Capítulo 5: As escavações



5.1.Introdução

A escavação de menires não constitui, em geral, um trabalho muito compensador. A ausência ou, pelo

menos, a escassez de artefatos associados a este tipo de monumentos, tem sido, como referi, um dos motivos

mais imediatos de algum desinteresse dos investigadores. As próprias datações radiocarbónicas, de uso quase universal, são dificilmente aplicáveis aos menires, uma vez que as associações entre estes e os materiais orgânicos passíveis de datação podem ser, e têm sido, justamente questionadas; efetivamente, qualquer material recolhido, por exemplo, no interior dos alvéolos de implantação dos monólitos pode, teoricamente, ser muito anterior à abertura dos mesmos.

Em contrapartida, o carácter por vezes muito monumental dos menires e recintos e o facto de, em Portugal, a maioria dos monólitos se encontrar tombada, têm constituído um estímulo para a realização de escavações, cujo objetivo mais imediato é a obtenção de dados que permitam o restauro dos monumentos.

No que respeita aos exemplares a seguir apresentados, esta vertente de valorização patrimonial não esteve ausente e, em três dos casos, os trabalhos culminaram mesmo com a anastilose dos menires. No entanto, os critérios que presidiram à seleção dos sítios a intervencionar foram, prioritariamente, de ordem científica; procurei, por um lado, estudar sítios de diferentes tipos (recintos megalíticos morfologicamente distintos, par de menires e menir isolado) e que, ao mesmo tempo, se distribuíssem de uma forma equilibrada no território do Alentejo Central (um recinto e um par de menires, no concelho de Évora, um recinto e um menir no concelho de Montemor-o-Novo e um recinto em Pavia).

Em termos de metodologia geral, foi importante ter em conta a escassez de artefatos observada na escavação dos Almendres, no final dos anos oitenta; esse aspecto exigiu a utilização de métodos de escavação particularmente minuciosos, incluindo a crivagem sistemática das terras. Essa opção permitiu reunir, em todos os sítios escavados, um conjunto diminuto, mas nem por isso menos significativo, de artefatos associados aos monumentos.

Foram detectados, por outro lado, problemas tafonómicos comuns a todos os sítios: mesmo quando os alvéolos dos menires se conservaram total ou parcialmente, o certo é que em nenhum caso sobreviveram estratigrafias positivas.Os materiais provêm, pois exclusivamente, ou quase, da camada superficial, afetada por fenómenos naturais e antrópicos de várias origens.

Para além destes cinco sítios megalíticos, foram, nos últimos anos, efectuadas escavações, mais ou menos extensas, nos recintos dos Almendres (nº 1) (Gomes, 1997b; 2002), Portela de Mogos (nº 4) (Gomes, 1997a), Cuncos (nº 7) (Gomes, 1986) e Xarez (nº 6) (Gomes, 2000b), nos menires de Pedra Longa (nº 16) (Gomes, 1989), Barrocal (nº 28) e Vidigueiras (nº 56) (Gomes, 1997d) e ainda no complexo megalítico da Tera (nº 14) (Rocha, 1997, 1999, 2000), todos eles no contexto geográfico do Alentejo Central. Além destes, foram igualmente intervencionados, nos últimos anos, alguns menires isolados e um conjunto de menires (interpretado como recinto), no distrito de Portalegre (Oliveira, 1985; 1997; 1998; Oliveira e Oliveira, 1998; Albergaria e Lago, 1995).

5.2. O recinto de Vale Maria do Meio

5.2.1. A escavação: estruturas e estratigrafia.

O recinto megalítico de Vale Maria do Meio (nº2) foi descoberto em 1993 e foi prospectada a área envolvente em 1994; as escavações decorreram no Verão de 1995, tendo, desde essa data, sido objecto de várias publicações (Calado e Sarantopoulos, 1996; Calado, 1997a; Calado, 2000b).

Antes da escavação, os menires foram numerados de 1 a 33, tendo, no decorrer dos trabalhos, sido descoberto o menir 34.

A maior parte dos monólitos (24) encontrava-se intacta, embora tombada, com maior ou menor inclinação, conservando a base ainda parcialmente implantada no respectivo alvéolo; dos restantes, os menires 12 e 8 estavam fraturados (tendo, entretanto, sido satisfatoriamente restaurados), enquanto dos menires 7 e 12, restava apenas a extremidade proximal, embora ainda in situ. Os sete restantes (4, 5, 16, 20, 21 e 24) correspondem, mais propriamente, a fragmentos de menires de que não foi possível recuperar conexões, nem estruturas de implantação. Finalmente, nos casos dos menires 1, 13, 14 e 15, apesar de, aparentemente, se encontrarem todos (com a eventual excepção do primeiro) muito próximos da sua posição original e de se conservarem todos intactos, não foi possível detectar vestígios convincentes das respectivas estruturas de implantação.

A escavação abrangeu uma área de mais de trezentos metros quadrados, dividida em oito sectores definidos em torno dos menires e duas sanjas perpendiculares, atravessando longitudinal e transversalmente toda a área do recinto.

            Fig. 5.1 - Numeração dos menires e implantação dos Sectores escavados (seg. Calado, 2000b: 176, corrigida).


                                        Fig. 5.2 - Planta das estruturas de implantação, com sobreposição da planta dos

                                                    menires antes da escavação (seg. Calado, 2000b: 177, corrigida).


Para além dos próprios menires e das respectivas estruturas de implantação, a estratigrafia resumiu-se à camada [1], constituída por terra de cor castanha clara e de matriz mais ou menos argilosa; esta Unidade Estratigráfica revelou-se bastante homogénea em toda a área intervencionada, correspondendo ao horizonte afetado pelas lavouras.

Sob esta camada definiu-se o substrato geológico, na maior parte de teor argiloso, correspondendo certamente ao resultado de processos pedogénicos naturais, anteriores à construção e utilização do monumento, e relacionados com a alteração dos gnaisses subjacentes.

Em vários pontos da área escavada foi possível detectar sulcos de arado no substrato geológico, mais ou menos paralelos às curvas de nível, o que implica que qualquer estratigrafia arqueológica positiva tenha sido inevitavelmente perturbada por ações pós-deposicionais; na verdade, a observação dos alvéolos de sustentação dos menires (em muitos dos quais, reduzidos a uma ligeira depressão, a coroa de sustentação se limitava a um anel de pedras, assente próximo da base do alvéolo) e a sua relação topográfica com a superfície atual do terreno, levam-nos a concluir que não só não se conservaram eventuais estratos de ocupação do monumento, como o próprio solo de ocupação contemporâneo da construção do recinto sofreu fenómenos erosivos, em diversas escalas.

Concretamente, esses fenómenos erosivos tiveram um efeito muito mais profundo na área central e oriental do recinto; na extremidade ocidental, onde se localiza a maior concentração de menires, esses efeitos foram muito paliados, graças, aparentemente, ao obstáculo oferecido pelos monólitos à ação erosiva do arado e ao facto de o declive ser, aí, ligeiramente menos acentuado.

Note-se que, ao que tudo indica (foram registados abundantes vestígios romanos, nas imediações, nomeadamente vários pesos de lagar), a área foi intensamente agricultada desde, pelo menos, o início dos tempos históricos, até aos nossos dias.


Fig. 5.3 - Os menires 9, 10, 11 e 12, tombados para Sul.

                                                       Fig. 5.4 - Os mesmos menires, após o restauro.

Curiosamente, a própria destruição intencional do monumento remonta, no mínimo, a essa época, uma vez quea mutilação de vários menires, dos quais foram deixados, in loco, as extremidades proximais e distais, sugere a utilização das partes mesiais dos monólitos para produção de silhares.

Esta hipótese viu-se reforçada pela descoberta da extremidade distal de um menir, num habitat romano das imediações (cerca de 2 Km a NE do recinto de Vale Maria do Meio).

