11.1. Vendeia
Um estudo monográfico recente (Béneteau, 2000), centrado num conjunto megalítico com forte personalidade, localizado no Sul da Vendeia, fornece-nos uma série de dados e de propostas, úteis como contraponto extrapeninsular para um enquadramento mais amplo dos menires alentejanos. Na verdade, se assumirmos alguns pontos comuns entre os menires alentejanos e bretões, a Vendeia poderia, teoricamente, corresponder a um passo intermédio, em termos geográficos, entre ambas as regiões.
O tipo de monumento menírico mais característico desta área do Centro-Oeste francês, é o alinhamento curto, constituído por 3 a 7 menires alinhados de acordo com “cânones arquiteturais” bem definidos: em “cortejo”, em “frontispício” e “com satélite” (Béneteau, 2000: 172, 173), de acordo com a posição relativa dos monólitos de diferentes dimensões, de que se destaca sempre um menir “gigante”. Trata-se de modelos específicos ausentes da Península Ibérica - se deixarmos de lado algumas casos menos claros - envolvendo monólitos de dimensões muito monumentais, que chegam a atingir, como acontece com o menir grande do monumento de Champ de César, valores da ordem dos 6, 90 m de altura, acima do solo, com um peso estimado rondando as 80 toneladas.
Fig. 11.1 - Menires que integram os alinhamentos curtos da Vendeia. A: Champ de César; B: La Pierre (Beneteau, 2000: 174, 182)
Fig. 11.2 - Dimensões dos menires da Vendeia (Seg. Beneteau, 2000)
Fig. 11.3 - Gravuras setecentistas representando menires da Vendée (seg. Beneteau, 2000: 287, 288).
Para além destes alinhamentos curtos, existe, nesta região, um número significativo de menires isolados, alguns de dimensões muito mais modestas, de que se destaca um bom número cujas formas, em que houve, geralmente, algum ligeiro agenciamento, sugerem silhuetas antropomórficas.
Existe igualmente um certo número de menires, de pequenas dimensões, que parecem relacionar-se com monumentos megalíticos funerários: uns localizam-se nas imediações dos dolmens e outros foram mesmo incluídos no interior das arquiteturas funerárias; num único caso que foi, aliás, objeto de escavação, um par de menires surgiu inserido no interior de um fosso circular, com evidências de uso funerário, em época campaniforme (o recinto de Terriers) (Béneteau et al., 1993).
Trata-se de uma área repartida por diferentes paisagens megalíticas, com realidades fisiográficas (nomeadamente em termos dos substratos geológicos) bastante diferenciadas, mas unidas por uma importante via natural de trânsito, ao longo da planície litoral (L’Helgouach et al., 2001: 31). É interessante observar que, em toda esta vasta área, não se conhecem recintos megalíticos, monumentos que, pelo contrário, são relativamente frequentes no Sul da Bretanha; estão igualmente ausentes os grandes complexos megalíticos que são a imagem de marca do megalitismo do Golfo do Morbihan.
As distribuições espaciais dos menires e das sepulturas de corredor apresentam aqui algumas discrepâncias bem vincadas; note-se que os alinhamentos curtos já referidos, concentrados na região de Avrillé (Sul da Vendeia), ocupam uma área onde aqueles monumentos funerários estão ausentes; o mesmo se passa, aliás, junto ao estuário do Loire, no plateau de Corsept-Chauvé, nas Mauges e no Choletais (no Sudoeste do Maine-et-Loire e Norte da Vendeia), enquanto em Pornic-Le Clion temos a situação inversa (L’Helgouach et al., 2001; Cassen et al., 2000: 198).
Em geral, pode afirmar-se que os menires desta área são um fenómeno de forte expressão litoral, quer pela existência de maiores concentrações de menires “de forma nitidamente mais ‘organizada’ na franja costeira”, quer pelas dimensões do menires que, nas áreas mais afastadas da costa, raras vezes ultrapassam os 3 m de altura (Beneteau, 2000: 29).
Para além de um ou outro conjunto amputado, que teoricamente podem corresponder a monumentos mais complexos, os menires aparecem, tal como no Sul da Vendeia, quase sempre agrupados em alinhamentos curtos, mais ou menos destruídos, ou surgem como menires isolados.
As matérias-primas utilizadas variaram em função dos recursos disponíveis nas imediações dos monumentos: aparecem documentados os granitos, os gnaisses, os arenitos, os calcários e o quartzo. Parece sobressair, no conjunto, “o pragmatismo das populações que se limitaram à rocha local” Beneteau, 2000: 30); no entanto, existe, pelo menos um caso, o do menir de de La Tonelle, feito de uma rocha granitóide cujas jazidas mais próximas se encontram na ilha de Yeu, a cerca de 25 Km, em linha reta; mesmo considerando que a ilha parece ter estado ligada ao continente, na época da construção do menir, e admitindo a existência, atualmente submersa, de afloramentos daquela rocha, a uma distância menor, trata-se, sem dúvida de um caso que destoa do padrão geral.
