-lhe fundamentos economicistas.

Trata-se de empreendimentos que, possivelmente, envolviam apenas os segmentos mais jovens das comunidades mesolíticas e que poderiam, por isso, ser explicáveis como simples manifestações do espírito de aventura, ou, atendendo ao grau de dificuldade da operação, como eventuais rituais de iniciação. A aquisição de mulheres seria, como tem sido proposto, um dos objetivos mais pragmáticos e que melhor explicariam a neolitização subsequente das sociedades de caçadores-recoletores, ou parte delas; a existência de mecanismos de circulação de objetos raros, com valor simbólico, pode igualmente justificar as analogias com as cerâmicas ou os objetos de adorno de outras áreas distantes (Godelier, 1996).

Chris Scarre defendeu, num texto recente, a peregrinação como um dos mecanismos responsáveis pela circulação de ideias e artefatos, nas sociedades pré-históricas (Scarre, 2001); trata-se, por definição, de viagens de ida e volta, presentes em sociedades muito diversas, por vezes com funções terapêuticas, cujos fundamentos religiosos incluem, por norma, a visita a lugares sagrados (Barnatt, 2001: 96). A valorização social dos indivíduos que participam em tais viagens tem resonâncias em contextos que nos são relativamente próximos.

Perante a questão da receptividade das sociedades mesolíticas às inovações neolíticas, as posições de indigenistas e colonialistas não diferem muito: todos concordamos que, uma vez exposto, durante um tempo mais ou menos longo, ao contágio, o mundo mesolítico se desmoronou.

Como se deu o contágio e o desmoronamento, é o que está em discussão.

A existência de uma rede de contatos entre comunidades mesolíticas distantes, tornaria virtualmente instantânea a propagação do pacote neolítico, a partir do momento em que uma delas se neolitizasse.

As diferenças cronológicas no processo de mudança, com um claro gradiente de Leste para Oeste, sugerem um tempo de maturação, diferente de umas comunidades para outras, em que as novidades estiveram disponíveis mas não foram adoptadas (Zvelebil e Rowley-Conwy, 1986). A ruptura expectável nas sociedades mesolíticas, corresponde, naturalmente, à fase de substituição, e é nesse contexto, que se pode adivinhar potencialmente tenso, que os mecanismos de fissão poderão ter dado origem ao (re)povoamento do Alentejo Central.

A construção dos menires sugere uma sociedade coesa, motivada, empenhada em exibir as suas capacidades, num ambiente de ruptura e inovação e num território que pretende tornar seu e domesticar.

Tem-se escrito muito, nos últimos anos, sobre as diferenças de fundo entre os modo de vida mesolítico e neolítico. Para além das importantes clivagens, em termos de quotidiano, entre as economias de caça e recolecção e as chamadas economias produtoras, implicando a introdução de novos artefatos (de que o machado e o báculo são emblemas privilegiados e onde a cerâmica desempenha igualmente um papel prático e simbólico importante), surgem novos hábitos alimentares (sobretudo o cereal e o leite), novos conceitos de organização social e laboral e uma nova relação com a Natureza; estas mudanças foram, necessariamente, traduzidas numa estrutura simbólica renovada.

O cruzamento de dados selecionados da literatura etnográfica, com algumas projeções, na pré-história, de velhas questões com que se debate a civilização ocidental, contribuiu para a construção de uma imagem de bom selvagem, com que os homens do Mesolítico têm sido retratados.

Porém, não é certo que os concheiros tenham sido o Paraíso terrestre e o comunismo primitivo pode ter que recuar até ao Neanderthal, mas admite-se, nessas sociedades, um modo de vida e um sistema de crenças mais conservacionista, menos empreendedor do que a proposta revolucionária que acabou por se impor.

Um dos aspectos que caracterizam, muitas vezes, as sociedades de caçadores-recoletores, mesmo as mais prósperas, ou, sobretudo, essas, parece ser o desenvolvimento de mecanismos de nivelação social, através de limitações à acumulação de riquezas (Zvelebil, 1998: 6; Godelier, 1996).

A intensidade do processo de neolitização do Alentejo Central, evidenciada na construção de um conjunto de monumentos, único à escala peninsular, é diretamente proporcional à complexidade relativa do Mesolítico do Tejo/Sado. Concheiros funerários e menires, no Tejo/Sado e no Morbihan, correspondem, provavelmente, a binómios paralelos, os elementos mais visíveis de uma sociedade em vias de mudança.

Trata-se, a confirmar-se esta proposta, não propriamente de uma neolitização instantânea, mas de uma substituição instantânea. O grupo que ontem era ainda mesolítico, hoje, recém instalado num mundo todo por fazer, traz consigo um projeto que o torna profundamente neolítico. Neste sentido, pode falar-se, com alguma propriedade, de uma verdadeira Revolução Neolítica.

Procura-se, em última análise, encontrar um caminho intermédio entre a quietude do modelo evolucionista e a exaltação épica dos “pioneiros” orientais.

