Capítulo 13: Para concluir

 O que sabemos ou julgamos saber sobre os menires do Alentejo Central e as sociedades que eles representam, continua a assentar numa base factual muito limitada e heterogénea. Neste cenário, que, previsivelmente não se alterará nos tempos mais próximos, é legítimo e salutar conceber soluções diferenciadas e tê-las em conta na avaliação dos novos dados e na própria gestão da investigação futura. Fechar os olhos a possibilidades alternativas, nesta fase, por muito coerente que seja cada uma das propostas, acarreta, certamente, riscos desnecessários e pode fazer-nos chegar, de forma perversa, a becos sem saída. Significa isto que é importante manter em aberto avenidas interpretativas distintas (e mesmo contraditórias).

As limitações dos dados disponíveis exigem prudência, porque são eles que determinam o horizonte das conclusões possíveis que, por sua vez e por princípio, estarão sempre sujeitas a novos testes e revisões.

Antes de mais, a atribuição da maior parte dos menires e, dentro destes, dos monumentos mais imponentes, ao Neolítico antigo, obrigou a um olhar muito diferente sobre a história da neolitização do Alentejo Central. O quadro das relações geográficas envolvidas no processo, alargou-se, para Norte, à fachada atlântica europeia e os grupos mesolíticos (ou pelo menos os mais dinâmicos) ganharam um protagonismo acrescido.

É certo que este protagonismo, sendo mais fácil de encaixar nas perspectivas indigenistas, nem sequer é, necessariamente, contraditório com o modelo dos enclaves neolíticos: o papel dos presumíveis colonos, ter-se-ia, em última análise, diluído num substrato indígena forte, responsável por uma interpretação original das novidades oriundas do Mediterrâneo oriental, em articulação com um fundo cultural de claras afinidades atlânticas.

Neste processo, não devemos também negligenciar o facto de os caçadores-recoletores do Tejo e do Sado apresentarem alguns dos sintomas das inovações que, no Próximo Oriente, prepararam o terreno para a emergência da economia agropastoril. Note-se, por outro lado, que o reconhecimento de mecanismos de contacto direto de longa distância, com eventuais consequências genéticas, permite relativizar os resultados, sejam eles quais forem, dos estudos genéticos comparativos, entre as populações mesolíticas e neolíticas.

Jean Guilaine, adepto de uma neolitização de tipo intrusivo, embora com “deslocações limitadas” , sublinha, num texto recente, que “ a Europa não era um deserto quando se difundiram as primeiras comunidades de agricultores”, uma vez que “as populações indígenas, descendentes das brilhantes civilizações paleolíticas, povoavam o antigo continente” (Guilaine e Zammit, 2001: 125).

Com ou sem colonos, uma leitura integrada dos dados disponíveis permite entrever o carácter eminentemente indígena do Neolítico alentejano.

Metaforicamente, poderia afirmar-se que, em termos rituais, o Neolítico não fez mais do que acrescentar neologismos a uma linguagem pré-existente; em termos sociais e económicos, esta continuidade manifesta-se nas experiências em curso, desde os inícios do VI milénio a.C., no sentido da sedentarização e da complexificação social.

O Alentejo Central surge, por outro lado, como uma área geograficamente coerente com os estuários do

Tejo e do Sado; litoral e interior são, no contexto histórico que parece ter gerado os menires, concebidos

como as duas faces da mesma moeda. Trata-se de realidades paisagísticas radicalmente distintas e, em muitos aspectos, mesmo contrastantes. A uni-las, uma rede de caminhos naturais (rios e festos) e, eventualmente, memórias mais antigas, materializadas, por exemplo, no santuário rupestre do Alqueva (e, eventualmente, na Gruta do Escoural) e que remetem para a presença, anterior à litoralização do povoamento, de grupos paleolíticos e epipaleolíticos, no interior alentejano. As noções de limites e fronteiras, com repercussões simbólicas não negligenciáveis (Barnatt, 2001: 96), sobretudo se olharmos a partir dos estuários, parecem ter estruturado a distribuição dos monumentos e sítios, pelo menos numa primeira fase; povoados e menires parecem refletir um protagonismo da própria paisagem, numa forma de discurso simbólico em que o Homem domestica o Céu e a Terra, submetendo-se às suas formas e ritmos.

Em textos anteriores, defendi a separação entre megalitismo funerário e não funerário e, partindo de uma anterioridade relativa dos menires no universo megalítico local, avancei a ideia de que o megalitismo, como fenómeno simbólico, só numa fase avançada, se teria “deslocado” do mundo dos vivos para o mundo dos mortos (Calado, 2000a). No entanto, mesmo sem evidências indiscutíveis e com outras aparentemente contraditórias, os menires parecem, desde o início, relacionar-se com o culto dos antepassados; o que falta, certamente, é definir as modalidades desse relacionamento.