A morfologia dos menires parece, mais uma vez, depender da morfologia dos blocos naturais disponíveis, sendo raros e de alcance muito limitado, os casos em que houve afeiçoamento; destaca-se notoriamente, sobretudo quando comparamos com os menires da Península ibérica, a robustez de muitos dos menires gigantes, traduzida numericamente por índices de alongamento e de adelgaçamento reduzidos; trata-se de menires muito volumosos que, mesmo sem se destacarem demasiado, em termos de altura, ultrapassam largamente a tonelagem dos menires peninsulares mais pesados; em contrapartida, comparada com a Bretanha, que constitui o prolongamento, para Norte, da área analisada por Gérard Béneteau, esta fica claramente a perder, quanto à volumetria dos menires mais imponentes.
Em termos de implantação na paisagem, predominam as posições dominantes, embora existam excepções a este padrão. Algumas dessas excepções beneficiam, aliás, da possibilidade teórica de serem aproximativamente datadas, com base na cronologia das oscilações do nível do mar.
As cronologias são ainda, para a generalidade dos casos, um problema complexo, a exigir dados em que os menires são, por norma, muito avaros. Sobre esta matéria, dispomos, por ora, de mais interrogações do que conclusões; Gérard Béneteau arrisca, para os monumentos que, apesar de tudo, são melhores conhecidos, na região, os referidos alinhamentos curtos, uma “relação com os ‘movimentos culturais’ que modificam estruturalmente a sociedade neolítica, no decurso do período de transição entre o Neolítico médio e o Neolítico recente” (Béneteau, 2000: 284). Esta cronologia foi, entretanto criticada, com base nos dados recentemente publicados sobre o Alentejo e Algarve ocidental, e na já referida exclusão territorial entre os alinhamentos e as sepulturas de corredor da Vendée (Cassen et al., 2000: 198).
11.2. Bretanha
Na Bretanha, e, em particular, no Sul da Bretanha, encontramos a maior concentração de menires da Europa e, eventualmente, do mundo; para além disso, de entre os milhares de monólitos sobreviventes, existem alguns dos maiores blocos de pedra alguma vez transportados e eretos pelo Homem.
Fig. 11.4 - Estelas-menires de Locqmariaquer.
Fig. 11.5 - Mapa da distribuição, na Bretanha, de conjuntos de menires (seg. Le Roux, 2003: 379).
Fig. 11.6 - Litografia oitocentista representando os alinhamentos de Carnac (seg. Giot et al., 1998: 549).
Fig. 11.7 - Os recintos de Er-Lannic (seg. Gouezin, 1998: 6, 7, adaptado)
No Golfo do Morbihan, destacam-se os alinhamentos de Carnac e o menir de Locqmariaquer que são, certamente, os exemplos mais impressionantes; porém, o fenómeno atingiu igualmente picos notáveis na Finisterra (alinhamentos como o de Lagatjar e menires gigantes como os de Kergadiou ou de Kerloas); trata-se, nos dois casos, de áreas muito próximas do litoral, embora existam também algumas manifestações complexas no interior do maciço armoricano, de que o exemplo mais famoso, por ter sido objecto de trabalhos extensos (Le Roux et al., 1989), é o dos alinhamentos de Saint Just , na Ile-et-Vilaine.
A diversidade litológica das matérias-primas condicionou, obviamente, a morfologia (e a dimensão) dos menires bretões.
As estelas-menires decoradas que foram, na sua maioria, reutilizadas em monumentos funerários, são quase todas de ortognaisse. Trata-se de uma rocha granitóide, em cujos afloramentos foram identificadas duas variantes: uma deu origem aos “blocos mais ou menos fusiformes”, como o de Locmariaquer, com cerca de 20 m de comprimento; a outra, com estrutura mais orientada, deu origem a blocos de tendência tabular, como é o caso da estela decorada que cobre a sepultura do Mané-Rutual (Le Roux, 1997: 9).
A maior parte dos menires bretões é feita de granito, muitos deles com formas muito irregulares que denunciam, sem margem para dúvidas, o carácter inteiramente natural da forma dos monólitos (Sellier, 1991; Le Roux, 1999a). As formas irregulares, mas com perfis mais angulosos, são particularmente características dos menires de quartzo filoniano, frequentes nos terrenos metamórficos do interior da Bretanha.