Foram registadas as estruturas negativas (alvéolos de implantação dos menires e os respectivos conteúdos (coroas de sustentação e terras de colmatação) de 21 menires (2, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 17, 18, 19, 23, 25, 26, 27, 28, 30, 31, 32, 33 e 34). Os alvéolos melhor conservados apresentam um perfil dissimétrico característico, acentuadamente rampado de um dos lados (quase todos, o lado Sul) e abrupto, do outro. A coroa pétrea é inexistente, ou muito rudimentar, no lado mais abrupto e muito robusta no lado oposto. Observou-se igualmente, em todos os casos bem conservados, que os menires tombaram sempre para os lados rampados. Estamos certamente perante técnicas de ereção dos menires muito padronizadas, com paralelos, aliás, em outras regiões megalíticas europeias ( Richards e Whitby, 1997: 239; Beneteau, 2000: 222).

A coincidência da orientação dos lados rampados dos alvéolos, parece indicar a direção de onde seriam provenientes os respectivos monólitos; de facto, no quadrante a Sul do recinto de Vale Maria do Meio existem notáveis afloramentos de granito, a cerca de 300 m, enquanto os tonalitos, com afloramentos menos conspícuos afloram, por seu turno, a Norte do recinto, a uma distância sensivelmente idêntica.

5.2.2. Os materiais

Tendo em conta a relativa extensão da área escavada, os materiais recolhidos foram muito escassos.

Saliente-se que, à excepção da camada superficial (de onde, aliás, proveio a maioria do material e que foi apenas crivada por amostragem) as restantes (os enchimentos dos alvéolos) foram integralmente crivadas.

Fig. 5.5 - Planta das estruturas de implantação identificadas e localização dos materiais recolhidos. (seg.
Calado, 2000b: 178, corrigido).



                                    Fig. 5.6 - Materiais líticos da escavação do recinto de Vale Maria do Meio

                                                                        (seg. Calado, 2000b: 174).

De entre o espólio destaca-se um fragmento de mó manual de vaivém, em granito, recolhido, juntamente com algumas pedras, sob o menir 15 e certamente inserido no interior do alvéolo original; na estrutura de implantação do menir 7, reduzida apenas à parte inferior, identificou-se também um fragmento mesial de um instrumento de pedra polida, de secção arredondada e corpo picotado; infelizmente, este artefato foi saqueado por clandestinos, durante a escavação do alvéolo.

Se exceptuarmos alguns fragmentos de cerâmica muito rolados, em relação aos quais não se pode excluir a hipótese de uma cronologia pré-histórica e alguns artefatos genericamente recentes, o resto do espólio consistiu num conjunto muito diminuto , em relação ao volume de terras escavado, constituído por restos de talhe (alguns com córtex) e artefatos líticos de sílex, de que se destaca uma ponta de flecha transversal, de tipo “Montclus” (Fig. 5.6, nº8).

5.2.3.O monumento e a paisagem

A escavação confirmou, em boa parte, a planta aparente do monumento.

Trata-se de um recinto alongado segundo um eixo mais ou menos perpendicular às curvas de nível, com cerca de 37 m de comprimento por 25 m de largura.

A orientação do eixo maior é sensivelmente W-E, se considerarmos os menires mais oriental (menir 25) e ocidental (menir 12) do conjunto, embora a linha de menires que conforma o lado Sul, muito retilínea, sugira um certo desvio para Norte. Na verdade, conforme já foi sugerido (Silva e Calado, 2004) é possível que existam duas fases de construção independentes, com um recinto em forma de ferradura, num primeiro momento, e uma adição/remodelação, constituída pelo referido troço retilíneo, o qual inflecte quase 90º em relação à curva suave desenhada pelos menires 1, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10 (Fig. 7.2). Este “alinhamento” parece orientado em função da direção do nascer da Lua, na Pausa Menor.

 O monumento apresenta, no lado ocidental, uma notável concentração de monólitos, quase todos de dimensões destacadas, situados junto ao topo de uma elevação muito suave; o resto do conjunto estende-se na vertente exposta a Nascente, acompanhando a linha do declive.

O menir de maiores dimensões (menir 11) centra-se mais ou menos no lado ocidental, constituindo, com o menir 17 e, de uma forma menos clara, com o menir 18, um conjunto independente do perímetro do monumento e indiscutivelmente inserido no interior do recinto.

                                            Fig. 5.7 - Vista geral do recinto após o restauro.

A planta fechada desta estrutura, inicialmente implícita na interpretação avançada (Calado, 2000b), em consonância com as leituras em voga (Gomes, 1986; 1989; 1994b; 1997a; 1997b), não me parece hoje aceitável. De facto, como veremos, a descoberta do recinto do Tojal (Montemor-o-Novo) veio permitir-me repensar este tema e, com base numa revisão dos dados disponíveis, avançar uma leitura alternativa (Capítulo 7).

Vale Maria do Meio (nº2) localiza-se, curiosamente, a pouco mais de 1 Km de um outro recinto com características muito semelhantes, o recinto da Portela de Mogos (nº4). Esta proximidade flagrante, que, aliás, se repete noutros casos da região, levou Pedro Alvim a considerá-los um “par de recintos” (Alvim, 2004), conceito aparentemente operativo, que estabelece um certo paralelismo com os pares de menires (Burl, 1993). Por outro lado, os dois recintos alinham-se, num esquema de intervisibilidades parciais, com o menir da Casbarra 1 (nº31) e o menir do Mauriz (nº38), ambos monólitos de boas dimensões. Sobre as possíveis implicações arqueoastronómicas deste alinhamento, que foi já, parcialmente, objeto de duas breves referências (Calado e Rocha, 1996; Silva e Calado, 2004), tratarei no capítulo 8.

Em termos paisagísticos, o monumento de Vale Maria do Meio insere-se na fronteira entre paisagens diferentes, em termos topográficos e geológicos: os terrenos graníticos, relativamente dobrados e sem vocação agrícola, que se estendem para Sul e Sudeste e onde se encontra uma grande concentração de vestígios de habitat do Neolítico antigo/médio (mapa 3), os terrenos muito aplanados, de tonalitos, que se estendem para Norte e Nascente e que correspondem à maioria das paisagens dolménicas (e também agrícolas) da região e ainda os terrenos de gnaisse/migmatito que dão corpo aos relevos mais destacados das faldas orientais da serra de Monfurado, onde se localizam os recintos dos Almendres (nº1), da Portela de Mogos e os menires de S. Sebastião (nº8).

Também em termos hidrográficos, a localização do monumento pode ser descrita como uma situação de fronteira, uma vez que o Vale Maria do Meio se implanta a cerca de 500 m do festo Tejo-Sado.

5.3. O menir do Monte do Tojal

O menir do Monte do Tojal (Calado, 2003) (nº57) foi descoberto pelo signatário, nos finais de 1999, no âmbito de um programa de prospecções de superfície na área do concelho de Montemor-o-Novo.

Trata-se de um monólito de granito, com cerca de 2, 35 m de comprimento e cerca de 1,00 m de diâmetro máximo, na área mesial. Aquando da descoberta, o menir encontrava-se tombado, em posição inclinada, com a base enterrada e o topo ligeiramente acima da superfície do solo. Esta posição constituía, desde logo, um indício claro de que a base do menir se encontrava in situ, aspecto que a escavação confirmou plenamente.

No topo, e apenas na superfície virada para cima, ostentava um conjunto de covinhas de diversas dimensões que, ao que tudo leva a crer, foram executadas já com o monólito tombado, situação reconhecida num número razoável de menires da região, nomeadamente o de Vale de Cardos, o menir central (menir 1) do recinto do Xarez (nº6) ou o menir 1 dos Perdigões (nº13).

Em termos de implantação, o menir do Monte do Tojal localiza-se junto ao topo de uma vertente exposta a Nascente, num terreno com uma cobertura de depósitos de idade terciária, de matriz argilosa; trata-se da extremidade meridional de uma elevação dominante, que emerge por entre terrenos enquadrados por afloramentos graníticos, e em cuja extremidade Norte se localiza o recinto megalítico do Tojal; este, foi igualmente objeto de uma pequena intervenção de valorização e diagnóstico.

                                        Fig. 5.8 - Implantação do menir do Monte do Tojal.

 

                    Fig. 5.9 - Plantas sequenciais da escavação do menir do Monte do Tojal.

Os trabalhos de escavação decorreram em Abril de 2000 e tiveram como objectivo a obtenção de dados sobre a morfologia e as estruturas de implantação do menir, para além de eventuais informações de natureza contextual.

A 22 de Junho, como corolário dos trabalhos de escavação, procedeu-se à reimplantação do menir no respectivo alvéolo.