12. 4. As sequelas

A maior parte dos menires europeus parece corresponder a fases avançadas da instalação das sociedades camponesas, mesmo atendendo aos ritmos diferentes em que isso aconteceu, nas diversas áreas; esse retardamento está bem confirmado nos diversos grupos de estátuas-menires que predominam na Europa mediterrânica (D’Anna, 2002) e é também a norma nos menires, geralmente anicónicos, das Ilhas britânicas (Burl, 1999), assim como, aparentemente, nos escassos exemplares escandinavos (Larsson, 2004).

Do mesmo modo, mesmo na Bretanha ou na Península Ibérica, uma boa parte dos menires foi provavelmente erguida entre o Neolítico final e a Idade do Ferro.

Estamos, antes de mais, perante o fenómeno da longevidade dos símbolos de que o báculo talvez seja o exemplo mais paradigmático; por outro lado, é pouco provável que os significados e funções dos primeiros monumentos se tenham mantido inalterados, uma vez que os contextos mudaram profundamente.

De certo modo, a permanência dos mesmos símbolos religiosos durante largas centenas ou mesmo milhares de anos, atravessando barreiras culturais, étnicas, linguísticas e outras, é-nos perfeitamente familiar. No limite, os menires inauguraram uma prática, a da representação tridimensional da figura humana, em escala natural (em muitos casos, maior que a natural), a que a estatuária continuou e continua a dar atualidade.

A quantidade (e a variedade) assinalável de monumentos meníricos, nas Ilhas Britânicas, e a ampla dispersão no território, implicam, por um lado, uma larga diacronia e, por outro, remetem para épocas em que extensas áreas do território se encontravam já ocupadas por sociedades agropastoris.

A realidade do Alentejo Central parece ser muito diversa. É claro que houve menires tardios (pelo menos na Idade do Ferro) e é seguro que alguns dos menires neolíticos se mantiveram (ou voltaram a estar) em uso, até épocas proto-históricas, como demonstram os casos de S. Sebastião (nº 8) ou da Belhoa (nº 44). No entanto, a construção de menires parece ter-se concentrado num patamar cronológico relativamente estreito, aspecto que se deduz da variabilidade relativamente reduzida dos monumentos, da escassa quantidade global e da própria contenção geográfica. Por razões que importa averiguar, enquanto noutras áreas da Europa continuam a erguer-se menires, porventura mesmo com mais intensidade, no Alentejo Central (tal como no Algarve e, aparentemente, na Vendeia (Beneteau, 2000: 301), o impulso inicial parece ter esmorecido, com um ou outro avivamento pontual.

Na Bretanha, pelo contrário, assistiu-se a uma fase inicial de grandiosidade única que se desenvolveu sob novos formatos, mas igualmente notáveis.

No Sudoeste peninsular, os menires foram provavelmente substituídos, em termos rituais e simbólicos, pelos monumentos megalíticos funerários e pelos seus conteúdos; estas construções reproduzem, porventura numa escala ampliada, as dificuldades técnicas envolvidas na construção dos menires, e parecem dar continuidade a algumas das funções sociais que lhes costumam ser imputadas: marcação e domesticação das paisagens, exaltação de elites, demonstração de capacidade laboral, entre outras.

A antropomorfização dos símbolos a que, supostamente, subjaz uma visão antropocêntrica do mundo, continua, sob novas formas, na cultura dolménica: as placas de xisto que provavelmente nasceram no Alentejo Central e daqui irradiaram, parecem ter herdado um certo protagonismo regional, num processo em que o antigo santuário do Guadiana pode ter tido, desta vez, um papel central.

Os báculos de xisto são, por outro lado, um dos elos de ligação mais sugestivos, entre os menires e as antas e, na minha opinião, uma das causas de alguma confusão cronológica entre uns e outros.

Na verdade, creio que o báculo de xisto representa a continuidade do símbolo gravado nos menires, agora graficamente mais estilizado e, por isso, mais distante do objeto funcional que funcionou como referente.

A decoração dos artefatos votivos, em que predominam as soluções angulosas, afasta-se claramente dos cânones estéticos patentes nos menires (ou das cerâmicas do Neolítico antigo) e o próprio suporte - o xisto laminar - evoca paisagens onde os menires estão ausentes.

Os dados, ainda inéditos, das escavações no povoado das Águas Frias(nº1465), apontam, sem margem para dúvida, para a existência de um centro produtor de placas de xisto, o único até agora identificado, pelo menos com uma tal exuberância de dados: efetivamente, foram recolhidas largas dezenas de placas de xisto, em todas as fases de fabrico, exceto produtos acabados (Fig. 12.9). A posição geográfica do sítio, com cronologias relativas da segunda metade do IV milénio a.C., aponta fortemente para uma relação, de ordem eventualmente ritual, entre o fabrico de placas de xisto e a proximidade dos núcleos mais importantes do santuário rupestre do Alqueva (Fig. 12.10).