Também no interior, são conhecidos alguns menires em xisto, quartzito e em arenito (Giot, 1988: 320), sendo os primeiros constituídos geralmente por lajes muito achatadas, como as que se podem observar, por exemplo, nos alinhamentos de Monteneuf (Lecerf, 1999).
Apesar das dimensões impressionantes dos grandes menires da Bretanha (o Grande Menir Quebrado de Locmariaquer ocupa, em todo o caso, um lugar à parte, uma vez que aquele que se segue no ranking tinha, quando inteiro, um comprimento de “apenas” cerca de 14 m (trata-se do menir reutilizado na Table des Marchand, em Er-Grah e em Gavrinis), “apenas meia dúzia de outros monólitos bretões ultrapassa os 7 m e sem dúvida mais uma dúzia acusariam mais de 5m” (Le Roux, 1999a: 213); a somar aos grandes menires, eretos ou tombados, mas que permanecem no local original de implantação, haveria que contabilizar ainda os fragmentos dispersos, reutilizados em monumentos mais recentes que, nos últimos anos, se têm vindo a identificar no Morbihan (Briard, 1990: 29, 30; Giot et al., 1998: 283-Giot, 1988). A par destes monumentos, conhece-se igualmente cerca de uma dezena de recintos megalíticos com plantas em ferradura ou quadrangulares. O caso melhor conservado é o de Er-Lannic, com dois recintos em ferradura, escalonados em função da topografia do local, ficando, atualmente, o recinto Sul totalmente submerso, e o recinto Norte, parcialmente.
As plantas dos dois recintos, tal como as dimensões dos menires que os constituem, são muito distintas: enquanto o recinto Norte, tem uma planta sub-quadrangular e os menires se encostam lado a lado, o recinto Sul tem uma planta em ferradura e os menires são espaçados; além disso, os menires do recinto Sul apresentam dimensões muito superiores.
As escavações no recinto Norte - o único sobre o qual existem indícios cronológicos - apontam para datas, em função dos materiais recolhidos, de meados do V milénio a. C. O recinto Sul, como tudo leva a crer, deve ser mais antigo; a construção de um novo recinto ficaria, naturalmente, a dever-se à subida do nível da água do mar.
A própria ocupação que as escavações revelaram, com um abundante conjunto de cerâmica de tipo Castelic (a mesma que, em Locmariaquer marca uma ocupação anterior aos monumentos funerários), pode ser posterior (quanto?) ao monumento.
Em todo o caso, a comparação com as plantas dos recintos alentejanos, revela semelhanças muito maiores entre estes e o recinto Sul de Er-Lannic.
Alguns dos recintos do Morbihan parecem, por outro lado, ter constituído os focos a partir dos quais foram estruturados os vários troços de alinhamentos (Le Roux, 1999a: 221, 222; Sherratt, 2001: 121).
A associação dos menires com as estruturas funerárias é, no geral, ambígua. De facto, e esta observação pesou certamente nas cronologias tardias que, tradicionalmente, eram admitidas, existem casos em que os menires são certamente posteriores a essas estruturas (ou, no mínimo, contemporâneos), enquanto noutros, os menires as antecedem (Lecornec, 1994, 1997); de facto, numa listagem não exaustiva, coligida recentemente, foram contabilizados 49 blocos com gravuras, alegadamente colocados em posição secundária, em diversos contextos funerários (Cassen et al., 2000: 199).
No que diz respeito às relações entre os menires bretões e a paisagem, C.-T. Le Roux chamou a atenção para a gradação observada, nos grandes alinhamentos, em que os menires de maior volumetria ocupam as cotas mais altas e em que, progressivamente, as dimensões dos monólitos diminuem no sentido do declive, solução que aquele autor atribui a uma intenção de distorcer a perspectiva (Le Roux, 1999a: 222; 2003); esta característica, assim como a implantação dos recintos junto ao topo de elevações, “embora nunca mesmo no topo” (Giot, 1988: 321) são dispositivos cénicos que, como se viu, estão bem documentados, por exemplo, nos recintos alentejanos; o mesmo autor observou igualmente, a propósito dos menires isolados, que estes, com frequência, se encontram implantados no alinhamento de vales, facilitando a visualização de e para o monumento.
Os estudos, nem sempre muito consistentes, sobre a arqueoastronomia dos menires bretões, remonta ao século XIX. Os excessos, muitas vezes delirantes, criaram, aqui como nas Ilhas britânicas, potentes anticorpos no meio arqueológico, ainda hoje oscilando entre o cepticismo absoluto e um interesse muito limitado (Giot et al., 1998).