A possibilidade da construção simultânea de recintos e antas, não deve ser definitivamente afastada, sobretudo se atendermos às indefinições das fases terminais de uns e iniciais das outras. Porém, de um modo geral, parecem excluir-se espacialmente; os próprios casos, ainda raros e discutíveis, de menires reutilizados em antas, sugerem também alguma exclusão. Na verdade, é seguro que antas e menires coexistiram nas mesmas paisagens e mesmo que, como parece, não se tenham construído novos menires, alguns dos que sobreviveram mantiveram provavelmente alguma função na estrutura simbólica da paisagem dolménica.

De um modo geral, a substituição dos menires pelas antas, no Alentejo Central, pode ser interpretada como uma evolução no seio da própria monumentalidade megalítica; os monumentos, em vez de representarem os antepassados, passam a conter os seus restos mortais; trata-se, de certo modo, da passagem de uma forma embrionária de escultura/estatuária para aquela que é, certamente, uma das mais antigas formas de arquitetura ritual.

Esta passagem pode ter, e provavelmente tem, caminhos complexos. Por um lado, podemos supor uma evolução a partir das pequenas sepulturas, em ferradura ou retangulares/trapezoidais, que parecem, nalguns casos mas não em todos, anteceder os verdadeiros sepulcros megalíticos e, por outro, uma conjunção com o saber fazer adquirido na ereção de menires.

Algumas datas de monumentos de corredor do Centro-Oeste francês, a confirmarem-se, sugerem uma eventual origem das grandes arquitecturas funerárias megalíticas nessa área. A chegada, aparentemente tardia (Gonçalves, 2003c), desse modelo, ao Alentejo Central, pode ter implicado, desta vez, um movimento lento, de capilaridade (Jorge, 1999; Balbín e Bueno, 2002), muito diferente daquele que as semelhanças entre os menires bretões e alentejanos, sem paralelos no espaço geográfico que os separa, parecem traduzir. Note-se que, no Norte da Península, dispomos atualmente de datas para monumentos funerários (alguns deles, mais megaxílicos que propriamente megalíticos) bastante anteriores às datas disponíveis para o megalitismo funerário do Sul de Portugal (Blas, 2000: 223).

A interiorização do povoamento e o abandono dos concheiros teriam, logicamente, contribuído para essa mudança global.

Por outro lado, a reocupação sistemática do interior peninsular, ainda a partir do Neolítico antigo, e a expansão dessas comunidades, num quadro de prosperidade económica e de crescimento demográfico, criou, finalmente uma rede de povoamento contínua, ou quase, que facilitaria a transmissão de ideias, modas e produtos, sem necessidade de viagens de longo curso.

Se o início da construção dos menires se pode encaixar na crise vivida pelas comunidades mesolíticas mais dinâmicas e nos fenómenos de fissão que daí teriam resultado, o abandono dos monumentos e a transferência do investimento coletivo para outras arquiteturas, mais complexas e mais ubíquas, parece corresponder a outra crise. Trata-se, num primeiro momento, do fim das disputas e tensões ideológicas que se subentendem por detrás da sobrevivência, até à primeira metade do V milénio a.C., dos últimos caçadores-recoletores renitentes às mudança; a esta situação global, em que o novo status quo se impôs definitivamente, seguiu-se, aparentemente, uma crise de crescimento, despoletada pela explosão demográfica e pelas novas possibilidades e exigências decorrentes de um melhor conhecimento do território e do respectivo potencial agrícola e pela consolidação de um sistema económico plenamente produtor.

Nesta fase, a região manteve uma personalidade cultural muito forte, traduzida na construção de antas de inexcedível monumentalidade, como é o caso da anta do Zambujeiro (nº3); esta, localizada no mesmo enquadramento micro-paisagístico que os Almendres (a bacia da ribeira de Valverde), surge, possivelmente, como um substituto do recinto megalítico, numa época em que ele deveria já ter entrado em declínio.

Em termos regionais, essa herança parece ter-se materializado na irradiação de um ícone tão bem sucedido, no tempo e no espaço, como foi a placa de xisto.

Uma certa recentragem ritual da região, num território (o dos xistos) a que o Neolítico antigo tinha sido alheio, sugere um movimento pendular, desses que a focagem na longa duração atesta, em inúmeros registos, traduzido no regresso, depois da “experiência” dos festos, às paisagens fluviais.

Por fim, o protagonismo do santuário ancestral, eventualmente interrompido durante o Mesolítico e durante a fase de construção dos menires, renova-se, expande-se e expande aparentemente o seu raio de ação, através da exportação das placas de xisto e dos báculos; trata-se, porventura, de um fenómeno que bem conhecemos na nossa história recente: após os excessos das revoluções, por mais iconoclastas que tenham sido, muitas das antigas crenças e dos velhos santuários renascem ou recuperam vigor.

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Abstract

     Este trabalho corresponde ao Volume 1 de uma Tese de Doutoramento, defendida na FLUL, em 2005 e aprovada por unanimidade. O júri, como ...