No início dos trabalhos, foi implantada uma quadrícula com 8 m2 (4m x 2m) centrada no menir e, posteriormente, referenciada no levantamento topográfico efetuado; com o desenrolar dos trabalhos, optou-se por reduzir a área a intervencionar, pelo que, para além da escavação do enchimento do alvéolo, foram apenas escavados os 2 m2 da extremidade meridional da área inicialmente aberta.

A escavação e o registo dos materiais foram feitos por Unidades Estratigráficas e todas as terras retiradas da escavação foram crivadas, tendo sido prestada uma atenção particular aos sedimentos provenientes do interior do alvéolo.

5.3.1. Listagem das Unidades Estratigráficas

[0] - Camada de terra castanha clara, pouco compacta, com alguns seixos de quartzo, mais ou menos rolados;

[1] - Camada de terra castanha, compacta, com alguns seixos de quartzo, mais ou menos rolados;

[2] Estrutura constituída maioritariamente por blocos de granito e alguns blocos de quartzo, de pequena e média dimensão, que preenchem os limites do alvéolo (U.E. 5) ; não foi desmontada;

[3] – Bolsa de terra castanha escura que constitui o enchimento do alvéolo (U.E. 5); não continha materiais arqueológicos;

[4] – Camada de terra castanha ligeiramente avermelhada, com pequenos blocos de quartzo, mais ou menos rolado, que assentava no substrato geológico e onde foi parcialmente escavado o alvéolo [5];

[5] – Estrutura negativa com cerca de 1, 40 m de diâmetro máximo e secção E-W assimétrica, de perfil mais abrupto no lado E.

5.3.2. Listagem dos materiais


5.3.3. Avaliação dos resultados

De entre os resultados obtidos na escavação do menir do Tojal, destaca-se, em primeiro lugar, a confirmação, sem qualquer margem para dúvidas, do respectivo local de implantação, assim como a determinação das dimensões, forma e estruturas de fixação do monólito.

Apesar de escassos, os artefactos recolhidos fornecem alguma informação pertinente sobre a cronologia do monumento. Os fragmentos cerâmicos são, infelizmente, pouco expressivos: consistem num pequeno conjunto de peças lisas, com bordos simples. Porém, os artefactos de sílex, sobretudo o buril diedro e as lamelas, indicam uma presença, no local, de grupos neolíticos, genericamente enquadráveis no Neolítico antigo/médio.

Na verdade, a escavação de menires e recintos megalíticos centro-alentejanos tem vindo a revelar a presença sistemática de indústrias micro-laminares, a par de uma ausência ou escassez de cerâmicas, o que sugere uma utilização não habitacional desses sítios arqueológicos.

Outro aspecto a registar, pela negativa, foi a ausência de materiais embalados nas terras do enchimento do alvéolo [3], o que pode implicar uma anterioridade da implantação do menir em relação à deposição dos materiais nas terras que o envolvem.

                        Fig. 5.10 - Materiais líticos e bordos cerâmios do menir do Monte do Tojal (seg. Calado, 2003: 366).


                                                        Fig. 5.11 - O Menir do Tojal antes do início dos trabalhos

Fig. 5.12 - O Menir do Tojal durante a escavação do alvéolo

Fig. 5.13 - O menir do Tojal, após a escavação e restauro


Fig. 5.14 - Detalhe das covinhas no topo do menir

5.4. O recinto do Tojal

O recinto megalítico do Tojal (nº5) foi descoberto, nos finais de 1999, juntamente com o menir do Monte do Tojal (nº57).

Trata-se de um conjunto de 17 menires, de dimensões variáveis, tombados junto ao topo de uma vertente exposta a Leste, com um declive excepcionalmente acentuado, em relação aos restantes recintos do mesmo tipo, conhecidos no Alentejo Central.

Na altura da descoberta, os menires jaziam envoltos em vegetação arbustiva muito densa, atendendo a que o terreno, por ser muito declivoso, não era habitualmente cultivado; efetivamente, de início, só foram referenciados 16 monólitos, tendo o 17º sido encontrado na sequência da limpeza do terreno.

Os menires distribuem-se em ferradura, com o lado aberto virado a Nascente, e, como referi, foi com base nesta evidência (e numa revisão crítica da restante informação disponível) que reconsiderei a interpretação tradicional que considerava os recintos alentejanos como monumentos de planta fechada; de facto, as lacunas (sistemáticas) verificadas no lado oriental dos restantes “cromeleques” da região (Almendres, Portela de Mogos, Vale Maria do Meio, Cuncos, Fontaínhas, Vale d’El Rei) permitem levantar a hipótese de ter sido essa, com algumas variações, a forma matricial da planta destes monumentos.

Outra das características comuns aos grandes recintos megalíticos alentejanos, e igualmente verificada no Tojal (Menir 15), é a presença de vários menires de maiores dimensões, centrados no lado

ocidental do conjunto, apresentando, por norma, o maior de todos, uma posição ligeiramente desfasada, para Norte, em relação ao eixo maior do monumento.

Os trabalhos efetuados não passaram pela remoção de qualquer menir, pelo que não podemos afirmar, com segurança, a inexistência de monólitos decorados; no menir 15, na face exposta, foi, em todo o caso, identificada uma gravura de época histórica – um conjunto de 5 triângulos dispostos em cruz, tema que se repete num dos esteios de uma anta, localizada a meia distância entre o recinto e o menir do Tojal – e que devem corresponder a símbolos identificadores de propriedade.

A campanha efetuada no recinto do Tojal consistiu, quase exclusivamente, na limpeza da vegetação arbustiva (e de algumas árvores de menor porte) que infestava o local, ocultando, total ou parcialmente, a maioria dos menires.

                                                            Fig. 5.15 - O menir “central” do recinto (menir 15).

Procedeu-se igualmente à remoção, por meios mecânicos, dos líquenes que recobriam grande parte das

superfícies expostas dos monólitos.

Fizeram-se, por último, duas pequenas sondagens com 2,25 m2 e 1,5 m2, em torno, respectivamente, dos menires 15 e 16; pretendeu-se, basicamente, confirmar ou infirmar a existência de estruturas de implantação conservadas.

As sondagens foram efetuadas por Unidades Estratigráficas.

5.4.1. Listagem das Unidades Estratigráficas

[0] – Camada de terra castanha muito escura, humosa, contendo alguns materiais de época romana.

Sondagem 1 – Menir 15

[1] – Camada de terra castanha clara, identificada apenas na metade ocidental da sondagem, contendo

alguns materiais de época romana/medieval.

[2] – Bolsa de terra castanha avermelhada que preenche uma depressão [5], junto à base do menir 15.

[3] – Terra muito avermelhada, sem materiais arqueológicos, que parece corresponder ao substrato

geológico; foi sondada, até à base do menir, no quadrante NE da sondagem.

[4] – Bolsa de terra castanha escura, com materiais romanos/medievais.

[5] – Depressão que pode corresponder aos restos, muito afectados, do alvéolo do menir 15.

Sondagem 2 – Menir 16

[1] – Camada de terra castanha alaranjada, com alguns materiais romanos/medievais e pré-históricos

(sílex).

[2] – Bolsa de terra castanha clara, pouco espessa; sem materiais.

[3] – Conjunto de blocos de quartzo e granito de dimensões pequenas e médias, que podem corresponder aos restos da coroa de sustentação do menir 16.

5.4.2. Listagem dos materiais (registos individuais)

5.4.3. Avaliação dos resultados

Os trabalhos realizados, apesar de escassos, permitiram melhorar significativamente a imagem disponível sobre este sítio arqueológico.

Importantes foram, sem dúvida, os trabalhos de limpeza da vegetação que, para além de terem permitido identificar mais um monólito, revelaram a planta do conjunto, tornando possível o respectivo levantamento topográfico.

Fig. 5.16 - Plantas da escavação do menir 15 (UE 0 e UE 1)

Fig. 5.17 - Plantas da escavação do provável alvéolo do menir 15 (UE 2, 3 e 4) e UE 5.

Pelo contrário, as duas sondagens foram escassamente conclusivas: a avaliar pela amostra intervencionada, as estruturas de implantação não parecem encontrar-se em bom estado de conservação; provavelmente terão sido afetados pela ocupação romana/medieval detectada no local, sendo que o declive acentuado, só por si, favoreceu certamente os processos erosivos.