Fig. 11.8 - Principais motivos decorativos dos menires bretões (segundo Lecerf, 1999: 86)
Fig. 11.9 - Decoração do reverso da estela/esteio de cabeceira da Table des Marchand (seg. Cassen et al, 2000: 296)
Fig. 11.10 - Quadrilátero e crescente do menir de Kermaillard (Segundo Briard, 1990: 5, adaptado)
Salienta-se, em todo o caso, o aparecimento, a partir dos anos setenta, de hipóteses baseadas nos alinhamentos lunares, como resultado dos trabalhos desenvolvidos na Bretanha, por Alexander Thom, centrados nos grandes alinhamentos do Morbihan (Thom e Thom, 1978). Note-se que as escavações efetuadas, recentemente, no conjunto de Locmariaquer, revelaram que o grande menir quebrado fazia parte de um alinhamento de 19 menires (Fig. 6.30), valor que parece refletir o ciclo das pausas lunares (18, 6 anos).
A decoração patente nas grandes estelas-menires da Bretanha consiste, sobretudo, em motivos figurativos, em que se destacam o báculo e o machado e um outro motivo, tradicionalmente designado como machado-charrua e que deve, mais provavelmente, representar um cetáceo (Cassen e Vaquero, 2000; 2003; 2004; Whittle, 2000); atendendo aos paralelos observáveis nos menires do Alentejo Central, são particularmente interessantes dois outros símbolos que aparecem associados (embora nem sempre da mesma maneira): o crescente e o quadrilátero. Existem ainda figurações mais raras, como é o caso dos herbívoros cornudos (eventualmente caprídeo e bovídeo), entre outras (Lecerf, 1999: 86; Giot et al., 1998: 289-301). A técnica mais frequente é o baixo-relevo (Patton, 1993: 90, 91), seguida da gravura por picotagem.
Como já referi, foram precisamente estas estelas que, depois de fraturadas, na sua maioria - e, por vezes, invertidas ou posicionadas com a decoração oculta - foram reutilizadas na construção de monumentos funerários.
A descoberta deste fenómeno implicou, entre outros aspectos, uma revisão da posição cronológica das estelas-menires: um primeiro modelo explicativo, em que se procurava manter, sem grandes danos, o status quo cronológico, sugeria que se tratava de “ídolos” que tinham sido erigidos para, ato contínuo, serem abatidos e inseridos na construção das necrópoles (L’Helgouac’h, 1983).O carácter intencional da destruição da maior parte das grandes estelas de ortognaisse tem sido contestado, com base em diversas evidências, sendo, em alternativa, aparentemente mais aceitável a destruição acidental devida à atividade sísmica (Cassen et al., 2000: 200-202).
A anterioridade genérica dos menires e, em particular destes menires, em relação ao megalitismo funerário é, no entanto, uma ideia que, apesar de não abundarem evidências conclusivas, tem vindo a ganhar terreno, na última década, entre os megalitistas bretões (Giot et al., 1998; Cassen et al., 2000); nesta região, os menires parecem, efetivamente, constituir “a primeira expressão do monumentalismo” (Le Roux, 2003: 373).
Na verdade, a questão complica-se, sobretudo, por haver algumas sepulturas megalíticas com datações radiocarbónicas muito altas, como, por exemplo, Barnenez (Giot, 1987) ou Bougon (Mohen e Scarre, 2002: 101), dentro da primeira metade do V milénio a.C..
Estas datas, ainda muito isoladas e, em todo o caso, provenientes de monumentos de notável complexidade e longevidade, têm suscitado algumas reservas (Boujot e Cassen, 1993; 1998); no entanto, mesmo que se considerem válidas, essas datas serão sempre posteriores às cronologias atribuíveis a alguns dos menires bretões (Patton, 1993: 87; Scarre, 1998: 61; Le Roux, 1999: 214; ; Cassen et al., 2000: 197).
No limite, propôs-se mesmo, recentemente, que os temas inscritos nos grandes menires-estelas do Morbihan seriam “figurações próprias do mundo dos últimos caçadores-recoletores-pescadores do litoral” ou, de uma forma menos afirmativa , que “estas estelas seriam a obra das últimas sociedades ‘mesolíticas’, ou neolitizadas de fresco” (Cassen et a., 2000: 203).
A possibilidade da atribuição dos primeiros monumentos megalíticos bretões a uma fase mesolítica já tinha, aliás, sido sugerida por Jean L’Helgouach, com base na descoberta de uma indústria microlítica sob o monumento de Dissignac, no estuário do Loire (L’Helgouach, 1976); esta hipótese foi, no entanto, rejeitada, com base numa releitura tafonómica da estratigrafia (Thorpe, 1996); na verdade, a maioria dos autores prefere discernir naqueles primeiros menires e, em particular, nos símbolos que eles exibem, a celebração do modo de vida neolítico (Bradley, 1989; Patton, 1993; Thorpe, 1996; Calado, 2002).