Na verdade, as mesmas bancadas de xisto do leito do Guadiana em que foram feitas as gravuras do Alqueva (Fig. 12.8), poderiam ter fornecido a matéria-prima - com implicações simbólicas fáceis de suspeitar - das placas de xisto fabricadas no povoado; por outro lado, a escavação, já referida, de dois outros povoados de fossos, artefatual e estruturalmente análogos às Águas Frias - Juromenha 1 (nº876) e Malhada das Mimosas 1 (nº882), onde não foi recolhida uma única placas de xisto, sugere, efetivamente, uma especialização daquele povoado, a que não deve ser alheia a proximidade privilegiada com o antigo santuário rupestre.

Neste contexto, é curioso e, por ora, difícil de explicar, o vazio quase absoluto de antas nas proximidades das Águas Frias (Fig. 12.11).

Os próprios círculos radiados (os olhos de sol) que constituem um dos elementos mais figurativos da gramática decorativa das placas de xisto - e das cerâmicas do Neolítico final/Calcolítico - podem ser reflexos da continuidade do mesmo símbolo que, de uma forma muito explícita no caso da Belhoa, domina o campo iconográfico do menir (Gonçalves, 1992: 218). A confirmação das orientações astronómicas dos menires torna, naturalmente, mais plausível a origem antiga deste símbolo e a sua permanência em contextos posteriores.

Outro dos elementos que poderá, de alguma forma, implicar a continuidade, no Neolítico final/Calcolítico do Sul peninsular, de símbolos que surgiram, pela primeira vez, nos menires, são as lúnulas que, como artefato votivo ou gravadas nos chamados ídolos cilíndricos, ocorrem, com alguma frequência, nas necrópoles do Maciço Calcário estremenho.

As mudanças, a nível regional, entre o Neolítico antigo/médio e o Neolítico final/calcolítico são muito sensíveis e vão muito para além da substituição dos menires pelas antas: os grandes povoados de fossos, inseridos num movimento que englobou todo o SW peninsular e instalados finalmente em solos de elevado potencial agrícola, sugerem um pleno desenvolvimento do modo de vida neolítico.

A presença pontual de cerâmicas de tradição antiga, nomeadamente cerâmicas impressas, em alguns dos povoados de fossos escavados, como acontece em Juromenha 1, ainda inédito, em La Pijotilla (Hurtado, 1984) ou no povoado do TESP 3 (Gonçalves, 1990-1991), aponta para uma filiação indígena dos fundadores dos mais antigos desses povoados. A continuação de alguns deles (os maiores) ao longo de todo o calcolítico, a par do aparecimento dos pequenos povoados com muralhas de pedra, com culturas materiais virtualmente indestrinçáveis, não me parece apoiar a tese dos invasores calcolíticos, metalurgistas e iconoclastas que teriam trazido consigo novas divindades, traduzidas iconograficamente nos símbolos solares (Gomes, 2002).

Fig. 12.8 - Aspecto das bancadas de xisto, na área da Casa da Moinhola (Foto Rafael Henriques).


Fig. 12.9 - Águas Frias: esboços de placas e placas inacabadas.

A óbvia interação que certamente existiu ao longo das costas do mediterrâneo, no terceiro milénio a.C., traduzida, entre outros aspectos, na construção de muralhas e bastiões, desde Chalandriani até ao Zambujal, é provavelmente anterior: um dos fossos do povoado das Águas Frias (Fig. 6.40), colmatado no neolítico final, apresenta uma planta curiosamente semelhante à das muralhas calcolíticas...


Fig. 12.11 - O povoado das Águas Frias e o megalitismo funerário do Alentejo Central.

Fig. 12.10 - O povoado das Águas Frias e as manifestações de arte rupestre, no Alentejo Central.

As próprias comparações entre as placas de xisto e as paletas egípcias pré-dinásticas, ou entre os báculos e motivos gravados nas ditas paletas (Leisner e Leisner, 1951: 129-138), hoje caídas em desuso, poderiam ganhar um novo alcance se assumirmos uma corrente mediterrânica, nos dois sentidos, liberta das obrigatoriedade do ex oriente lux.

O alastramento das redes de povoamento, para fora das paisagens graníticas do Alentejo Central, afetou primeiro os melhores solos agrícolas, até aí ainda devolutos - numa data ainda incerta, mas provavelmente por volta de 4000 a.C. - e, a partir dos inícios do terceiro milénio, um pouco para todo o lado.

Em boa parte deste processo não deve estar ausente um fator clássico das abordagens funcionalistas: o crescimento demográfico. Em paralelo, et pour cause, uma acentuada complexificação social e sérios indícios de competição intercomunitária, marcam certamente uma nova era. Os velhos menires, nesta fase, estão moribundos e muitos deles mesmo enterrados.

Nos recintos dos Almendres, de Vale Maria do Meio ou do Xarez, apesar da monumentalidade excepcional de cada um, não ficaram traços que sustentem qualquer tipo de continuidade de uso e, nos novos territórios para onde enxameou, a partir do Neolítico final, o povoamento pré-histórico da região, não parecem ter sido construídos novos monumentos meníricos.




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Abstract

     Este trabalho corresponde ao Volume 1 de uma Tese de Doutoramento, defendida na FLUL, em 2005 e aprovada por unanimidade. O júri, como ...