Em boa verdade, as sondagens foram demasiado contidas para que se possam extrapolar os resultados para o conjunto do recinto; no entanto, sabemos que na escavação do recinto de Cuncos, também em Montemor-o-Novo, não se encontrou nenhuma das estruturas de implantação dos menires. Por outro lado, é praticamente garantido que, pelo menos, o menir 2 conserva ainda as referidas estruturas, atendendo a que se encontra numa posição inclinada, com a base enterrada.

Em última análise, nos menires 15 e 16 e, em particular, no primeiro deles, só poderíamos resolver a questão, deslocando os menires, uma vez que é muito natural que os próprios monólitos tenham “protegido” o que eventualmente reste das estruturas de implantação. Por razões orçamentais, tal não foi, por enquanto, viável.

Outro aspecto a referir prende-se com o facto de que, mesmo que as estruturas de implantação se tenham deteriorado, o recinto apresenta uma planta sem anomalias notórias, o que implica que os menires se conservaram muito próximo do local onde um dia se ergueram.

De entre os materiais romanos/medievais não se recolheram indicadores de cronologias finas: a maioria do espólio dessa época é constituído por fragmentos de imbrex, espessos, e alguma cerâmica comum; recolheu-se ainda um bordo extrovertido que aponta para uma presença da Idade do Ferro de que não se detectou, na área do recinto, mais nenhum indício.

No entanto, merece ser igualmente mencionada um fragmento de dormente de mó de sela, a cerca de 200 m para Sul do recinto do Tojal.

Por fim, e apesar de muito escassos, parece ser muito significativa a presença de restos de talhe e artefatos de sílex, situação que encontra paralelo em todos os recintos intervencionados recentemente no Alentejo Central e também, de uma forma mais expressiva do que aqui, no menir do Tojal.

5.5. Vale d’El Rei

5.5.1. A história do monumento e a escavação

O recinto megalítico de Vale d’El Rei (nº15), também conhecido por cromeleque do Monte das Figueiras foi, pela primeira vez, dado a conhecer, nos anos cinquenta do século vinte, pelos arqueólogos alemães, Georg e Vera Leisner (1956).

O trabalho dos Leisner incidiu, como se sabe, quase exclusivamente sobre o estudo das sepulturas megalíticas, pelo que a referência ao recinto de Vale d’El Rei constitui uma excepção, relegada, aliás, para uma espécie de apêndice, onde foram reunidos monumentos de diversas índoles (tanto em termos morfológicos como cronológicos) tendo, como denominador comum, um certo “ar” megalítico.

Embora, no texto, o recinto tenha merecido apenas uma breve menção, os autores entenderam por bem incluir no trabalho, para além de uma planta pouco rigorosa, uma excelente fotografia do local.

De resto, essa referência passou de tal forma despercebida que, nos anos setenta, a equipa dos serviços Geológicos de Portugal voltou a “descobrir” o monumento, rebatizado, desta vez, como cromeleque do Monte das Figueiras (Zbyszewski et al., 1977). Esta equipa publicou também algumas fotografias e uma nova planta do recinto, agora de forma suficientemente rigorosa.

Apesar de o monumento ser conhecido e, até certo ponto, protegido pela família Mexia, proprietária da Herdade, em finais dos anos setenta, um rendeiro procedeu, de moto proprio, à desmontagem e amontoamento dos doze menires que o constituíam, com a finalidade de libertar o terreno e facilitar as lavouras.

Os objectivos da escavação centraram-se na obtenção de artefatos e, eventualmente, ecofatos que permitissem contextualizar o monumento, assim como das evidências estruturais necessárias para a subsequente recuperação da sua forma original.

As plantas e as fotografias do recinto de Vale d’El Rei, antes de ter sido desmantelado, constituíram o ponto de partida para as decisões sobre onde escavar; tive, para além do material publicado, acesso a algumas fotos do arquivo pessoal dos proprietários da herdade.

                       

                                         Fig. 5.18 - Família do proprietário, no recinto de Vale d’El Rei (anos 60).

Fig. 5.19 - O amontoado de menires, antes do início dos trabalhos (seg. Rocha, 1999: 225)


Fig. 5.20 - Aspecto do local, após a retirada dos menires e antes do início da escavação


Através de recolha de informação oral, foi possível, antes da escavação, concluir que os trabalhos agrícolas, posteriores à destruição do recinto, tinham sido apenas muito superficiais, sendo, por isso, muito pouco provável que os alvéolos dos menires tivessem sido seriamente afetados; por outro lado, parti do princípio de que, por razões práticas (economia de meios), pelo menos um dos menires não deveria ter sido arrancado e de que os restantes teriam sido acumulados por cima dele.

Observando o amontoado de menires, havia efetivamente um que parecia ilustrar essa suposição: era o único que aparecia inclinado e, aparentemente, com a base semienterrada, pelo que só restava identificá-lo, na planta, entre os doze que originalmente integravam o monumento.

Foi o facto de um dos informadores se recordar da existência, antes da destruição, de um arbusto (murteira) que ainda existe atualmente junto do menir inclinado, que permitiu, com relativa segurança, resolver a questão. De facto, as fotografias antigas onde o arbusto aparecia visível, levaram-me a identificá-lo como o menir 7 (da numeração proposta por Zbyszewski et al., 1977).

Procurei, com base na planta publicada pelos investigadores dos Serviços Geológicos de Portugal, implantar uma malha de escavação e, dentro dela, definir as áreas a escavar, em função da posição aproximada que deveriam ocupar os alvéolos dos menires.

Foi, assim, possível rentabilizar os limitados meios disponíveis e efetuar uma escavação meticulosa, com crivagem integral das terras escavadas, o que permitiu reunir um pequeno conjunto coerente de artefatos, provavelmente relacionáveis com a utilização do monumento.

A área da escavação foi concebida de forma flexível, tendo sido alargada ou encurtada em função dos resultados obtidos e foi feita, sempre que possível, na ordem inversa da deposição das unidades estratigráficas.

5.5.2. Estratigrafia

[0] – Camada superficial, composta por terra castanha clara, com seixos rolados de quartzo, revolvida pelas lavouras. Assenta, em toda a área do monumento, no substrato geológico ou no topo das coroas dos menires (e, em metade dos casos, também nos restos das bases dos menires).

[1] – Menir de granito, intacto, de forma ovóide achatada, com 1.33 m de comprimento, por 0.62 de espessura máxima e 0.48 m de espessura mínima.

[2] – Menir de granito, com a base, cónica achatada, fraturada in situ; forma geral ovóide achatada, com 1. 58 m de comprimento total, por 0.77 m de espessura máxima e 0.58 m de espessura mínima.

[3] – Menir de granito com uma pequena extremidade da base, fraturada in situ e associada a um conjunto de fragmentos em conexão; forma geral ovóide achatada, com 1. 02 m de comprimento total, por 0.66 m de espessura máxima e 0.42 m de espessura mínima.

[4] – Menir de granito, intacto, de forma ovóide achatada, com 1.77 m de comprimento, por 1.02 m de espessura máxima e 0.67 m de espessura mínima.

[5] – Pequeno menir de granito, com restos da extremidade da base, cónica achatada, fraturados in situ. Mede 0.78 m de comprimento, por 0.60 m de espessura máxima e 0.48 m de espessura mínima.

[6] – Menir de granito, intacto, de forma ovóide achatada , com 1. 02 m de comprimento total, por 0.66 m de espessura máxima e 0.40 m de espessura mínima.

[7] – Menir de granito, intacto, de forma ovóide achatada, com 1.61 m de comprimento, por 0.89 m de espessura máxima e 0.70 m de espessura mínima.

[8] – Menir de granito, com a base, cónica achatada, fraturada in situ; encontra-se severamente fraturado, longitudinal e transversalmente, pelo que a forma geral, aparentemente ovóide achatada, é difícil de avaliar e, por isso, as medidas apresentadas são meramente aproximativas; cerca de 1. 00 m de comprimento total, por 0.75 m de espessura máxima e 0.50 m de espessura mínima.


Fig. 5.21 - Base do menir 2, in situ, e parte da respectiva coroa de sustentação.