Com os dados disponíveis, parece bastante viável a construção dos primeiros menires bretões algures na segunda metade do VI milénio a.C. ou, nas leituras mais cautelosas, nos meados do V milénio a. C.; um tal enquadramento implica uma certa contemporaneidade com o processo de neolitização da Bretanha, ele próprio deficientemente datado e compreendido (Scarre, 1992; Giot et al., 1998; Laporte, 2001; Marchand, 2003).
Nesse contexto, há muito que se propôs uma relação directa entre as exuberantes manifestações megalíticas e as sociedades mesolíticas do Sul da Bretanha, conhecidas sobretudo a partir do estudo dos cemitérios/ concheiros de Téviec e Hoedic (Péquart et al., 1937; Péquart e Péquart, 1954), e que, comparadas com as de outras regiões, “teriam povoados maiores e mais permanentes e um maior grau de diferenciação social” (Patton, 1993: 64).
A ideia de que os monumentos teriam sido uma resposta dos grupos neolíticos, num cenário de pressão demográfica e de conflito pelo controle dos recursos, foi avançada por Colin Renfrew, ainda nos anos setenta do século vinte (Renfrew, 1976). Depois disso, vários autores têm defendido um papel mais ativo dos mesolíticos bretões na génese do megalitismo funerário, atendendo à utilização de estruturas pétreas nos enterramentos dos famosos concheiros bretões (Sherratt, 1990; Scarre, 1992; Whittle, 1995).
Seja como for, a ereção de menires não se extinguiu nesse impulso inicial: um frenesim construtivo parece refletir-se nos grandes alinhamentos de Carnac que, aparentemente, terão sido obra das comunidades do Neolítico final, algures no IV milénio a.C..
Por outro lado, o menir de Kerloas, o maior atualmente ereto, na Finisterra, incluía materiais da Idade do Bronze no alvéolo de implantação (Giot et al., 1998: 517), havendo ainda um ou outro caso de menires reutilizados na Idade do Bronze (Briard, 1989: 35; Lecerf, 1999: 72). Finalmente, na Idade do Ferro, foram erigidas estelas, muito afeiçoadas, cuja relação genética com os menires neolíticos, permanece meramente hipotética.
11.3. Ilhas Britânicas
Na Grã-Bretanha e Irlanda, os menires ocorrem em número muito elevado e, para além dos monólitos
isolados, existem diversos tipos de monumentos compósitos, desde os pares de menires, até aos grandes
recintos megalíticos (alguns deles, com as recumbent stones), passando pelos alinhamentos curtos e longos, pelas avenidas e por associações complexas com sistemas de fosso e talude ou mesmo com monumentos megalíticos funerários (Burl, 1979, 1993, 1999; Malone, 2001; Cooney, 2000) (Fig. 11.12, 11.13, 11.14).
As cronologias tardias, por comparação com outras realidades continentais, para o arranque da neolitização nas Ilhas Britânicas, colocam estes monumentos à margem da génese do megalitismo da Europa atlântica, pelo menos numa perspectiva histórica. Na verdade, tanto o clássico “pacote neolítico” como os mais antigos monumentos (incluindo aqui o megalitismo) acabam por chegar às Ilhas a partir do Continente, o que, evidentemente, não exclui, antes pelo contrário, o desenvolvimento de muitos aspectos originais.
No que diz respeito aos menires, a maior parte insere-se em recintos circulares (ou sub-circulares), um tipo de monumentos que, tal como as avenidas ou as recumbent stones, está virtualmente ausente no continente, onde os recintos são quase todos (quando existem dados para este tipo de avaliação) de formas abertas, em semi-círculo ou ferradura. Em contrapartida, os casos conhecidos de recintos em ferradura, na Grã-Bretanha e Irlanda, são raríssimos e diferem, em muitos aspectos, dos seus congéneres continentais; o mais conhecido é, obviamente, o recinto circular de Stonehenge, no Sul da Inglaterra, que engloba duas estruturas em forma de ferradura. Trata-se, efetivamente, de um recinto muito complexo, inicialmente constituído por um circuito de fosso e talude, ao qual se foram acrescentando novos detalhes; A . Burl inclina-se fortemente para uma origem bretã dos construtores do celebérrimo monumento inglês, com base não só nessas plantas, aparentemente estranhas às Ilhas Britânicas, mas também em alguns motivos gravados nos menires de Stonehenge, com paralelos mais ou menos óbvios no megalitismo bretão, e ainda numa série de paralelos artefatuais ( Burl, 1999: 152-167).
Todos os restantes casos de plantas em ferradura, nas Ilhas Britânicas, se inserem no interior de monumentos mais complexos, alguns deles de madeira ou de terra; está contabilizada cerca de uma dúzia e, mesmo assim, alguns deles levantam sérias dúvidas; note-se que, por outro lado, se conhecem cerca de 1300 recintos circulares, de planta fechada, no Reino Unido e na Irlanda (Burl, 1999: 155).
Os trilitos (uma forma de organizar os menires que é exclusiva de Stonehenge), para além da planta em forma de ferradura, apresentam, em alçado, outra característica reconhecível em monumentos bretões e alentejanos: a altura decrescente dos monólitos, de Oeste para Leste (Burl, 1999: 152).
Em termos de matéria-prima existe uma grande diversidade: granitos, doleritos, quartzos, arenitos, xistos e até lavas vulcânicas foram usadas para a construção de monumentos meníricos. As distâncias entre os monumentos e as presumíveis fontes de matérias-primas são geralmente pouco expressivas. Stonehenge constitui um caso à parte: as blue stones (doleritos) teriam, segundo alguns autores (Atkinson, 1979: 105), sido transportadas de uma distância de centenas de quilómetros (variável de acordo com os trajetos propostos), uma vez que os afloramentos mais próximos se encontram nos Montes Preseli, no Sudoeste do País de Gales.
No entanto, não existe unanimidade sobre este ponto: A. Burl, por exemplo, rejeita a possibilidade de uma tal empresa, defendendo antes que os referidos menires seriam blocos erráticos obtidos na própria planície de Salisbúria, onde atualmente, pelo menos, não parecem existir (Burl, 1999: 123).
Fig. 11.11 - Stonehenge, numa gravura do século XVII (seg. Burl, 1999: 144).
Fig. 11.12- Recintos circulares, nas Ilhas Britânicas (seg. Burl, 1979: 13).
Fig. 11.14 - Cartografia de diferentes tipos de menires agrupados, nas Ilhas Britânicas e Bretanha (seg. Burl, 1993).
Fig. 11.15 - Gravuras no menir exterior do recinto de Long Meg and Her Daughters
As dimensões e as formas dos menires irlandeses e britânicos são muito variadas: desde recintos cujos elementos afloram cerca de um metro ou menos, acima do solo, até blocos com dezenas de toneladas de peso e alturas da ordem dos cinco metros; em termos morfológicos, a matéria-prima parece ser a maior responsável pela diversidade, existindo blocos de formas muito regulares, cilíndricas ou ovóides, mas também menires extremamente irregulares e angulosos.
A maior parte dos menires das Ilhas Britânicas não são decorados; no Sul, Stonehenge representa, também neste aspecto, uma excepção: para além de armas (adaga e machados), ostenta uma (ou talvez várias) figura retangular e um possível báculo, no menir 57, temas que, como referi, têm sido relacionados com outros análogos da vizinha Bretanha (Burl, 1999: 162-167).
Nas áreas mais setentrionais, a decoração surge com alguma frequência, embora quase sempre limitada às covinhas, muitas vezes com um ou mais anéis concêntricos e às espirais (Fig. 11.15).
A cronologia dos menires britânicos e irlandeses dificilmente, com os dados disponíveis, recua além dos inícios do IV milénio a.C., prolongando-se, como fenómeno global, até, pelo menos, a Idade do Ferro (Burl, 1999; Bradley, 2004).
Também as opções paisagísticas são enormemente variadas; em geral, parece haver uma exclusão, nos sítios selecionados para a construção dos monumentos, dos afloramentos rochosos que lhes poderiam obscurecer a visibilidade. Num caso ou outro, parece, no entanto, haver um certo “diálogo” entre os menires e formações rochosas visíveis nas proximidades (Burl, 1999: 72-77).
11.4. Síntese
Considerados no seu conjunto, os menires da Europa Ocidental correspondem certamente a momentos e movimentos diferentes, embora seja possível rastrear um fundo comum, que subentende a existência de “fortes continuidades em vez de rupturas assinaláveis” (Bueno e Balbín, 2002: 639), nas diversas expressões artísticas que se escalonam entre o epipaleolítico e, pelo menos, a Idade do Bronze.
Porém, a análise do fenómeno, nessa escala, permite inventariar semelhanças e diferenças que escondem certamente sincronias e diacronias, mas também formas distintas de materializar as mesmas ideias e soluções adaptativas diversas, em função de sociedades diferentes, paisagens e recursos diferenciados.
Um aspecto a reter, desde já, é uma persistente conexão aparente entre os menires e os contextos funerários, perfeitamente confirmada em muitos dos menires mais tardios, como são os de Pavia, ou os dos cromelechs pirenaicos. No Norte de Marrocos, o grande recinto funerário de Mzorah (Mavor, 1976; Jean-Pierre Daugas, comunicação pessoal), poderia eventualmente relacionar-se com esse megalitismo funerário extemporâneo.