Fig. 5.22 - Alvéolo e coroa do menir 2.

Fig. 5.23 - Parte do alvéolo e da coroa do menir 4.

 Fig. 5.24 - Alvéolo, coroa e fragmento do menir 4.


[9] – Menir de granito, intacto, de forma ovóide ligeiramente achatada, com 1.27 m de comprimento, por 0.74 m de espessura máxima e 0.62 m de espessura mínima.

[10] – Menir de granito, com a base, cónica achatada, fracturada in situ; forma geral ovóide achatada, com 1. 28 m de comprimento total, por 0.58 m de espessura máxima e 0.40 m de espessura mínima.

[11] – Menir de granito, fraturado, de forma ovóide muito achatada, com 1.55 m de comprimento total, por 0.69 m de espessura máxima e 0.36 m de espessura mínima.

[12] – Menir de granito, intacto, de forma ovóide achatada, com 1.46 m de comprimento, por 0.74 de espessura máxima e 0.46 m de espessura mínima

[13] – Enchimento do alvéolo do menir 1, após a remoção do mesmo; trata-se de terra castanha clara, com alguns seixos de quartzo rolados, dificilmente destrinçável da camada superficial.

[13 b] – Base do enchimento do alvéolo do menir 1, constituída por uma delgada camada de terra argilosa, castanha avermelhada, mais compacta e correspondendo eventualmente ao topo do próprio substrato geológico.

[15] – Coroa de sustentação do menir 1, constituída por escassas pedras de granito, no lado oeste do alvéolo, e terra de coloração castanha clara.

[16] – Alvéolo do menir 1; depressão alongada com cerca de 0.90 m x 0.80 m e cerca de 0.20 m de profundidade.

[17] – Enchimento do alvéolo do menir 2, constituído por terra de textura pouco compacta, de cor castanha clara, análoga à camada superficial.

[18] – Coroa do menir 2; estrutura muito compacta, com pedras de granito de grande e médio calibre, sobretudo no lado Sul.

[19] – Alvéolo do menir 2; depressão alongada com cerca de 0.90 m x 0.75 m e cerca de 0.45 m de profundidade.

[20] – Enchimento do alvéolo do menir 3, constituído por terra de textura pouco compacta, de cor castanha clara, análoga à camada superficial.

[20 b] – Enchimento da base do alvéolo do menir 3, constituído por um estrato pouco espesso, compacto, com muitos seixos e eventualmente resultante da alteração do substrato geológico.

[21] – Alvéolo do menir 3; depressão alongada com cerca de 0.75 m x 0.70 m e cerca de 0.37 m de profundidade.

[22] – Coroa do menir 3, constituída por escassas pedras de granito de dimensão média.

[23] – Enchimento do alvéolo do menir 4 constituído por terra de textura pouco compacta, de cor castanha acinzentada.

[23 b] – Enchimento da base do alvéolo do menir 4, constituído por um estrato muito compacto, de cor

avermelhada, com muitos seixos e semelhante à terra que envolve as pedras da coroa de sustentação.

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Fig. 5.25 - Aspecto da área escavada, no final dos trabalhos; 1: lado Sul; 2: lado Norte.

[24] – Coroa do menir 4; estrutura muito compacta, com pedras de granito de grande e médio calibre, concentrada no quadrante NW do alvéolo.

[25] – Alvéolo do menir 4; depressão alongada, com uma acentuada dissimetria E-W; mede cerca de 1.35 m x 1.20 m e cerca de 0.50 m de profundidade.

[26] – Enchimento do alvéolo do menir 5, constituído por terra de textura pouco compacta, de cor castanha clara, análoga à camada superficial.

[27] – Coroa do menir 5, constituída por apenas uma pedra in situ (e por mais algumas deslocadas), todas de granito de dimensão média e pequena.

[28] – Alvéolo do menir 5; ligeira depressão subcircular, com cerca de 0.60 m x 0.50 m e cerca de 0. 15 m de profundidade.

[29] – Enchimento do alvéolo do menir 6, constituído por terra de textura pouco compacta, de cor castanha clara, análoga à camada superficial.

[29 b] – Base do enchimento do menir 6, constituída por uma delgada camada de terra castanha, compacta.

[30] – Coroa do menir 6, constituída por pedras de granito e quartzo, de dimensão média, concentradas no lado NW do alvéolo.

[31] – Alvéolo do menir 6; depressão alongada com cerca de 0.85 m x 0.75 m e cerca de 0.22 m de profundidade.

[32] – Enchimento do alvéolo do menir 7, constituído por terra compacta, de cor castanha clara, com alguns seixos de quartzo.

[33] – Coroa do menir 7, formada por uma carapaça de pedras de granito de média dimensão, concentrada no lado NW do alvéolo, e embalada em terra castanha clara.

[34] – Alvéolo do menir 7; depressão subcircular com cerca de 1.25 m x 1.20 m e cerca de 0.30 m de profundidade.

[35] – Enchimento do alvéolo do menir 8, constituído por terra compacta, de cor castanha clara, com alguns seixos de quartzo.

[36] – Coroa do menir 8, constituída por pedras de granito e quartzo, de dimensão pequena e média, dispersas em volta da base do menir.

[37] – Alvéolo do menir 8; depressão alongada com cerca de 0.90 m x 0.80 m e cerca de 0.25 m deprofundidade.

 [38] – Enchimento da [39], constituído por terra de cor cinzenta, solta, com alguns seixos de quartzo.

[38 b] – Enchimento do alvéolo do menir 9, constituído por terra pouco compacta, de cor castanha mais escura que o substrato, com alguns seixos de quartzo.

[39] – Estrutura negativa entre o menir 9 e o menir 10; de forma alongada, pouco profunda, com cerca de 0.60 m, por 0.75 m, com uma profundidade máxima conservada de cerca de 0.15 m.

83 Menires do Alentejo Central

[40] – Enchimento do alvéolo do menir 10, composto por terra castanha amarelada e seixos de quartzo, análoga à que envolve as pedras da coroa.

[41] – Coroa do menir 10, formada por uma carapaça de pedras de granito de média dimensão, concentrada no lado W do alvéolo, e embalada em terra castanha amarelada.

[42] – Alvéolo do menir 10; depressão alongada com cerca de 0.75 m x 0.70 m e cerca de 0.37 m de profundidade.

[43] – Enchimento do alvéolo do menir 11, constituído por terra relativamente solta, de cor castanha acinzentada, com alguns seixos de quartzo.

[43 b] – Enchimento da base do alvéolo do menir 11, constituído por terra compacta, de cor castanha amarelada, com alguns seixos de quartzo, semelhante à que embala as pedras da coroa.

[44] – Coroa do menir 11, formada por uma carapaça de pedras de granito de média dimensão, concentrada no lado E do alvéolo, e embalada em terra castanha amarelada.

[45] – Alvéolo do menir 11; depressão ligeiramente alongada com cerca de 0.77 m x 0.70 m e cerca de 0.37 m de profundidade.

[46] – Enchimento da [47] constituído por terra compacta, de cor castanha avermelhada, com alguns seixos de quartzo.

[47] – Depressão larga e pouco profunda, eventualmente de natureza geológica, localizada a Norte do menir 12, e recortada pelo alvéolo deste menir [51] e pela U.E. [54]. Mede cerca de 1.30 m x 1.10 m, por cerca de 0.20 m de profundidade máxima.

[48] – Alvéolo do menir 9; depressão alongada com cerca de 1.00 m x 0.85 m e cerca de 0.50 m de profundidade máxima (limite apenas conservado, no lado N; o lado Sul e E foi afetado pela U.E. [39]).

[49] – Coroa do menir 9, formada por uma carapaça de pedras de granito de grande e média dimensão, concentrada no lado N do alvéolo, e embalada em terra castanha.

[51] – Alvéolo do menir 12; depressão subcircular, com cerca de 0.85 m x 0.80 m e cerca de 0.30 m de profundidade máxima

[52] – Enchimento do alvéolo do menir 12, constituído por terra compacta, de cor castanha avermelhada, com alguns seixos de quartzo.

[53] – Coroa do menir 12; carapaça de pedras de granito de pequena e média dimensão, a toda a volta do alvéolo, exceto o lado W, e embalada em terra castanha avermelhada.