Em todo os caso, os menires mais antigos e, em particular, os do Alentejo e do Algarve exigem, por ora, explicações alternativas. Por outro lado, a vinculação cronológica e cultural dos menires isolados aos monumentos funerários que, muitas vezes, ocorrem nas suas imediações, não passa, na maior parte dos casos, de uma conjectura; é óbvio que, mesmo que exista uma relação, é possível concebê-la em termos de anterioridade dos menires em relação aos dolmens, ou vice-versa.
Fig. 11.16 - Comparação gráfica dos menires dos Almendres e da Vendeia, em função do peso.
Fig. 11.17 - Comparação gráfica das dimensões (C e L), dos menires do Alentejo Central, Catalunha, Pais Basco e Vendeia.
Fig. 11.18 - Comparação gráfica das formas (IAC, IAL) dos menires do Alentejo Central, Catalunha, Pais Basco e Vendeia.
As histórias longas de alguns destes conjuntos (Serna Gonzalez, 1997) permitem, no entanto, propor vínculos diacrónicos em que, eventualmente, os menires correspondam às fases mais antigas da monumentalização dos lugares e os usos funerários surjam como uma consequência das respectivas sacralizações. Com as devidas reservas, poderíamos invocar o costume medieval de sepultar os mortos em chão sagrado, no interior ou nas imediações das igrejas, o que não as torna, só por isso, monumentos funerários, nem estritamente contemporâneas dos enterramentos.
Note-se que, nalguns casos, como no dos já referidos menires da Córsega, apenas as fases mais
recentes são claramente funerárias (D’Anna et al. 2000; D’Anna e Leandri, 2000); uma sequência semelhantevislumbra-se, por exemplo, no conjunto de Locmariaquer, em que o alinhamento dos menires parece preceder os monumentos funerários de Er-Grah e da Table des Marchand.
Na verdade, essa mudança semântica, poderia eventualmente aplicar-se a todos os casos em que se suspeita da reutilização de menires em monumentos funerários.
Convém, no entanto, evitar generalizações precipitadas: efetivamente, alguns monumentos tardios, como Stonehenge ou os alinhamentos de Carnac, dificilmente poderiam ser interpretados como monumentos funerários, embora não se possa excluir liminarmente algum tipo de relação com eventuais cultos dos antepassados.
Creio que, nestes dois exemplos maiores do megalitismo europeu, os monumentos devem ser contextualizados nas paisagens culturais em que se inserem, onde, num e noutro caso, não faltam múltiplas evidências de monumentos funerários.
As evidentes descontinuidades entre as diversas áreas atrás comentadas, não são só geográficas: são cronológicas e culturais, em proporções que, naturalmente, constituem um desafio para futuros aprofundamentos da matéria. É, por outro lado, necessário e urgente que, nas diversas áreas megalíticas, se reúnam e contrastem os dados sobre os contextos (paisagísticos e arqueológicos) em que os menires ocorrem. Povoados, necrópoles, arte rupestre e monumentos são, nesta óptica, apenas as várias facetas da mesma questão.
Por agora, a imagem global sugere uma certa sincronia entre a Bretanha, particularmente o Morbihan, e o Sul de Portugal, áreas em que o aparecimento dos menires parece coincidir com a chegada dos primeiros impulsos neolitizadores.
As semelhanças entre os menires alentejanos e bretões (sobretudo os do Morbihan) têm vindo a ganhar peso, nos últimos anos, à medida que uns e outros vão sendo melhor estudados (Calado, 2002d; Cassen et al., 2000; Bueno e Balbín, 2002) e se conhecem melhor as realidades geograficamente intermédias.
Os aspectos mais apelativos são-nos proporcionados pela arte megalítica: báculos, crescentes e quadriláteros, executados em baixo-relevo, em menires-estelas (ou em estátuas-menires), não podem , razoavelmente, ser explicados por fenómenos de convergência.
Também os recintos em forma de ferradura, cujas plantas, orientações e implantações são, na Bretanha, basicamente idênticas às dos monumentos alentejanos, seriam, só por si, suficientes para atestar algum tipo de contacto entre as duas áreas.
Num grau menos explícito, por não serem exclusivas do Alentejo e da Bretanha, existem outras analogias que importa sublinhar como, por exemplo, as formas arredondadas dos menires e as reutilizações destes em monumentos funerários.