[54] – Pequena depressão alongada, de secção afunilada, entre o menir 11 e o menir 12, correspondente certamente ao negativo de uma raíz carbonizada.

[55] – Enchimento da [54], constituído por terra muito escura, com abundantes micro-carvões. O substrato geológico é constituído por depósitos terciários, com seixos de quartzo pouco rolados, embalados numa matriz mais ou menos argilosa, nem sempre fácil de distinguir dos depósitos de origem antrópica.

5.5.3. Listagem de materiais





5.5.4. Comentários

Vale d’El Rei (nº15) destaca-se, no conjunto dos recintos do Alentejo Central, pelo facto de ser o único cuja planta se conservou integralmente até aos nossos dias (mesmo tendo sofrido, extemporaneamente, 


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Fig. 5.26 - 1: Planta do recinto e levantamento topográfico da área envolvente; 2: planta da área escavada, com a localização dos menires, antes do desmantelamento (seg. Zbiszewski et al., 1977).

Fig. 5.27 - Planta das estruturas de implantação dos menires.

Fig. 5.28 - Planta geral dos alvéolos, no final dos trabalhos.

as agressões acima referidas). Os outros monumentos da região apresentam lacunas difíceis de colmatar (resultantes, em geral, de amputações antigas) para além de graus de complexidade formal totalmente distintos deste.

Como já referi, os restantes “cromeleques” alentejanos foram, logo desde a descoberta dos Almendres (nº1), interpretados como recintos fechados (ovais ou circulares), sendo as lacunas, sistematicamente observadas no lado nascente, lidas como o resultado de amputações; no entanto, a integridade da planta em ferradura do Vale d’El Rei nunca foi posta em causa, nem seria lógico fazê-lo, atendendo ao grau de conservação do conjunto.

As dimensões são outro detalhe que afasta o sítio de Vale d’El Rei da maioria dos seus congéneres, numa escala regional. De facto, não temos qualquer informação fidedigna sobre as verdadeiras dimensões de alguns dos recintos mal conservados e/ou que nunca foram objeto de escavação, como são os casos do Monte da Ribeira (nº9) (Reguengos de Monsaraz), do Alminho (Ponte de Sôr) ou do Torrão (Elvas), todos eles pequenos e, segundo creio, periféricos em relação ao “núcleo duro” dos arredores de Évora.

Esse carácter periférico pode, aliás, ajudar a explicar as dimensões e a pureza formal do Vale d’El Rei e relaciona-se, eventualmente, com a escassez de vestígios de povoamento do Neolítico antigo, na área de Pavia, em contraste com o que se verifica na área de Évora.

Outro aspecto, muito sui generis, deste monumento diz respeito ao padrão de implantação; a escolha do local obedeceu, sem dúvida, a uma lógica diferente daquela que subjaz aos recintos de Évora e Montemor-o-Novo, por exemplo. Nota-se, em todo o caso, um ajustamento muito cuidadoso ao terreno (Fig.5.26, 1) e uma orientação equinocial muito clara.

Recorde-se, finalmente, que o recinto de Vale d’El Rei se enquadra numa área restrita de grande riqueza megalítica, com monumentos funerários (sepulturas protomegalíticas e antas de várias dimensões) pré-históricos, assim como com um monumento, sem qualquer paralelo conhecido, constituído por um alinhamento de menires e um tumulus funerário, com menires, que também foi recentemente escavado e datado da 1ª Idade do Ferro (Rocha, 1999).

A escavação do recinto de Vale d’El Rei permitiu obter dados suficientes para, na sequência da colagem/ restauro dos monólitos, se poder avançar com o processo de restauro do monumento: foram localizados e escavados todos os alvéolos dos doze menires e foi igualmente possível reunir grande parte dos fragmentos de seis menires fraturados, todos eles com troços da base ainda enterrados in situ; destes, o pior conservado é o menir 8 que, por se encontrar demasiado amputado, não foi passível de restauro.

Os dados de carácter cronológico são escassos e limitam-se a um conjunto de artefatos líticos e cerâmicos que apontam, sobretudo para o Neolítico final (cerâmica carenada, ponta de seta); a relativa abundância de sílex sugere, em todo o caso, uma maior antiguidade, possibilidade que é também sugerida pela presença de uma lamela; destaca-se o facto de não terem sido recolhidos quaisquer artefatos dentro dos alvéolos intactos

dos menires, à semelhança dos resultados obtidos nos outros recintos megalíticos estudados, nos últimos anos, na região; os materiais provêm exclusivamente das terras exteriores aos alvéolos, pelo que devem ser interpretados como correspondendo à utilização do monumento e não, necessariamente, à sua construção.

Em todo o caso, e em consonância com os resultados obtidos em monumentos análogos, confirma-se o carácter não habitacional dos recintos, com base na quantidade e no padrão dos conjuntos artefatuais, em contraste com o que parece ocorrer, com carácter mais ou menos sistemático, nos menires algarvios.

5. 6. S. Sebastião

5.6.1. Os antecedentes

A decisão de escavar os menires de S. Sebastião ficou a dever-se, desde logo, à referência (Burgess, 1987: 40) de que, no local, teria sido recolhida cerâmica com decoração impressa, informação compatível com um pequeno conjunto cerâmico, depositado na C.M. Évora, com a indicação “S. Sebastião”, embora as circunstâncias da obtenção deste material nunca tenham sido convenientemente esclarecidas.

A ideia transmitida por Colin Burgess foi a de que esses materiais seriam provenientes de uma violação recente, cujos intervenientes não foram, nessa publicação, identificados.

Note-se que, ao contrário do que ocorre no Barlavento Algarvio, a presença de cerâmica do Neolítico antigo, diretamente associada a menires, não se encontra documentada na informação disponível sobre a maioria dos recintos megalíticos alentejanos, escavados nos últimos anos – Almendres, Vale Maria do Meio, Cuncos e Tojal. As únicas excepções provêm das escavações do recinto do Xarez (Gomes, 2000b: 104, 105) em que foram recolhidos apenas dois fragmentos cerâmicos decorados com impressões e do da Portela de Mogos, que foram objeto de uma muito breve referência (Gomes, 2002: ). Assim sendo, era importante confirmar a eventual presença de cerâmicas decoradas associadas aos menires de S. Sebastião.

Por outro lado, a localização do monumento, era também, à partida, um estímulo importante: de facto, parecia certamente significativo o facto de a implantação dos menires de S. Sebastião ser análoga à dos recintos megalíticos dos Almendres e da Portela de Mogos (localizados na mesma paisagem, à vista de S. Sebastião), no que respeita à topografia, à hidrografia, à geologia e à orientação; em contrapartida, o Menir 1 é claramente anómalo, em termos morfológicos, se o compararmos com os menires dos referidos recintos; para além disso, tanto na Bretanha, como na Grã-Bretanha, a maior parte dos pares de menires conhecidos apresentam, tal como sucede com os menires de S. Sebastião, um notório dimorfismo (Burl, 1993: 181, 182).

Trata-se de dois menires tombados, mantendo ambos a extremidade proximal enterrada obliquamente; distam cerca de 7 m um do outro e são ambos feitos em rochas granitóides, aparentemente os quartzodioritos, rochas cujas manchas mais próximas ocorrem a cerca de 2 Km, em cotas mais baixas, enquanto o cabeço de S. Sebastião é geologicamente constituído por gnaisses/migmatitos.

O Menir 1, fraturado transversalmente em duas partes, tombadas em conexão, e sem a extremidade distal, tem uma forma cilindróide muito regular e alongada, enquanto o Menir 2, a que falta uma lasca longitudinal no lado E da face exposta, tem uma forma ovóide, característica de grande parte dos menires da região, as conhecidas “pedras-talhas”.

5.6.2.A escavação

A escavação incidiu inicialmente sobre duas áreas delimitadas em torno da base de cada um dos menires, com 16 m2 cada, inseridas numa quadrícula com 11m x 4m.

A escavação foi efetuada por Unidades Estratigráficas e, no decorrer dos trabalhos, foi aberto, como estava previsto, um “corredor”, com 1 m de largo, estabelecendo a ligação entre os dois quadrados de 4 x 4 m inicialmente abertos; neste alargamento, no entanto, não foi possível desmontar mais do que as duas camadas superficiais [0] e [1], por falta de tempo; pelo mesmo motivo, e atendendo à complexidade inesperada dos vestígios detectados, foi reduzida, após a retirada das camadas superficiais, a área de escavação, junto ao Menir 2, para cerca de 50%.

As terras foram integralmente crivadas, método que permitiu recolher um conjunto pequeno, mas significativo de lamelas e restos de talhe, em sílex.

No final da escavação e uma vez que os trabalhos efetuados não confirmaram a presença de cerâmica com decoração impressa, procurei indagar as circunstâncias em que teriam sido obtidos os materiais, supostamente provenientes da violação ocorrida em 1987; essa tarefa não se revelou fácil, uma vez que os intervenientes eram muito jovens na altura e, decorridos 13 anos, ninguém parecia recordar-se do episódio; depois de uma série de pistas e de tentativas infrutíferas, foi graças ao Dr. Rui Arimateia, da Câmara Municipal de Évora, que entrei em contacto com um dos elementos desse grupo, o Sr. António Melgão, natural de S. Sebastião e residente atualmente em Valverde. A descrição bastante minuciosa que me fez da violação efectuada junto ao Menir 1e dos materiais recolhidos, sugere que as cerâmicas impressas observadas por Colin Burgess, deverão ser provenientes de outro local, que ainda não foi possível localizar, na freguesia de S. Sebastião da Giesteira.

5.6.3. Listagem das Unidades Estratigráficas

[0] – Camada de terra castanha escura, solta e muito orgânica.

[1] – Camada de terra castanha ligeiramente acinzentada, mais compacta que a U.E. [0], constituindo, aparentemente um diferente horizonte pedológico dentro da camada arqueológica superficial.

[2] – Camada de terra avermelhada, argilosa, com materiais pré-históricos e romanos.

[3] – Concentração de blocos de pedra, embalados em terra castanha escura, muito solta, a SW do menir 1.

O topo desta U.E. apresenta cotas com valores superiores às da restante área intervencionada junto ao Menir1.

[4] – Camada de terra castanha escura, acinzentada, que preenche uma estrutura negativa em torno do Menir 1 e embala materiais pré-históricos e romanos; foi deixado por escavar um testemunho a E do Menir 1.

[5] – Amontoado de pedras e terra vegetal, com muitas raízes, que cobria a base do Menir 2 e preenchia uma depressão junto à base desse monólito.

[6] – Bolsa de terra castanha escura que preenchia uma depressão pouco profunda, ovalada; continha escassos materiais pré-históricos.

[7] – Estrutura negativa, natural ou artificial, com cerca de 0.60 m x 0.40 m, colmatada pela U.E. [6].

[8] – Estrutura negativa escavada em torno da base do Menir 1, de forma aparentemente alongada, com cerca

91 Menires do Alentejo Central de 2 m de comprimento e cuja largura não foi totalmente desvendada; esta fossa parece ter esvaziado parcialmente, no lado W, o alvéolo do Menir 1 e deve ter sido aberta com a finalidade de derrubar o referido monólito. Preenchida pela U.E. [4].

[9] – Bolsa pouco espessa de terra muito escura, sem materiais arqueológicos, subjacente à U.E. [3]

[10] - Bolsa pouco espessa de terra muito escura, sem materiais arqueológicos, subjacente à U.E. [3] e paralela à U.E. [9]; ambas devem corresponder à mesma realidade.

[11] – Camada de terra castanha clara que preenche, aparentemente, a parte não perturbada do alvéolo.

[12] – Concentração de blocos de gneiss, embaladas na U.E. [2]. Podem corresponder a restos de estruturas desmanteladas.

[13] – Anel de blocos de calibre grande e médio que circunda a base do menir 2.

[14] – Camada de terra avermelhada, com materiais pré-históricos e romanos, assenta no substrato geológico. Foi identificada na área do Menir 2 e deve ser equivalente à U.E. [2], designação atribuída a uma realidade semelhante, na área do Menir 1.

[15] – Restos da coroa de sustentação do Menir 1, embalada na U.E. [11].

[16] – Estrutura negativa, escalonada em dois degraus, que corresponde ao alvéolo do Menir 1; foi parcialmente esvaziada em época romana.

[17] – Camada de terra castanha acinzentada que colmatou a parte do alvéolo U.E. 16 esvaziada em época romana.

[18] – Camada de terra avermelhada no canto NE da área aberta em torno do Menir 2; deve ser equivalente às U.E.s [2 e 14]. Continha materiais pré-históricos e romanos.

[19] – Camada de terra castanha, com pedras de pequeno calibre e escassos materiais romanos e préhistóricos que se depositou na superfície do alvéolo do Menir 2, provavelmente na sequência do abate do monólito.

[20] – Camada de terra avermelhada, com algumas manchas escuras que colmatava a fossa [22] aberta junto à base do Menir 1; continha materiais pré-históricos e romanos.

[21] – Camada de terra avermelhada, com algumas lentículas mais escuras, que preenche uma depressão, natural ou artificial, parcialmente definida a E da base do Menir 1, nas coordenadas x= 102-104; y= 100-102. Esta realidade prolonga-se para Sul da área escavada.

[22] –Fossa adjacente ao alvéolo do Menir 2; deve ter sido aberta, em época romana, eventualmente com a finalidade de derrubar o referido monólito.

[23] – Conjunto de pedras, na base da U.E. 16 e parcialmente envoltas pela U.E. [17], que devem corresponder a restos mais ou menos perturbados da coroa de sustentação do Menir 1.

[24] – Camada de terra castanha escura, muito compacta e contendo pequenas pedras, na base do enchimento da U.E. [16]. Sem materiais arqueológicos.

[25] – Camada de terra castanha clara, compacta, encostada ao limite N da U.E. [16], que parece corresponder a um resto do enchimento pré-histórico do alvéolo, pelo que seria equivalente à [11].

[26] – Bolsa de terra castanha acinzentada, com algumas pequenas pedras, que preenche parte do fundo da U.E. [22]; continha alguns materiais romanos e pré-históricos.

[27] – Estrutura negativa que corresponde à parte conservada do alvéolo de implantação do Menir 2; este, foi recortado pela fossa U.E. [22].

5.6.4. Avaliação dos resultados

A intervenção efetuada nos menires de S.Sebastião produziu alguns contributos interessantes para o estudo do megalitismo regional.

Por um lado, ficou razoavelmente excluída a possibilidade de a cerâmica com decoração impressa, referida na bibliografia, assim como os materiais em depósito na Câmara Municipal de Évora, serem provenientes do sítio de S. Sebastião 1: apesar de limitada, a intervenção foi suficientemente extensa e a metodologia da escavação (com crivagem integral) suficientemente minuciosa; além disso, a informação prestada pelo Sr. António Melgão foi igualmente peremptória, nesse aspecto.

Em contrapartida, foi identificada uma ocupação do sítio, em época romana, que a informação disponível não contemplava; a ausência de estruturas de habitat pode, teoricamente, explicar-se pela posição descentrada dos menires (e da escavação) em relação ao topo do cabeço, onde eventualmente se localizariam as supostas construções: este aspecto, pode explicar igualmente a escassez de cerâmica de construção detectada na escavação, uma vez que a maioria dos materiais recolhidos são fragmentos de cerâmica comum (também alguma terra sigillata e cerâmica de paredes finas).

Trata-se, na verdade, de um dos casos raros em que podemos datar o derrube dos menires: os materiais romanos provêm dos sedimentos que colmataram as fossas abertas à volta da base de cada um dos monólitos; essas fossas, de diâmetros muito superiores aos dos alvéolos dos menires, foram certamente abertas com os menires ainda eretos e estão diretamente relacionadas com o derrube dos mesmos.

As marcas de corte longitudinais, visíveis nos dois menires, indicam tentativas falhadas de debitagem dos blocos. No Menir 1, no entanto, as duas tentativas de cortes transversais tiveram êxito, embora apenas tenha sido utilizada a extremidade distal; a parte mesial, talvez por ter falhado uma tentativa de corte longitudinal, foi abandonada no local.