Por último, em termos contextuais, são os concheiros mesolíticos que melhor permitem estabelecer as inevitáveis conexões; além disso, embora os dados sobre o povoamento neolítico bretão sejam ainda pouco consistentes, há indícios de uma penetração - em todo o caso, melhor caracterizada a Sul do Loire - da cerâmica cardial, com afinidades diretas nas costas mediterrânicas do Sul de França. Existem, por outro lado, boas razões para admitir a chegada à Bretanha, de influências, mais ou menos diluídas, das culturas neolíticas oriundas do eixo reno-danubiano, através da Bacia parisiense (Cassen, 1993; Cassen et al., 1998b).
O peso relativo desses dois fluxos é uma das questões mais polarizadoras na investigação atual sobre o Neolítico bretão; visto do Alentejo, o problema parece merecer uma solução salomónica: se admitirmos contatos tão longínquos como os menires parecem implicar, seria de esperar interações e fluxos com as diferentes culturas que prosperavam, nos finais do VI milénio a.C., no quadro da Europa ocidental. Na verdade, existem indícios, talvez mais recorrentes do que os especialistas de uma ou de outra área geralmente admitem, de contatos entre as duas grandes tradições do Neolítico antigo da Europa ocidental (Guilaine e Manen, 1995). A presença, em latitudes superiores, de tradições cerâmicas relacionáveis com o mundo cardial, como a de La Hoguette ou a do Limbourg, há muito que sugere fronteiras de geometria variável, ao longo de um eixo litoral particularmente permeável.
Seja como for, com os menires significativamente ausentes quer no mundo cardial, quer na Europa loéssica, e com um Mesolítico final indiscutivelmente pujante, em pontos-chave da fachada atlântica, é natural que se procure uma explicação indigenista para a origem do fenómeno menírico.
Por outro lado, as principais diferenças entre os menires peninsulares e bretões, considerando apenas aqueles que, em ambas as regiões, parecem ser os mais antigos, são, antes de mais, diferenças de escala.
Apesar de representarem apenas uma pequena minoria, no número muito elevado de menires bretões (também ele incomparável com o de qualquer área peninsular), os grandes monólitos do Morbihan, sobretudo, representam um fenómeno muito peculiar, explicável certamente, por diversos fatores que determinaram um percurso histórico muito original; dentro deles, pesa concerteza um conjunto de características de ordem mesológica e económica, mas também geoestratégica (Giot et al., 1998).
A título de exemplo, embora seja certamente, um exemplo extremo, anote-se que só o peso estimado do Grand Menhir de Locmariaquer (280 toneladas) é muito superior à soma do peso estimado de todos os menires dos Almendres (175 toneladas) (Fig.11.19).
Esta diferença de escala, ainda que de uma forma mais atenuada, reflete-se também nos menires da Vendeia (Fig. 11.16).
As cronologias muito avançadas, admitidas para os menires das Ilhas Britânicas, em paralelo com o atraso mais geral da própria neolitização nesta área, sugerem, em conjunção com considerandos de ordem geográfica, uma certa inspiração nos menires bretões; esta explicação, por outro lado, é quase automática, quando se consideram os menires da Vendeia.
Na Península Ibérica, à excepção do Sudoeste, são mais as interrogações que as respostas; no entanto, vários indicadores sugerem cronologias avançadas para a maior parte dos menires.
As implantações, tardias ou não, dos primeiros menires nos Pirinéus poderiam, também por critérios geográficos, apontar para uma origem direta, ou indiretamente, bretã; o Norte de Portugal e a Galiza, assim como, eventualmente, a Cantábria ocidental, poderiam, por idênticos critérios, corresponder a influências, embora certamente muito diluídas ou transformadas, com origem no Sudoeste peninsular.
É fundamental, nestes exercícios comparativos, ter em mente as descontinuidades geográficas, relativamente bem vincadas, e as eventuais descontinuidades cronológicas envolvidas.
O facto, bastante provável, de que, mesmo excluindo os fenómenos epi-megalíticos que se prolongaram até à Idade do Ferro, estejamos perante uma longa diacronia, de dois ou três milénios, implica que seja, por enquanto, prematuro tratar os menires europeus, ou mesmo peninsulares. como um todo.
Pelo contrário, é fundamental individualizar e caracterizar áreas geográficas e culturais bem definidas e contrastá-las com os respectivos contextos arqueológicos e paisagísticos, trabalho que, na maior parte das áreas, está todo por fazer.
É curioso que na Bretanha ou no Sul de Inglaterra, provavelmente devido à ofuscação produzida, no curso normal da investigação arqueológica, pelos monumentos excepcionais, os dados sobre o povoamento são, de um modo geral, muito irrisórios (Bruck, 1999; Giot et al, 1998).
Fig. 11.19 - Comparação entre o recinto dos Almendres e o grande menir de Locqmariaquer.
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