As marcas de corte, presumivelmente contemporâneas do colapso dos menires, sugerem, como é óbvio, uma intervenção oportunista, com o objetivo de aproveitar a matéria-prima dos blocos, fenómeno que está bem estabelecido noutros monumentos da região. Não podemos excluir, no entanto, a possibilidade de outras motivações, nomeadamente a clássica caça ao tesouro ou mesmo motivações de ordem religiosa, atendendo a que o local não corresponde aos padrões de implantação da generalidade dos sítios romanos e que, por hipótese, se pode vir a revelar, ele próprio, um santuário.

Fig. 5.29 - Representação gráfica dos diversos tipos de cerâmicas recolhidas.


                                            
                                            

Fig. 5..30 - Cerâmicas da Idade do Bronze,da escavação dos menires de S. Sebastião


Fig. 5.31 - Cerâmicas da Idade do Bronze, provenientes da escavação dos menires de S. Sebastião

Foi também identificada uma importante ocupação do sítio, nos inícios da Idade do Bronze; trata-se, ao que parece, de uma presença de tipo ritual ou funerário, atendendo à morfologia das peças cerâmicas abundantemente recolhidas: todas de pequenas dimensões (pequenos esféricos e taças carenadas, na maior parte, excluem liminarmente uma função de carácter doméstico. A mesma conclusão resulta da análise do estado de conservação das cerâmicas deste conjunto que, apesar da perturbação, em época romana, das eventuais estratigrafias pré e proto-históricas (em todas as áreas intervencionadas, foram recolhidos materiais romanos até ao substrato geológico), se apresentam relativamente pouco fragmentadas, tendo, muitas delas, permitido reconstrução gráfica integral.

Finalmente, foi confirmada uma ocupação mais antiga, atribuível ao Neolítico antigo/médio ou mesmo ao Mesolítico), atestada pela recolha de restos de talhe de sílex e duas lamelas (uma de dorso abatido), igualmente de sílex (Estampa 20, 6-11) ; trata-se de mais um elemento, sem dúvida limitado, a somar aos que têm sido sistematicamente recolhidos nas escavações de quase todos os sítios com menires, escavados, nos últimos anos, no Sul do país e que, com as devidas precauções, é legítimo relacionar com a eventual fundação do monumento.

Ficaram, ainda assim, por resolver algumas das questões que se tinham colocado à partida, assim como outras abertas com base nos resultados obtidos.

Não foi possível, por exemplo, esclarecer cabalmente, atendendo às dimensões limitadas da área escavada, se estamos efetivamente em presença de um verdadeiro par de menires ou apenas do que resta de um recinto megalítico (ou mesmo de um alinhamento), apesar de a hipótese do par de menires ter ganho alguma consistência e de se tratar de um fenómeno largamente documentado em outras áreas da Europa atlântica (Burl, 1993: 18; Giot, 1988: 322); em contrapartida, tem sido igualmente observado, em muitos casos, o desaparecimento dos menires de menores dimensões que faziam parte de conjuntos de que restam, hoje em dia, apenas os monólitos demasiado grandes e que, por isso, levantavam problemas técnicos de difícil resolução (Béneteau, 2000; Le Roux, 1999).

Também não foi possível caracterizar funcionalmente, de forma inequívoca, a ocupação da Idade do Bronze, devido às perturbações pós-deposicionais provocadas pela ocupação romana do sítio; a abertura de um sistema de sondagens em áreas diferentes criteriosamente seleccionadas, poderia, teoricamente, esclarecer, no futuro, esta questão.

Por falta de tempo e de meios técnicos, não foi ainda possível escavar o que resta do enchimento préhistórico do alvéolo do Menir 1, U.E. [11]; este, aparentemente, encontra-se parcialmente preservado, juntamente com com o que sobrou da respectiva coroa de implantação; porém, para levar a cabo esta operação, haveria que deslocar o monólito da sua posição actual. Também no caso do Menir 2, haveria que escavar o espaço à volta da respectiva extremidade proximal o que, pelo menos do lado Norte, só será possível removendo o monólito.

Apesar dos muitos aspectos que ficam em aberto, importa desde já salientar que os menires de S. Sebastião constituem, em vários aspectos, um monumento excepcional: o Menir 2 é, sem dúvida, o mais volumoso de todos os que estão inventariados no Alentejo Central, enquanto o Menir 1 devia ser igualmente, quando intacto, um menir de comprimento apreciável; para além disso, localizam-se na cota mais alta, em relação a todos os menires da região, e a uma distância considerável das fontes de matéria prima mais próximas.

Fig. 5.32 - Fossa de violação do menir 1, em fase de escavação.

Fig. 5.33 - Fossa de violação, alvéolo e restos da coroa de sustentação, no final dos trabalhos.

Fig. 5.34 - Perfis estratigráficos da área do menir 1

Fig. 5.35 - Perfis estratigráficos da área do menir 2

Fig. 5.36 - Vista geral dos trabalhos de escavação.

                                                  Fig. 5.37 - O menir 1, no início da escavação da fossa de violação.

Fig. 5.38 - O menir 1, no final da escavação

Fig. 5.39 - O menir 2, no final da escavação.

Tendo em conta as relações espaciais, parece evidente que os menires de S. Sebastião fazem parte integrante de um conjunto de monumentos excepcionais, de que se destacam os “cromeleques” dos Almendres (nº 1) e da Portela de Mogos (nº 4), todos localizados nos cabeços mais destacados da extremidade oriental da serra de Monfurado, sobre terrenos de gnaisses e implantados junto ao topo de vertentes expostas a Nascente.

5.7. Síntese dos resultados das escavações

Os resultados do conjunto das escavações realizadas devem, naturalmente, ser cruzados e confrontados com a informação obtidas noutras escavações e, de um modo mais geral, sobre os menires e os respectivos contextos.

Tratando-se de uma realidade complexa, com notória variabilidade inter e intrarregional, é natural que uma parte da informação obtida reforce o carácter único de cada sítio, com um projeto próprio e uma história exclusiva. Por outro lado, existe, certamente, um fundo comum e laços de parentesco generalizáveis, em diversos graus e qualidades.

De entre os resultados específicos destas escavações convém desde já destacar:

1. a ocorrência, em número sempre muito limitado, de artefatos líticos, em sílex, nomeadamente lamelas, buris, furadores, raspadeiras e outros, que denunciam um momento antigo dentro da sequência neolítica regional. Em contraponto, note-se a ausência ou a escassez relativa de cerâmicas, com consequências certamente no tipo de utilização reservada aos monumentos;

2. a ausência de materiais dentro dos alvéolos dos menires; a ocorrência de fragmentos de mós e machados de secção circular, integrados nas estruturas de menires, constitui a única, mas muito significativa, excepção.

3. a reocupação/reutilização de alguns sítios com menires. Essas reutilizações não parecem ter sido nem sistemáticas, nem simultâneas;

4. a presença recorrente de alvéolos assimétricos, com um lado rampado, preenchido por uma coroa de sustentação reforçada. Este detalhe permite, inclusive, conjecturar sobre as áreas de origem eventual dos blocos. Esta observação foi feita, recentemente, também a propósito dos menires da Vendeia (Beneteau, 2000: 217-223) (Fig. 5.39);

5. de uma forma geral, em termos de perspectivas futuras, no estudo dos menires, é de sublinhar o facto de, nos sítios escavados, ter sido possível recuperar informação sobre a posição original da maior parte dos monólitos. Os aspectos, ainda mal balizados, relacionados com as plantas dos recintos, poderão, no futuro, vir a ser esclarecidos através da escavação de recintos como o Tojal, as Fontaínhas, o Monte da Ribeira, o Sideral ou as Casas de Baixo, para além dos Perdigões, onde os fenómenos sedimentares foram mais complexos e as estratigrafias prometem resultados mais consistentes. Por outro lado, é importante, logo que possível, testar métodos de datação alternativos, nomeadamente a OSL, que, mesmo que necessite ainda de alguma contenção, parece constituir uma esperança indiscutível para o estudo dos menires.

Fig. 5.40 - Proposta de reconstituição do método de ereção e fixação dos menires (seg. Beneteau, 2000: 222, adaptado).


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Abstract

     Este trabalho corresponde ao Volume 1 de uma Tese de Doutoramento, defendida na FLUL, em 2005 e aprovada por unanimidade. O júri, como ...